Reunindo artigos de David Harvey escritos ao longo de quarenta anos, a preciosa coletânea Os sentidos do mundo registra sua busca incansável por explicar como a geografia mundial é constantemente refeita – e muitas vezes destruída – para responder à exigência de crescimento infindável do capital e à permanente absorção de seus excedentes. E mais: explicita as consequências sociais, políticas e ambientais, tantas vezes catastróficas, dessa exigência.
Harvey constrói um arcabouço teórico para compreender esses processos, interpelando, desde os anos 1970, os escritos de Marx a fim de integrar explicitamente as relações espaciais e os fenômenos geográficos ao corpus principal da teoria marxista, e vice-versa. Articulando a leitura de notas de rodapé, parênteses e digressões, fragmentos em que Marx se refere ao espaço e à geografia, com um enorme cabedal de informações históricas sobre momentos cruciais de transformação urbana, como a Paris de Haussmann ou a construção das megalópoles chinesas contemporâneas, Harvey demonstra que o espaço não é um cenário inerte no qual as forças econômicas se movimentam. Pelo contrário, ao percorrer seus escritos, é possível descortinar a contribuição do estudo das relações espaciais para o entender o mundo. E poder, assim, transformá-lo.
A trajetória intelectual de David Harvey é indissociável de sua perspectiva crítica anticapitalista e seu vínculo com as várias lutas implicadas nessa tarefa. Aliás, sua inflexão na direção do pensamento marxista se dá em 1968, a partir de seu contato com os conflitos raciais em Baltimore e com as ruas de Paris. Desde então, seus textos são marcados pela questão de limites e possibilidades de abolição ou contenção do impulso à acumulação infinita de capital que está em sua raiz e a construção de outros mundos possíveis.
Exatamente porque o desejo de entender está conectado com as lutas, não com os cânones disciplinares, Harvey define sua produção como “mapas cognitivos”, registros parciais e incompletos que buscam superar as limitações do trabalho intelectual quando este é confinado em disciplinas, não como “teoria”.
Revelando as tensões internas ao sistema capitalista, suas contradições, a insanidade que marca seu momento atual, a leitura deste livro nos mobiliza a, nas palavras finais do autor, “refletir sobre as estratégias políticas para confrontar os excessos do capital no aqui e no agora e encontrar aberturas para a construção de alternativas econômico-políticas viáveis”.
“Uma jornada intelectual pela obra de David Harvey ao longo das últimas décadas. Trata-se de uma excelente introdução ao vasto e influente conjunto de seu pensamento, uma eloquente convocatória para que os leitores se somem à luta por justiça social. Simplesmente uma ótima leitura.” — London School of Economics Book Review
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Raquel Rolnik é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, urbanista especializada em política habitacional, planejamento e gestão da terra urbana. Foi Relatora Especial para o Direito à Moradia Adequada do Conselho de Direitos Humanos da ONU, entre 2008 e maio de 2014. Foi diretora de Planejamento da Cidade de São Paulo (1989-1992), Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades no Brasil (2003-2007), e Coordenadora de Urbanismo do Instituto Pólis (1997-2002). Prestou consultoria a governos, organizações não governamentais e agências internacionais, como UN-Habitat, em política urbana e habitacional. É autora, entre outros, de Guerra dos lugares: a colonização da terra e da moradia na era das finanças (Boitempo, 2015). Colabora quinzenalmente com a Folha de S. Paulo e o portal Yahoo, e mantém o Blog da Raquel Rolnik, onde escreve regularmente sobre questões urbanas.
David Harvey é um dos marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido internacionalmente por seu trabalho de vanguarda na análise geográfica das dinâmicas do capital. É professor de antropologia da pós-graduação da Universidade da Cidade de Nova York (The City University of New York – Cuny) na qual leciona desde 2001. Foi também professor de geografia nas universidades Johns Hopkins e Oxford. Seu livro Condição pós-moderna (Loyola, 1992) foi apontado pelo Independent como um dos 50 trabalhos mais importantes de não ficção publicados desde a Segunda Guerra Mundial. Seus livros mais recentes são O enigma do capital, Para entender O capital, livro I, Para entender O capital, livros II e III, 17 contradições e o fim do capitalismo, A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI e Os sentidos do mundo.
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