Flip: Paula Sibilia e Christian Dunker defendem ocupação de escolas

01.07.2016

O Globo | Livros
Lucas Altino
Mesa ‘O show do eu’ arranca aplausos com discussão sobre crise das instituições
 
PARATY — Em tempos de redes sociais, explosões de selfies e disputas por "likes", a compreensão do exibicionismo na construção da subjetividade contemporânea é um processo que merece ser analisado com atenção. Não à toa, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) reservou espaço para esse debate na tarde desta sexta-feira. Na aplaudidíssima mesa "O show do eu", o psicanalista Christian Dunker e a professora Paula Sibília falaram sobre a crise de instituições tradicionais diante do narcisismo moderno, o enclausuramento em "condomínios" de pensamentos e gostos em comum, e elogiaram o movimento de ocupações nas escolas.
 
Professora da Universidade Federal Fluminense, Paula Sibília atua nos campos da comunicação e da antropologia. Seu ensaio mais famoso, O Show do eu: a intimidade como espetáculo, que foi relançado na Flip, foi a base para o debate. Em seu livro, a professora descreve a transformação da subjetividade contemporânea, em que o eixo do eu interiorizado é deslocado e afirmado através do olhar do outro.
 
— A partir dos anos 60 e 70, as mudanças começaram a se consolidar; e vieram com mais intensidade na virada para o século XXI. Nesse processo, o olhar do outro se tornou mais importante para a construção da identidade do homem. Hoje, vivemos na sociedade do espetáculo, em que exibimos nosso hábito, nosso pensamento, nosso gosto, mas com uma curadoria. Vendemos uma imagem de felicidade e sucesso. A nossa existência está baseada na visibilidade; nos afirmamos através do olhar exterior e não mais pelo nosso eu interiorizado — explicou Paula.
 
Numa realidade de conexões em tempo real, com ferramentas que permitem até o autodidatismo, e inserida no modelo de sociedade em que a autoafirmação constrói a identidade das crianças, instituições como a escola, que tenta nivelar todos alunos como jovens iguais sem especificidades e não acompanha o desenvolvimento tecnológico e de relações, entram em crise. Em Redes ou paredes: a escola em tempos de dispersão (Contraponto), Paula analisa esse contexto.
 
— A subjetividade mudou, os valores mudaram. Agora que estamos todos conectados, estar na escola não é uma situação mais tão natural. A escola moderna está em crise. A sua normatização ocorreu no consenso sobre os regulamentos, como acordar cedo, sentar à mesa e ouvir o professor falar. Hoje em dia essas leis são colocadas em dúvida pelos alunos, principalmente, mas também pelos pais.
 
'OCUPAÇÃO É UMA FIGURA DO DESEJO'
 
Neste âmbito, Christian Dunker elogiou o movimento de ocupação das escolas, iniciado, no Brasil, por São Paulo, e que já se alastrou por diversas cidades, inclusive Paraty. Paula também destacou o momento de questionamento proporcionado pelos jovens e disse que a sociedade precisa ouvir e procurar soluções para as demandas.
 
— Para a psicanálise, a ocupação é uma figura do desejo. Ao ocuparem as escolas, os alunos mostram que não querem mais o modelo atual. Eles estão tentando reinventar o formato de educação — disse Dunker, professor da USP e autor de Estrutura e constituição da clínica psicanalítica (Annablume), que ganhou o prêmio Jabuti em 2012.