Atualidade da feminista Mary Wollstonecraft segue intocada

03.01.2017

Folha de S. Paulo | Ilustrada
Antonia Pellegrino

No momento em que as mulheres brasileiras voltam a ser assombradas pela ideologia pré-feminista do "bela, recatada e do lar", é fundamental comemorarmos a publicação do clássico feminista Reivindicação dos direitos da mulher, de Mary Wollstonecraft (1759-1797).

Intelectual ousada, Wollstonecraft frequentou as rodas masculinas, casou-se e divorciou-se, teve amantes, casou-se novamente, exerceu sua liberdade como quis até morrer no parto de sua filha, a depois escritora Mary Shelley.

Autodidata, o grande legado da ativista inglesa pró-abolicionismo é o texto fundador do feminismo. Sua reivindicação foi publicada na Inglaterra em 1792, como resposta à constituição francesa, que versava sobre a liberdade dos e para os homens, não incluindo as mulheres na categoria de cidadãs.

"Na luta pelos direitos da mulher, meu principal argumento baseia-se neste simples princípio: se a mulher não for preparada pela educação para se tornar a companheira do homem, ela interromperá o progresso do conhecimento e da virtude", escreve Wollstonecraft, com a pena embebida nos ideais iluministas da época.

Para autora, se a mulher compartilha com o homem o "dom da razão", não é justo que os homens na luta pela liberdade, abusem da vantagem que a natureza lhes deu, isto é, a força física, para subjugar mulheres ao lhes negar seus direitos civis e políticos, condenando-as a uma existência restrita ao âmbito doméstico.

Wollstonecraft inscreve sua potente crítica ao destino das fêmeas até então: o matrimônio. O casamento como a única forma de ascensão social. O fator marido como peça fundamental na construção da identidade feminina. A educação para o coquetismo, em detrimento do pensamento. O ideal da beleza, acima de tudo.

"Desde a infância, diz-se às mulheres, e elas aprendem pelo exemplo das mães, que um pouco de conhecimento da fraqueza humana, uma espécie de astúcia, um temperamento suave, uma obediência exterior e uma atenção escrupulosa a um conceito pueril de decoro farão com que elas obtenham a proteção do homem; e, se forem belas, todo o resto é desnecessário". Tão anacrônico, tão profundamente familiar.

Embora possamos desconstruir facilmente o argumento sobre a primazia da razão, a atualidade de Mary Wollstonecraft permanece intocada.

A defesa da igualdade de oportunidade entre homens e mulheres é campo de batalha feminista. Assim como a denúncia "sobre o estado de sujeição em que o sexo feminino sempre foi mantido" pelo machismo. E a saída possível: "fortaleça a consciência feminina, expandindo-a, e haverá um fim à obediência cega". É o que ainda estamos tentando realizar, até os dias de hoje.

Publicado originalmente aqui.