Onde o sofrimento não tem vez: Na nossa vida

21.12.2016

HuffPost Brasil
Amanda Mont'Alvão Veloso

Em tempos de Brasil mundo polarizado, o sofrimento nos une. Ou melhor, a recusa de que ele existe.

Não importa se na vida a gente é rei do camarote ou adepto da sofrência: o sofrimento, essa praga danada, precisa ser extinguido para cumprirmos nosso elaborado plano de conquista da felicidade garantida sabe-se lá onde. Esteja o meu destino onde estiver, eu vou buscar a sorte e ser feliz, diria uma filósofa brasileira.

Nas histórias infantis, o lobo mau vem repaginado: deixou a maldade de lado depois de ter sido marcado em um textão no Facebook. Na infância, o dedo na tomada é apresentado como o maior perigo da vida. O vestibular e o Enem são os maiores desafios que um jovem pode ter, e ai do adulto que se queixar de exploração no trabalho em um ano de tanto desemprego! Ilusões orquestradas para indicarem uma vida sem grandes sofrimentos quando, na verdade, não há como existir sem sofrer e sem passar por certo mal-estar.

“Nossa época acredita que todo mal-estar é redutível ao sofrimento e todo sofrimento deve ser reduzido a sintomas, que seriam então administrados por discursos e práticas específicas. Isso cria a ilusão de que o sofrimento é apenas um acaso evitável e que uma boa vida prescinde de sofrimento; basta ter meios e posses para erradicá-lo”, sentencia o psicanalista Christian Dunker, autor do livro Mal-estar, Sofrimento e Sintoma (Boitempo, 2015), vencedor do 2º lugar do Prêmio Jabuti deste ano.

Na publicação, Dunker estabelece um paralelo entre as formas atuais de sofrimento, o neoliberalismo, o mal-estar e o ideal de vida condominial cultivado pelos brasileiros. Em uma sociedade que estabelece muros para colocar o diferente do lado de fora, é fácil dizer que o problema é sempre do outro. E fica ainda mais difícil reconhecer que o sofrimento faz parte da vida.

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