A casa do pensamento crítico

15.02.2016

Valor Econômico | Perfil
Joselia Aguiar
"Esse é o momento de não recuar", diz Ivana Jinkings, da Boitempo, que quer investir em questões raciais e de gênero
 
Militante comunista de projeção na Amazônia, Raimundo Jinkings (19271995) escolheu para a pequena editora que abriu durante a ditadura um nome que não levantasse suspeitas: Boitempo. A palavra fora inventada por Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) para dar título não só a um poema como ao conjunto de três volumes sobre sua infância no campo. O poeta chegou a enviar uma carta autorizando o uso do nome.
 
A polícia, no entanto, nunca se convenceu do propósito da casa editorial paraense. Antes mesmo de sair da gráfica, os títulos, que incluíam de Mao Tsétung (1893-1976) a umbanda, quase sempre eram recolhidos. "Havia buscas constantes em nossa casa, e levavam o que tinha capa vermelha, mesmo que fosse livro de receita", diz Ivana Jinkings, de 54 anos, a caçula de cinco irmãos.
 
Quando fundou sua própria casa editorial, há 20 anos, após trocar Belém por São Paulo, ela não teve dúvidas em como batizá-la Boitempo, para homenagear a aventura do pai.
 
Não foi como dono de editora, e sim livreiro que Raimundo Jinkings se notabilizou entre livros. Em Belém, a livraria que montou com seu sobrenome da parte de um avô britânico estabelecido no Maranhão se tornou ponto de encontro de intelectuais. O negócio surgiu por uma necessidade. Após a prisão pela militância, não pôde voltar a suas funções no Banco da Amazônia. 
 
Primeiro, montou uma banca na feira? depois, aproveitou o conhecimento que tinha das editoras do país para estabelecer sua loja, de início sediada onde residia com a família. Crescida a empreitada, mudou-se para um sobrado no bairro Batista Campos.
 
Ainda menina, Ivana ajudava a limpar e arrumar os livros? na adolescência, atendia aos clientes. Na época de entrar na faculdade, escolheu biologia. Iria se especializar em genética na pós-graduação.
 
O retorno para a antiga rota ocorreu, casada e com filha, ao se mudar para a capital paulista acompanhando o primeiro marido, empresário do ramo de madeira.
 
Sem ser militante, e mais pelos contatos do pai, foi trabalhar num jornal do partido, "A Voz da Unidade", onde descobriu vocação para lidar com texto. Mais tarde, passou por editoras como Ática, Atual e Scritta, as duas últimas extintas. O segundo filho já tinha nascido quando pensou que poderia deixar de ser funcionária para montar uma empresa. "Eu pensava: 'Quero uma vida mais tranquila'. Era uma ignorância absoluta do que era uma empresa", diz. Para se aconselhar, buscou a opinião de amigos do meio editorial. "Não faça essa loucura", escutava.
 
A exceção foi o pai, grande incentivador, ajudando-a a custear os primeiros livros. De tão obsessiva, a estreia não ficava pronta. "Liberei para a gráfica quando não aguentava mais, e não porque me dava por satisfeita." "Napoleão", livro que revela a faceta de historiador político de Stendhal (17831842), recebeu boa acolhida, com capas de cadernos de cultura. Ivana esperava cerca de 15 pessoas no lançamento, mas apareceram mais de cem - "Intelectuais importantes que passei a conhecer naquele dia", diz.
 
Por uma triste coincidência, o pai morreu dias após a abertura da nova Boitempo, em setembro de 1995. A Livraria Jinkings, uma das mais importantes do Norte e Nordeste por cerca de quatro décadas, continuou a funcionar com administração dos filhos, até fechar em 2010.
 
O começo da Boitempo foi lento. No mercado de livros brasileiro, "começava a existir concentração, mas longe do que temos hoje. Havia um espaço para editoras que se dedicassem a obras de qualidade", diz Ivana. Continuou a conciliar a trajetória de empresária com a de mãe. Dois anos depois de fundar a editora, teve o terceiro filho, do segundo casamento.
 
"Não somos um partido político ou um movimento social. Nos interessa elevar a qualidade dos debates", diz Ivana Jinkings
 
Não era intenção concentrar-se em livros políticos, entre a filosofia, a história e as ciências sociais. O que pretendia era publicar textos inéditos ou há muito esgotados de grandes autores. Conquistou alguns prêmios Jabutis nos primeiros anos e foi então que a linha editorial se definiu tal como é hoje. Lembra-se de dois momentos. O primeiro, a edição do Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels, em 1998. Diversas editoras lançaram o livro naquela data, em que se completavam 150 anos do começo de sua circulação. Mas a Boitempo reuniu a maior quantidade de textos históricos para contextualizar a obra, um diferencial. Outro marco foi a publicação de Para além do capital, do filósofo húngaro István Mészáros, em 2001. Ambos continuam a ser
reeditados. 
 
