Movimento Independente Mães de Maio

Autora

"Este movimento surgiu depois da morte de nossos filhos. Foi uma matança generalizada. Ela aconteceu no espaço de apenas uma semana em maio de 2006 no Estado de São Paulo. Foram vitimadas 532 pessoas. Esta é a quantidade que sabemos aproximadamente, porque o certo ninguém nunca sabe. Cada vez que é feita uma pesquisa, a gente vai constatando que só tem número crescente de vítima daqueles ataques.

Foi uma retaliação da polícia contra a periferia. Perdi meu filho no dia 15 de maio. Este foi o dia de maior caos em São Paulo, que foi no ano de 2006. Lembro que neste dia teve um toque de recolher. A população teve que largar o seu serviço e ir para casa, ficou tudo muito tumultuado. A cidade de São Paulo ficou um caos. Mas o toque de recolher foi dado pela polícia e não pelo crime organizado. A polícia não queria a população na rua. Para ela, quem tivesse na rua, era inimigo da polícia. E o meu filho foi reconhecido como inimigo da polícia, porque ele estava na rua no dia em que eles fizeram o toque de recolher.

Hoje nós nem somos mais “Mães de Maio”, somos mães do ano inteiro. Estamos fortalecendo uma rede de mães e familiares de vítimas da violência, porque o Estado faz vítimas todos os dias. Temos índices altíssimos de violência policial no Brasil. Na Baixada Santíssima, por exemplo, teve época em que num espaço de 1h, 13 pessoas fora mortas. Mas a Secretaria de Segurança Pública, nunca passam o número real de pessoas assassinadas pela polícia, sempre passam um número fictício.

O nosso interesse é que mude a política de segurança pública do Estado, que hoje é de repressão e extermínio. É inaceitável uma mãe perder o seu filho para o Estado, e ele ainda colocar a imagem do seu filho como bandido, e eles apenas viram os mocinhos...A vítima se transformar no autor, e o autor se transforma numa vítima, é assim que eu vejo, é assim que acontece.

A luta das mães é a luta pela democracia, e uma ética na polícia. Somos mães pela democracia, porque a mulher faz a diferença, nós somos a maioria, saímos na rua e é para ter ética, não aceitamos mais que o Estado mate os nossos filhos. E a luta maior é que seja banido dos boletins de ocorrência o auto de resistência e a resistência seguida de morte. Porque foi um modo que a polícia encontrou para legitimar o homicídio e acabar em inquérito e depois ser arquivado.

Eu tenho duas meninas e tenho os meus netos, e não quero que eles tenham o mesmo destino do meu filho, eu quero um país melhor, e é possível! E um mundo melhor só vai ser possível quando o Estado respeitar o negro e pobre, dar dignidade ao ser humano. Desde o tempo da ditadura a gente vê uma cultura do militarismo que está perpetuado até nos próprios militares."