Mais pontes, menos muros

12.11.2016

Edição Natura #4
Christian Carvalho Cruz

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Um lugar mágico, sensorial, surreal. Numa noite fria de agosto lá está você, meio lost in translation, trocando impressões com o cineasta marroquino que acaba de exibir seu documentário no telão. Curtindo um som banquinho-e-violão vindo de Camarões. Dando pitacos na organização de um debate sobre “feminismo e mulherismo” em Angola. Defendendo Flaubert para um jornalista congolês que prefere Stendhal. Ou simplesmente tomando arak e rindo das artimanhas do Isam para fugir da descabida pecha de homem-bomba, enquanto um leve, inesquecível kebab de falafel não chega da cozinha comandada por jovens sírios e palestinos. É um porre homérico de encantamento. Uma diversidade que aquece, enriquece?—?e não dá ressaca.

Mas o Al Janiah pode ser só uma gota de pureza em nosso mar de medos e preconceitos. De 2014 para 2015, os casos de xenofobia denunciados no Disque 100, um serviço telefônico da Secretaria Especial de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, cresceram 633% no Brasil. E, sim, apesar das ações dos governos para destravar a burocracia e facilitar a chegada de pessoas que se vêem obrigadas deixar seu país para salvar a vida, e dos esforços de entidades locais preocupadas em minimizar os dolorosos efeitos desse desenraizamento forçado, ainda estamos longe de ver a harmonia vivida no Al Janiah transbordando por aí.

O refugiado é antes de tudo um cara que sente falta: de intimidade com a língua portuguesa, de moradia, de trabalho, de dinheiro, de amigos e parentes que ficaram pra trás, dos direitos garantidos pela convenções internacionais. Suas dores diferem de motivo e de tamanho. Suas religiões, costumes e pensamentos não são iguais. Apenas a precária existência os une. E o preconceito, claro, piora tudo isso.

“Seria legal perceber que a perseverança para escapar da guerra, da repressão, atravessando águas e terras hostis, faz do refugiado um indivíduo com forte espírito de superação e coragem. Quem não admira essas qualidades? Eles têm muito a nos oferecer”, diz Maria Laura Canineu, diretora do Human Rights Watch no Brasil.

Sem contar que o preconceito não resiste sequer a um acarajé, tá certo? Herança deixada por africanos desterrados e escravizados e um de nossos grandes patrimônios culinários. Não resiste a uma geladeira comprada na Casas Bahia, maior rede varejista do país, fundada por um judeu polonês que fugiu do Holocausto. Não resiste a Pelé, Gisele Bündchen ou Cicillo Matarazzo. Não resiste a uma pergunta: e se EU fosse um refugiado? No fundo, não resiste à nossa condição humana, como me explicou o psicanalista e xará Christian Dunker, da USP, autor do magnífico “Mal-estar, Sofrimento e Sintoma” (Boitempo, 2015):

“Se olharmos bem, a experiência da estrangeiridade é universal. Todos nós saímos da família e entramos nesta viagem que é uma outra vida e então passamos a sonhar com o dia do regresso pra casa, mesmo sabendo que casa é um lugar que não existe. Reconhecer simbolicamente o sentido universal da estrangeridade, dissolver o imaginário particular de nosso exílio e realizar a singularidade de nossa própria condição de refugiado, este seria um caminho para olhar com mais carinho para o sofrimento dos que são obrigado a emigrar”.

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Publicado originalmente na revista Edição Natura #04 | novembro de 2016