Vida pública, vias privadas e a erosão da intimidade

10.10.2016

Estúdio Fluxo | Córtex
Bruno Torturra
Enquanto a crise política e social brasileira vai se aprofundando e tomando ares e humores psicopatológicos, talvez um bom analista político seja um... psicanalista. 
 
Por isso convidamos para um passeio Christian Dunker, um dos mais influentes e originais autores da psicanálise brasileira. E muitos de seus trabalhos dizem respeito justamente à relação entre a psique e a cidade, entre a vida interior e nossas relações públicas. Entre o íntimo e o político. 
 
Autor de diversos livros, entre eles "Žižek Crítico: Política e Psicanálise na era do Multiculturalismo", "Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica: uma arqueologia das práticas de cura, terapia e tratamento". Professor, analista, fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Colunista da revista Brasileiros e do blog da Boitempo, sua atual editora, Dunker ganhou um recente destaque por conta de seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros.
 
Uma obra que interpreta a construção da uma nova mentalidade cívica a partir da expansão dos condomínios e do que eles representam para a identidade e para o coletivo. E como esse processo pode ser central para compreendermos o acirramento de tensões públicas, econômicas e a extrema dificuldade de convívio que sentimos nas ruas e nas redes. 
 
Daí a proposta de nossa conversa - e do trajeto. 
 
A conversa
 
Tentamos trazer no papo com Christian Dunker um tema tão interessante quanto nebuloso: que tipo de mudança interior, que tipo de relações e sujeitos estão surgindo a partir das enormes e aceleradas transformações no mundo exterior? Hiperconectividade, hiperfluxo de informação, smartphones, comunicação interpessoal permanente e a projeção do ego em espelhos digitais. 
 
Os condomínios, a restrição do convívio e a prioridade da vida privada sobre os espaços públicos. E a retomada da disputa coletiva sobre espaços privados. E como essa tensão em escala começa a definir novas dinâmicas políticas, sobretudo nas cidades, diante do fracasso das instituições. 
 
Como a internet está reduzindo o tamanho do mundo externo na consciência humana. E como esse mundo reduzido acaba, por contraste, aumentando o tamanho do ego dos indivíduos e definindo novos sintomas mapeados no consultório. E um diagnóstico central de Christian Dunker: estamos perdendo a capacidade de criar e manter intimidade. E o que, afinal de contas, é intimidade?
 
A ascensão de um novo conservadorismo e a inadequação da comparação com o fascismo do século 20, que acaba revelando mais nossa limitação crítica do que a natureza do fenômeno que estamos vendo emergir.
 
E, finalmente, a necessidade urgente de criarmos espaços físicos e subjetivos que possam oferecer - e representar - o tipo de silêncio, afastamento e transcendência capazes de devolver uma dimensão mais equilibrada entre o indivíduo e seu lugar no mundo.
 
O trajeto
 
E por isso escolhemos a região do Baixo Augusta e da Consolação para nosso passeio.
 
Partindo da Casa Amarela, uma ocupação cultural de um imóvel abandonado até o interior da Igreja da Consolação. No caminho passamos pelo Condomínio Queen Mary, onde Dunker passou parte de sua infância, pelo terreno do Parque Augusta, centro de uma das mais simbólicas disputas entre o público e o privado na cidade, diante dos novos megacondomínios na Augusta e na Praça Roosevelt, também símbolo de grandes contrastes entre o direito à cidade e os interesses dos moradores nos arredores.
 
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Confira aqui a página criada para divulgar a conversa com Christian Dunker no Córtex, do Estúdio Fluxo. E aqui, o vídeo com a entrevista na íntegra.