Christian Dunker: "Falta ao brasileiro a verdadeira tristeza"

02.07.2016

Revista Época
Sérgio Garcia
O psicanalista afirma que o neoliberalismo cria sofrimento e ensina o indivíduo a administrá-lo para gerar mais produtividade
 
Ao lado da argentina radicada no Rio de Janeiro Paula Sibilia, o psicanalista brasileiro Christian Dunker participou de uma das palestras que mais repercutiram nesta 14ª edição da Flip. Eles criticaram a espetacularização da vida pessoal e fazem coro que a ocupação de escolas seja o início de uma nova era no ensino. Autor da tese do “narcisismo à brasileira”, Dunker diz que aqui se tem enorme dificuldade de lidar com a derrota, que é fundamental para o amadurecimento. Depois do encontro na Tenda dos Autores, ele autografou o livro Mal-estar, sofrimento e sintoma e em seguida conversou com ÉPOCA.
 
ÉPOCA – O senhor cunhou a expressão "narcisismo à brasileira" para se referir a um determinado comportamento que temos aqui. Quais os componentes genuinamente nacionais desse narcisismo?
Christian Dunker – Estudei um fenômeno contemporâneo, a partir dos anos 1970, que tem a ver com a solução para um Estado que não conseguiu dar conta de um projeto que ele mesmo criou de ocupar o norte e organizar as cidades que se urbanizavam e recebiam muitos imigrantes. Isso gerou um narcisismo à brasileira, que se revela em alguns elementos. Criou-se um mundo isolado materialmente entre as pessoas. Você então se refugia nele e pensa que ali terá uma vida viável. Isso vai acontecer nos condomínios das grandes cidades, por exemplo, mas não só. Há outras áreas em que o Estado também vai se demitir de sua função, como nas favelas. É como se dissesse: urbanização, nós estamos fora, e vocês, moradores, é que vão dar seu jeito. Outro local são as prisões. O Estado levanta muros, e os presos lá dentro que se virem. E, por fim, os shoppings, que adquiriram uma função educativa de ser um berçário da classe média. Todos esses lugares ganham leis próprias. E isso é típico do narcisismo à brasileira: põe muro, põe síndico, e daí temos outro fenômeno, que é a hipertrofia da lei, em que se vai criando lei com base em exceções. Temos uma Constituição gigantesca, com códigos de todo tipo e que a gente está sempre desobedecendo.
 
ÉPOCA – O escritor americano Benjamin Moser, um estudioso do Brasil, disse numa roda da Flip que se surpreendeu ao chegar ao país, há 20 anos, e ver que, ao contrário da imagem padrão, o povo daqui é triste e que está sempre se decepcionando com as expectativas criadas. Concorda?
Dunker – Aí tem um detalhe clínico. Esse narcisismo à brasileira não é alegre nem triste, ele é maníaco. Axé, euforia, Carnaval, estar sempre up não é alegria. Esse estado de agitação e euforia só secundariamente é acompanhado da verdadeira alegria e também da verdadeira tristeza, que é uma coisa que nos falta muito. Durante um evento como o 7 a 1 para a Alemanha, é muito saliente para um analista que não tenha havido luto por aqui. Aquela coisa: vamos enterrar a CBF, nos despedir desse tipo de técnico, vamos repensar que morreu um certo futebol que a gente tinha. E ninguém falou nisso, porque não há espaço para luto, não há espaço para a derrota. A derrota é antinarcísica: eu não consegui ser forte o suficiente. Um país que não sabe lidar com perdas não consegue se reconstruir. Para nós, a tristeza virou frustração, virou impotência. Se você está triste é porque você perdeu, no sentido de que seu narcisismo foi abalado. Aqui tem essa confusão da tristeza com a depressão. Se você não deu certo é porque não conseguiu fazer as escolhas corretas do ponto de vista do show de seu eu.
 
ÉPOCA – É possível botar o brasileiro no divã?
Dunker – Aí tem uma coisa interessante, que é o fato de o Brasil já estar no divã faz muito tempo, devido a um fato histórico que é pouco pronunciado e estudado. A psicanálise entrou em nossa universidade e em nossa psiquiatria nos anos 1920, 1930, que é quando o Brasil estava começando a se pensar. As grandes narrativas do Brasil ainda são desse período. É Sérgio Buarque de Hollanda, Gilberto Freyre, Caio Prado. Todos eles vieram depois do Freud. O Brasil começou a se pensar com a psicanálise. Isso não aconteceu na Argentina, nos Estados Unidos, na África do Sul ou na Austrália. E somos um país muito peculiar do ponto de vista da psicanálise, que continua dando certo por aqui. A psicanálise não é só a solução, é um sintoma do Brasil.
 
ÉPOCA – Como as redes sociais entram nessa história do narcisismo à brasileira?
Dunker – Na rede social, o Google e o Facebook vão lhe sugerindo amigos que são como você, vão instruindo pessoas que pensam como você. Ao contrário do que se pensa, o mundo não vai se ampliando, ele vai diminuindo de tamanho. Você vai compactando o narcisismo. E o que acontece quando a pessoa acha que o mundo inteiro é feito de gente como ela? Fica corajosa para caramba. Essa soberba e o desdém pelo outro são muito potencializados quando se está no ambiente virtual. E o sofrimento decorrente disso também é brutal. O cara vai vivendo numa bolha e, quando sai da internet, tem uma descompressão narcísica que dá embolia. Se você saiu da internet e as massas não se levantaram a seu favor, é porque você tem um problema. E no fundo o neoliberalismo está inoculando a ideia de que você dá errado por sua causa.
 
ÉPOCA – As pessoas estão virando microempresas?
Dunker – Exatamente. É isso que estamos estudando na USP agora. O neoliberalismo cria um sofrimento e mostra como você deve administrá-lo para gerar mais produtividade. E, quando não consegue, você cai em depressão, fica excluído do sistema e vai para o depósito. Essa ideia está apoiada numa outra de que todo mundo deve se pensar como empresa. A educação tem de se pensar como empresa. E, se pensar educação como empresa, isso vai terminar mal.
 
ÉPOCA – Você citou uma expressão de Freud para determinar quem era a autoridade da casa: “sua majestade, o bebê”. A gente pode parodiar que, hoje, nas redes sociais vale o “sua majestade, o soberbo”?
Dunker – Exatamente. A rede social criou uma ilusão de que no fundo você é a majestade. Você detona os inimigos, dá opiniões que vão se espalhar pelo mundo. É uma ilusão.