Eu repito tu repetes nós repetimos

16.08.2016

Revista da Cultura
Renato Rocha Mendes
Parte inevitável de nossa existência, a repetição pode ser tanto desencadeada pelos desencontros de nossa vivência quanto fundamental para o processo de psicanálise e de redescobertas pessoais
 
Quem, em seu íntimo, nunca repetiu uma experiência indesejada, erros e enganos na esfera dos relacionamentos? Tal como alguém que sofre de algum transtorno, o indivíduo que repete atitudes e comportamentos contrários ao seu bem-estar pode encontrar no tratamento psicanalítico as respostas de que necessita. Embora complexos, os conceitos e temas que emergem da psicanálise, quando aplicados no tratamento clínico, podem elevar sobremaneira o estado de consciência dos indivíduos sobre si próprios e sobre os mecanismos de repetição e forças que atuam sobre o seu aparelho psíquico. Há lugar para o resgate da dignidade e do (re)encontro consigo próprio. A repetição é um dos quatro conceitos fundamentais da psicanálise nomeados por Lacan, os restantes: o inconsciente, a transferência e a pulsão.
 
Em entrevista à Revista da Cultura, Colette Soler, psicanalista francesa que teve Jacques Lacan (1901-1981) como analista e seu principal supervisor, afirma que “uma análise é sempre uma experiência perturbadora, que ensina muito, que transforma você em si mesmo – se é que assim posso dizer. Mas, na sequência, ainda é preciso aclarar sua operação, e aí está um trabalho que não tem fim”. Tendo acompanhado Lacan em duas reconhecidas instituições francesas (Escola Freudiana de Paris e Escola da Causa Freudiana), anos mais tarde, a professora idealizou e fundou com outros profissionais o IF-EPFCL (Internacional dos Fóruns-Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano).
 
Dominique Fingermann, psicanalista francesa que no mesmo dia participou de uma conferência sobre pânico e fobia promovida pelo IF-EPFCL, abriu a porta de seu consultório para falar sobre temas do livro que organizou: Os paradoxos da repetição. Fingermann afirma que a repetição está no começo de qualquer tratamento analítico: “Em geral, começa com a repetição de alguma coisa que não faz sentido, algo que não se liga, começa com esse princípio: ‘esse não sou eu, não pode ser’ ou ‘eu não quero isso de novo, me tira daqui’. Você vê esta ideia no começo de algo que o paciente identifica como estando na vida dele, em seu corpo, nos seus relacionamentos, e que insistem em não fazer sentido”.
 
Na obra A repetição na experiência analítica, Soler esclarece que as repetições são traços do inconsciente que não cessam e isso é causado pela perda irremediável, “com a falta de encontro com o Outro, Pai ou mulher”. Para a professora francesa, referência internacional no ensino da psicanálise, o paradoxo da repetição se concentra no fato de que o analisando (paciente), quando procura a terapia para resolver as suas repetições por meio da associação livre, volta a encontrar novas repetições. De maneira sintética, a repetição pode ser entendida como “a relação vazia insistente”.
 
Segundo Soler, “Lacan repensou o conceito de repetição freudiana e introduziu na psicanálise o conceito de ‘ato psicanalítico’ [sempre um ato da palavra falada], o qual, por definição, não deriva da repetição. A maioria dos sujeitos experiencia essa dimensão da repetição, especialmente, mas não unicamente, na vida amorosa, e ela está sempre ligada a experiências em que algo falta, fracassa. Geralmente, eles se sentem culpados, assumem o fracasso e dizem ‘estou repetindo’, como se se tratasse, justamente, de um ato subjetivo. Mas não: a repetição é um efeito de linguagem, e é precisamente por isso que ela foi notada, ou até mesmo concebida, há séculos”. A psicanalista ainda conclui: “Se a repetição é necessária, não é, portanto, no sentido de indispensável, mas no sentido de inevitável, irremediável”.
 
Em conversa em seu consultório, o psicanalista Christian Dunker, professor livre-docente do Instituto de Psicologia da USP, assim como Soler, destaca as relações amorosas como um campo fértil para as repetições: “As nossas formas de amar estão muito baseadas na repetição, na busca, no reencontro daquele primeiro olhar, daquele primeiro amor, daquela primeira paixão, daquela primeira viagem, daquela primeira dor também”. Dunker afirma que os humanos são seres de repetição, e vai além: “a história da psicanálise inteira e a história das formas de tratamento do sofrimento podem ser refeitas a partir desse grande tema chamado Repetição”.
 
Para o pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), a repetição é “Demoníaca!”. Um texto clássico escrito por ele em 1914, Recordar, repetir e elaborar, que descreve com detalhes o seu trabalho clínico, sintetiza a gênese da psicanálise através de dois modos distintos de tratamento: a hipnose e a clínica analítica fundada nas associações livres. Dunker explica que, na associação livre, o paciente reatualiza a sua relação com o analista e replica no interior dessa relação os seus sintomas, suas formas de sofrimento e suas angústias. Na medida em que o tratamento progride, o paciente interpreta os elementos que começam a emergir e passa “para outra forma de vida”. “Ele [Freud] começa a notar que a coisa é mais complicada e percebe que os seus pacientes têm uma espécie de adesão à repetição, de gosto pela repetição, de acomodação à repetição.” Esse diagnóstico fez com que ocorresse uma transformação no paradigma clínico com que Freud trabalhava.
 
