Dor e medo entre muros

15.05.2015

Sociedade | Valor Econômico
Ana Paula Sousa

A originalidade de Mal-estar, sofrimento, sintoma reside no próprio ponto de partida. Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), usa a psicanálise para pensar o país e para fazer a crítica social que, comumente, fica a cargo de sociólogos, cientistas políticos ou economistas. Na busca pela compreensão do sofrimento no Brasil contemporâneo, o autor sintetizou sua tese numa imagem poderosa: a vida em forma de condomínio.

A ideia de uma "psicopatologia do Brasil entre muros" subtítulo da obra e de uma existência regida pelas determinações dos síndicos vem conquistando uma adesão surpreendente para Dunker. Os debates organizados em torno do lançamento têm ficado lotados e o autor vem sendo bastante requisitado para entrevistas. Detalhe: o livro, apesar de instigante, é denso e repleto de teoria. A que se deve a empatia? "Acho que o livro coincidiu com este momento do país, no qual aquilo que era o sonho de consumo de muita gente, a vida isolada, com a convivência apenas entre iguais, se transformou num inferno particular", diz Dunker, em entrevista ao Valor. "A ideia de síndico nos remete às catracas todas pelas quais temos de passar e ao cumpridor de regulamentos que te atende quando você liga para um serviço de atendimento. Esse personagem foi se proliferando."

A hipótese central de Dunker é a de que a vida em forma de condomínio caracteriza o malestar dominante no capitalismo à brasileira, ou seja, ela é efeito e causa de formas especificas de sofrimento. E o sofrimento, escreve ele, mesmo quando individualizado, está diretamente ligado a sintomas sociais mais amplos: "É importante jamais separar o sofrimento individual dos movimentos sociais que lhe deram origem (...) O sofrimento é uma experiência compartilhada e coletiva".

Mas o que, afinal de contas, o condomínio nos diz sobre o sofrimento? Esse modelo de moradia, surgido no país no início dos anos 1970, preconiza, entre outras coisas, o isolamento do "resto", a sociabilidade seletiva e a privatização do que antes era público de segurança a praças. Excluise, assim, o que está fora dos muros. Acontece, porém, que, se convivemos apenas entre iguais, temos maior dificuldade de nos pôr no lugar do outro. Tendemos não apenas a ver crescer nosso narcisismo como a enxergar no outro naquele que não é espelho uma ameaça, amplificandose a lógica do medo.

Dunker - que participa do seminário Cidades Rebeldes, no Sesc Pinheiros, no mês que vem teve esse insight há 15 anos. Custou, no entanto, a aceitar a sugestão do filósofo Paulo Arantes, seu amigo, de transformar a ideia em livro. De lá para cá, o que mudou é que o isolamento se revelou impossível, seja pelos problemas de acesso, seja pelos delitos praticados no interior do condomínio. Os muros não bastam mais. E Dunker admite que o sonho que serve de mote ao livro entrou em decadência.

"O velho sonho está em crise. As novas gerações não querem nem pensar numa vida totalmente administrável, controlável e fechada entre muros", pondera. "Mas as novas aspirações ainda não estão claras. Essas transições de sonhos e de modos de vida são sempre longas." O que vai ficando claro é que algumas manifestações da sociedade, como o Movimento Passe Livre ou a proliferação das bicicletas pelas ruas, estão na mão oposta da ideia de condomínio.

A lógica da vida entre iguais ganhou, porém, outro "locus": o ambiente digital. "Na vida digital, a segregação se potencializa. No limite, você não faz sequer a seleção das pessoas com quem vai interagir", diz Dunker. Tratase de referência aos mecanismos que fazem que tenhamos mais acesso aos amigos virtuais cujas páginas curtimos com frequência. Isso sem falar em ferramentas como "bloquear" e "unfollow", que nos permitem erguer muros virtuais com um simples clique.

A vida nas redes sociais, como toda nova forma de vida, traz outros sintomas e formas de sofrimento. Na prática do consultório, Dunker nota que o grande sonho de consumo, hoje, é a intimidade, é o partilhar uma vida realmente comum com alguém. "As pessoas se perguntam muito como criar encontros verdadeiros e têm dificuldade para lidar com o diferente, com aqueles cujo 'perfil' não combina com o seu."

A prática psicanalítica é outro dos temas centrais de "Mal-Estar, Sofrimento, Sintoma". Dunker reconstitui a história da psicanálise no país e tenta entender as razões que nos levaram a abraçar com tamanho entusiasmo essa prática. Aqui, os psicanalistas são chamados para debates na TV e os consultórios de terapia vicejam. Mais uma vez, causa e sintoma se entrelaçam. "O malestar virou não só uma doença, mas um negócio: vendese bemestar", afirma. "O Brasil é o segundo ou terceiro maior consumidor de drogas psicotrópicas do mundo. Temos um excesso da diagnóstico e de psicanálise."

Ao longo de 20 anos de experiência clínica, Dunker viu o diagnóstico tornarse cada vez mais valioso. A cultura do diagnóstico tomou desde as políticas públicas até a carreira individual e, claro, passou a ser a tônica da medicina. Para tudo há um diagnóstico e um nome: dislexia, déficit de atenção, pânico, depressão, estresse, baixa autoestima, ansiedade. No livro, o autor se pergunta até que ponto o uso de medicamentos para tratar tais estados psíquicos está suprimindo um sintoma e "onde começa a extração de valor comportamental".

"Qual é o limite que separa o uso de substâncias que tratam sintomas de substâncias que criam um superávit de desempenho, quando falamos em indutores do sono, agentes calmantes, supressores de respostas de ansiedade ou relaxantes musculares?", questiona. Dunker enxerga, além disso, o risco de que o aumento generalizado da medicalização neutralize o potencial crítico que os sintomas psicológicos trazem para a compreensão de certos quadros sociais.

Curiosamente, ao mesmo tempo em que se vê patologia por todo lado, vai se substituindo a ideia de doença pela de transtorno ou dificuldade. Nesse sentido, os sintomas passam a ser vistos como "normais", enquanto determinadas formas de vida deixam de ser reconhecidas, criandose novas zonas de exclusão. No condomínio Brasil, sintoma, medicamentação e muros convivem todos juntos e todos meio fora de lugar.