Da primeira sede, uma sala no bairro do Bixiga, em São Paulo, até a sétima e atual, uma casa com dois andares e quintal no Alto de Pinheiros, a Boitempo se tornou dona de um dos catálogos políticos mais representativos do país, com 450 títulos clássicos e contemporâneos do pensamento de esquerda, uma média de três novos por mês.
 
Entre autores que integram a casa há nomes como Giorgio Agamben, David Harvey, Francisco de Oliveira, Maria Rita Kehl, Michael Lowy, Mike Davis, Perry Anderson e Slavoj Zizek. Contribuíram para a identidade da Boitempo coleções como a Estado de Sítio, dirigida por Paulo Arantes, Mundo do Trabalho, sob coordenação de Ricardo Antunes, e Pauliceia, tendo à frente Emir Sader. A cada seis meses, sai uma edição da revista Margem Esquerda. A fundadora diz que seus autores "se impõem acima das diferenças ideológicas". "Podemos concordar ou não com matérias [na imprensa] sobre nossos títulos, autores ou a editora, mas não somos um partido político ou um movimento social. Nos interessa elevar a qualidade dos debates."
 
Conhecida como editora do pensamento crítico, cresceu pouco em ficção, mas teve surpresas recentes, como o cubano Leonardo Padura, que vendeu 50 mil exemplares de seu O Homem que Amava os Cachorros na média, as tiragens são de 5 mil a 10 mil exemplares. A editora vinha registrando crescimentos entre 20% e 25% anuais. No ano passado, com editoras apresentando perdas, chegou a 15% ou 4,9% ao descontar a inflação. Os eventos que a editora organiza, assim como o site e um canal de vídeo, contribuem para os resultados. Em eventos, as vendas representam 6,5% do faturamento. No site, 11,4%. Outros números demonstram a eficiência da comunicação online. O blog registrou 1,1 milhão de visitantes únicos e 110 mil em média de visitas mensais em 2015. A TV Boitempo, que funciona via YouTube, tem 18.781 inscritos (o maior número entre editoras brasileiras), com média mensal de visualizações chegando a 60 mil, no mesmo período.
 
Ivana diz que é intuitiva. Atribui à sorte a sobrevivência em meio a intempéries e considera sua equipe (20 pessoas) "muito comprometida com o projeto". Fazem parte do grupo as editoras-adjuntas Isabella Marcatti e Bibiana Leme, a editora-assistente Thaisa Burani e a coordenadora de produção Livia Campos. Lamenta que hoje é menos editora e mais administradora ainda leva trabalho para casa, no mesmo bairro onde vive com dois filhos, e atuou na Libre, liga das editoras independentes. "Livro não é um produto qualquer. É um bem cultural e há uma série de políticas possíveis que ainda não existem."
 
Um projeto que havia anos pensava realizar marcou a comemoração de duas décadas: fez surgir o selo infantil Boitatá, que chega às livrarias com uma coleção que pretende apresentar às crianças temas como democracia, justiça e interesse social. O ponto de partida é a coleção espanhola Livros para o Amanhã, criada em 1977 pela extinta editora catalã La Gaya Ciencia, de Barcelona.
 
Ela conta que demorou para levar o projeto do selo infantil adiante "porque não queria que pensassem que era só para pegar uma fatia das vendas para o governo". Essas compras alavancaram editoras de todo o país, que agora passam por dificuldades com a interrupção, devido à crise, da renovação periódica de acervos públicos. No caso da Boitempo, as vendas para o governo não chegam a 1%. O Boitatá soma-se a outra iniciativa para alcançar o público mais jovem, o selo Barricada, de quadrinhos, lançado há dois anos.
 
O desaquecimento da economia não alterou planos. "Esse é o momento de não recuar", diz. No catálogo, quer investir mais em questões raciais e de gênero. Na passagem do 20º aniversário, não deu tempo de ficar pronto um livro que começou a organizar com a mãe, Maria Isa, com memórias do pai. Ficou para este ano. Em meio às comemorações, e tendo de falar a respeito da história de sua empresa, viu que, sem agir conscientemente, acabou erguendo uma editora de identidade muito próxima à que Raimundo Jinkings sonhou criar.