A hora futurista que passou

e outros escritos

Mário Guastini

Coleção Pauliceia

R$ 42,00

Alfredo Mário Guastini foi um polemista. Um provocador do jornalismo cultural do seu tempo, a década de 1920. Uma época de grande movimentação artística, com os ecos das vanguardas europeias no Brasil. Infelizmente, para Guastini, do lado contrário ao dele na arena estavam Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Menotti del Picchia, Paulo Prado, entre outros.

Enquanto artistas e intelectuais faziam a revolução modernista na cultura brasileira, abrindo campo para inovações formais, temas brasileiros e outros antes tidos como de “mau gosto”, Guastini, sob o pseudônimo Stiunirio Gama, encarnava a reação dos valores do belo, do lírico, do “bem-feito”, sem esconder certa carga de reação política conservadora diante das ideias “bolchevistas” da Semana de 22, a qual se referia sempre como a “semana teratológica”, cujos autores, na sua opinião, queriam “fugir” da sintaxe, do desenho e da anatomia.

A Coleção Pauliceia reúne seus principais textos no livro A hora futurista que passou e outros escritos para recuperar uma importante parte da história do modernismo no Brasil: seus ferrenhos opositores.

Usando do humor e de seu texto hábil como arma, irônico e mordaz Guastini atira petardos contra as novidades do futurismo e da antropofagia de Oswald de Andrade. Iniciativas que trata como piadas literárias, brincadeiras na qual embarcam seus seguidores ingênuos. “Na vida o reclame é tudo, e Oswald tem vivido, aliás inteligentemente, pelo reclame. Tão inteligentemente que até eu, que lhe conheço as manhas, estou aqui a bater caixa aos seus movimentos...”, comenta.

O mesmo diz de Lasar Segall, cuja exposição compara com o manicômio do Juqueri: “Não decifrei, não pude decifrar, não decifrarei nunca as heresias que as brochas bolchevistas do sr. Segall esparramaram na tela. Mas decifrei o seu sorriso... [...] O sorriso de Segall, pois, é sorriso de escárnio.”

Guastini mete-se em polêmicas e debates com Paulo Prado, Menotti del Picchia, entre outros. Classifica todas as vanguardas como “futuristas” e coloca-se ao lado dos “equilibrados”, contra os disparates. Tudo contra o modernismo. E, para Guastini, quem ele admirava e elogiava, como Victor Brecheret e Antonio de Alcântara Machado, considerando-os bons, era justamente por não serem modernistas.

O livro tem passagens como as conferências em São Paulo de Filippo Tommaso Marinetti, o poeta italiano fundador do futurismo, nas quais, em sua primeira tentativa de falar, o italiano fora atacado com hortaliças e fogos de artifício. Traz ainda a impagável crônica “Noitada de jornalistas”, em que narra a excursão de Guastini e amigos em uma madrugada por São Paulo numa época em que se topava com boiadas e fazendas de uvas na cidade.

A hora futurista que passou e outros escritos é um retrato de um tempo fundamental nas definições dos rumos dos primeiros passos de São Paulo como metrópole cultural. Como diz Mário de Andrade, em carinhosa carta enviada a Guastini, o livro é a “história fiel do movimento (modernista)”. E completa: “refletido em você”.

Carta de Mário de Andrade a Mário Guastini

"São Paulo, 7-XI-1926. No fundo tem isto de muito engraçado: que estamos todos bem de acordo os modernistas e você que malhou neles sem parada. Recebi A hora futurista que passou. Agradeço o presente e a hora de bom humor que você fez eu passar. Livro de marcha esquipada, trote largo no estradão útil da gente se divertir pensamenteando. Ora, vamos e venhamos: não foi isso que a gente fez quando desfraldou e andou passeando na saraivada a bandeira de Modernismo? Foi sim. Castigar-se rindo não é sempre o jeito melhor da gente não cair na esparrela? É. Você afirma que não caiu. Nós idem. No fundo estamos bem de acordo, Mário Guastini. O seu livro não pode ficar como história do movimento inicial dessa renovação que por tão variada e escorregadia teve mais nomes que um reizinho nascendo. Porém, A hora futurista que passou é história fiel do movimento refletido em você. Num país em cuja arte o mais importante de se combater era o Academismo e a hipocrisia pedante de escrever chique, a gente não podia seguir bobamente os ismos europeus. Por isso é que, cada um do seu jeito, o que fizemos foi apenas largar a rédea da sinceridade e chicote nela desenfreadamente através da imbecilidade e dos castelos de cartas. Você também. A imbecilidade que acreditou que a gente ofendia os “Mestres do passado” também acredita que agora você matou duma vez o nosso movimento. E você ainda ajudou no mais a gente a derrubar os castelos de cartas. No fundo estamos bem de acordo, eu não falei? E ainda tem mais isto de acordo entre você e a gente: nós nos revoltamos contra a Literatura no sentido oficial e brasileiro da palavra. Pois então você não fez o mesmo com um livro em que tem uma ausência sistemática de literatura? Fez sim. E da mesma forma com que pela liberdade alcançada e até abuso repreensível dela a gente demonstrou que era possível viver gostando e se rindo neste país, o livro de você demonstra um homem que sabe viver bem, possui saúde, possui força e inteligência sutil de embaralhar bem as cartas do baralho. Pro jogador bom não interessa fazer maço não. Porque então ele ganha com facilidade, rouba e não crê em si. O interessante, o corajoso é aceitar as cartas como elas venham. Então se a gente ganha que satisfa tem no coração! Você é jogador bom. Inda embaralhou mais as cartas que embaralhamos. Agora estamos cada um com nove cartas na mão, na mesa se virou um, ponhamos uma dama de copas, de coeur¹, como falam simbolicamente os marabás. A partida de cuncan² principiou. Ganhar não sei se a gente ganha ou se você perde. Mas eu pessoalmente só tenho a agradecer a lealdade e a sorte das cartas boas que você me deu. Mário de Andrade."

1) Coração, em francês.
2) Do inglês cooncan. Jogo de cartas de origem mexicana, em que os participantes têm de formar sequências para se desembaraçarem, com estas, das cartas que têm nas mãos.