A partir da pesquisa sobre a histeria, por volta de 1915, seus estudos evoluem para a neurose obsessiva. Segundo Dunker: “Isso leva então à descoberta de que a repetição é um fenômeno discursivo. De que, uma pessoa, ao ser convidada para falar livremente e explorar o universo de temas de variações culturais, vai e se encastela em duas, três temáticas e se repete naqueles assuntos, e, pior, se repete numa mesma problemática, ou algumas problemáticas. Freud mais ou menos sabia dessa tendência com a própria ideia de complexo – complexo paterno, complexo de édipo, complexo fraterno –, que nada mais é do que essa atração que certos temas têm sobre nós e que leva a uma espécie de círculo, do qual não conseguimos sair”. É em 1920, no artigo Além do princípio do prazer, que Freud dá à repetição um lugar central em suas teorias, reformulando algumas delas, reconhecendo que a repetição constitui processos elementares do aparelho psíquico. A repetição também representou uma virada para Lacan em 1964.
 
Segundo Dominique Fingermann, “as formas como as pessoas apresentam a repetição têm sempre algo a ver com o desencontro: o amoroso, com o seu próprio corpo, com o que se imaginava ser, com algo que esperava que um dia fosse acontecer, com o seu ideal. Esse desencontro é fundamental consigo próprio, com o outro, com o amor, com o sexo, com o sucesso, com o dinheiro, com o ideal de si mesmo. É um desencontro em relação a uma procura”. Existem quadros de pacientes que afastam de si as causas das repetições e passam a se queixar do outro, da injustiça, do destino, o que denota alienação.
 
O paradoxo também pode surgir da insatisfação causada pelo fenômeno da repetição, concomitante à necessidade de procura de um sentido, que aparentemente não existe no fenômeno. A repetição no tratamento analítico ora representa obstáculo, ora acontecimento. Fingermann qualifica como corajosa a pessoa que dá início a um processo de análise, porque pode reconhecer que aquilo que não está bem em sua vida pode ter a ver consigo próprio e não com os outros. Ela complementa: “Há alguma coisa no sofrimento que indica algo único, mas que necessita se deslocar, passar para o outro [o analista] para que o analisando possa ouvir o que este fenômeno insistente está dizendo”.
 
A linguagem no processo de análise é fundamental para o analisando se tornar uma espécie de historiador de si próprio ao longo do tratamento. Essa procura, esse exercício que se repete nas sessões de terapia, promove a transferência, um fenômeno que acontece entre o analisando e o analista, no qual ocorre a repetição de modelos infantis e figuras referenciais do passado, criando espaço para que afetividades, sentimentos e desejos aflorem e sejam vivenciados e sentidos pelo analisando. A forma como o analista irá manipular essa transferência poderá aproximar o paciente de um entendimento sobre as suas questões e conflitos. Essa etapa marca a primeira virada da análise, porque, ao se ouvir, o paciente passa a deduzir sua implicação nos relatos.
 
“Eu sempre falo que o trabalho analítico é como o trabalho de uma mulher rendeira. Ela vai bordar em torno dos furos e isso não quer dizer que vai cerzir os furos. Na medida em que você produz, vão se identificando, se localizando os furos em torno do qual o analisando borda. Em certa medida, é isso que se consegue deduzir no final de uma análise, são esses furos, que é aquilo que não se liga, que não tem sentido, o que não tem uma significação. Mas é a partir disso que se vai localizar uma identidade, é a partir disso que surgirá algo novo”, conclui Fingermann.
 
Conforme as dimensões da repetição na psicanálise avançam no tempo, também extrapolam territórios. É o caso das recentes publicações de Fingermann e Dunker. A psicanalista francesa compilou em seu livro, Os paradoxos da repetição, uma série de palestras nas quais participaram artistas e intelectuais reconhecidos para falar sobre a repetição e suas implicações clínicas, filosóficas, literárias, antropológicas e estéticas. Daí surgiram grandezas positivas sobre a repetição; uma das imagens possíveis é a de um “dínamo” criativo.
 
Sobre o livro de Dunker, Mal-estar, sofrimento e sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros, o autor diz que “existe uma temática crucial que atravessa a obra: a repetição histórica de padrões de tratamento com a diferença”. A obra critica um sintoma brasileiro desenvolvido a partir da década de 1970, “que é o de imaginar que o nosso grande ideal para uma existência é viver protegido dentro de muros, num condomínio fechado, com câmeras, com guardas, com síndico, com uma vida planejada, com uma vida que tem ares de fora do Brasil”.