“Estamos silenciando nossas crianças”, diz Christian Dunker na Flip

02.07.2016

Revista Brasileiros
Marcos Grinspum Ferraz
O psicanalista e a pesquisadora Paula Sibilia defenderam ocupações nas escolas e falaram do “espetáculo de si mesmo”
 
Enquanto pelas ruas de Paraty, cada vez mais cheias com a chegada do final de semana, turistas sacavam seus celulares para fazer selfies e postar nas redes sociais, a mesa O Show do Eu, realizada nesta sexta-feira na Festa Literária Internacional de Paraty, teve início justamente com a pergunta: “Porque o nosso grande fascínio, no mundo atual, diante do espetáculo de si mesmo?”. Por que a necessidade de vender a própria imagem, de se mostrar sempre bonito e bem-humorado, nesta era em que inventamos, inclusive, o chamado pau de selfie? Com a participação do escritor e psicanalista Christian Dunker e da ensaísta e antropóloga Paula Sibilia, argentina radicada no Rio, os debatedores partiram da ideia de “show do eu” para falar de narcisismo, educação na infância, redes sociais, dos muros dos condomínios e de política. Defenderam também a ocupação das escolas pelos secundaristas Brasil afora.
 
Com mediação de Maria Lucia Homem e com a Tenda dos Autores lotada, os debatedores cativaram a atenção da plateia e foram muito aplaudidos em diversos momentos. Sobre o tema inicial, do fascínio com a própria imagem, Sibilia constatou que, se antigamente havia um pudor em se expor demais, já que poderia ser considerado até “vulgar”, hoje a regra parece ser mostrar não só a própria imagem quanto detalhes da própria vida. “As pessoas fazem uma curadoria de suas vidas e as expõem. E as redes sociais permitem isso. A nossa existência está baseada na visibilidade; nos afirmamos através do olhar exterior e não mais pelo nosso eu interiorizado”. Para ela, o quadro é complexo, mas claramente se relaciona há uma fragilidade, um vazio, e uma sociedade do espetáculo e do consumo que se aproveita disso.
 
Sobre o assunto, Dunker partiu da ideia de narcisismo para falar de um mundo que descobriu como “tirar mais valia da imagem do eu”. Disse também que, se por um lado as pessoas cada vez mais se expõem nas redes sociais, por outro se fecham atrás de grades e muros. Para ele, junto ao narcisismo vem a ideia de que o outro se tornou perigoso. “E para lidar com isso o Brasil inventou o muro, dos condomínios, que me protege e reduz o tamanho do meu mundo”, afirmou. “A novidade desse narcisismo é que em vez de enfrentar a diversidade, nós diminuímos o valor do mundo e só lidamos com gente como a gente”, conclui. Dunker falou ainda sobre a figura do síndico, e da ideia de criar regras internas aos prédio e condomínios para não ter que lidar com as externas, que valem para todos. “Aí você não gosta daquela síndica e coloca um outro no lugar, porque não aceita as leis mais amplas”, disse, em tom irônico, em referência implícita a derrubada da presidenta do Brasil – arrancando aplausos da plateia.
 
Educação e ocupações nas escolas
 
Ao defender as ocupações nas escolas pelos secundaristas e as exigências de mudanças no sistema educacional, Dunker e Sibilia foram também bastante aplaudidos pelos públicos de dentro e fora da tenda. “Para a psicanálise, a ocupação é uma figura do desejo. Ao ocuparem as escolas, os alunos mostram que não querem mais o modelo atual. Eles estão tentando reinventar o formato de educação”, afirmou o psicanalista, seguido pela pesquisadora: “É um grito de vitalidade, uma tentativa meio desesperada de dar sentido às paredes”, disse ela, se referindo aos muros das escola. 
 
Sibilia falou também de modelos alternativos de educação e criticou a ideia de escola como um “depósito de crianças”, “porque os pais têm que trabalhar e as colocam lá”. Ela sugeriu que a escola deve mudar, e pode ser um lugar de diálogo e troca, ao que foi seguida por Dunker: “Estamos silenciando nossas crianças. O Brasil é o segundo maior consumidor de ritalina do mundo. Por que desejamos silenciar nossas crianças? Crescer é passar por conflitos, é se reformular e não permanecer a imagem perfeita que projetamos nas crianças. Claro que esse excesso de medicação é um sintoma geral do capitalismo, mas tem uma especificidade brasileira que precisamos tratar”.
 
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