Ocupações estudantis roubam a cena em debate sobre exibicionismo social

01.07.2016

Folha de S. Paulo
Rodolfo Viana
Com o sugestivo título de "O Show do Eu", era esperado que a mesa entre Christian Dunker e Paula Sibilia na 14ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), na tarde de sexta (1º), fosse uma discussão sobre como a humanidade traçou seu percurso de evolução até chegar ao pau de selfie. E começou assim, mas terminou melhor.
 
Sibilia, autora do trabalho que deu nome à mesa, explicou que o tal show é a forma como, há alguns anos, a sociedade tende a "se exibir e se vender como um espetáculo", abdicando de sua privacidade -ou, ainda, "editando a vida que se mostra".
 
As redes sociais comprovam a teoria, mas a antropóloga argentina radicada no Rio de Janeiro vai além: "Antigamente isso seria considerado de mau-gosto, até mesmo imoral". Ela lembra que os adventos tecnológicos -e aqui entra a selfie e seu pau- são ferramentas inventadas porque "o que o outro enxerga de nós -e ajuda a definir o que nós somos- ganhou maior importância". Enquanto isso, diz, "o Eu vai se afastando do seu âmago, se deslocando para fora, como na idealização do corpo."
 
"Se a gente fosse perguntar quando começou o show, eu lembro de Narciso", complementou Dunker, professor titular de psicologia da USP e autor de Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros. "O oráculo disse a Narciso que será feliz quem não se conhecer." Mas aí Narciso vê sua imagem na água e, ao se conhecer, acaba morto.
 
"Há o protagonista, a plateia -o outro- e a crítica que fazemos de nós mesmos e do outro. Esses três elementos compõem o eu", ressalta Dunker, que vê um certo "narcisismo à brasileira".
 
"É a vida em forma de condomínio", ele explica. "A ideia de que o outro se tornou perigoso, uma figura de quem a gente não deve se aproximar. Para resolver esse impasse, o Brasil criou uma coisa estranha: o muro. É o que nos separa, nos deixa seguros e nos torna invisíveis."
 
Mas nós pulamos o nosso próprio muro: expomos nossa privacidade por meio das redes. "A intimidade era valorizada", diz Sibilia, "mas a sociedade aprendeu a mais-valia da imagem".
 
Tal exposição cria imagens distintas uns dos outros, dizem os autores, o que contradiz ideias de que "somos todos iguais". E, por isso, uma educação igual perde sentido.
 
"As crianças se autoeducam pela internet", diz Dunker, "e a escola parece desnecessária". Tanto que "a educação está em crise", complementa Sibilia.
 
"Escola significava regras", lembra o psicanalista, "e hoje praticamente todos duvidamos dessas regras -chegar cedo, estudar para ser bom cidadão-, inclusive alunos, pais e mesmo os professores".
 
OCUPAÇÕES
 
Como o assunto era educação, foram lembradas as ocupações de escolas que ocorrem em diversas cidades brasileiras, inclusive aqui em Paraty. Há aproximadamente dois meses, cerca de 50 alunos ocupam o Cembra (Colégio Estadual Engenheiro Moura Brasil do Amaral), localizado no centro histórico da cidade -a poucos metros da tenda dos autores, onde ocorre o diálogo.
 
Sibilia acredita que as ações dos jovens são excelentes porque "mostra que há frestas", que "eles não querem carcaças de discurso, pseudo-aulas..."
 
"O que é interessantíssimo", afirma Dunker, "porque os alunos eram de quem menos esperávamos [as manifestações em prol da educação]: do aluno esperava-se o tédio". Ele lembra que, na psicanálise, o termo "ocupar" equivale a "desejar".
 
Sibilia ressalta que a passagem do conhecimento entre professor -figura de autoridade- e aluno -receptáculo do saber- nunca aconteceu como se imaginou. "Mas nos últimos tempos estava patinando ainda mais", sobretudo porque valores -que se traduzem em regras como que hora entrar em aula, o que estudar, como se comportar- se tornaram obsoletos. "A gente tem que ouvir muito o que os alunos têm a dizer", pois eles "demandam um novo sentido às paredes que os cercam."
 
"Ouvir" foi um verbo bastante usado no debate -e bastante ignorado pelos pais, de acordo com Dunker. Para o psicanalista, "hoje nossas crianças são educadas, criadas, mas a gente não fala mais com elas" e, com isso, "você continua administrando o mundo para seu filhinho e depois quer que a escola tome conta".
 
Sibilia concordou: "Crescer é passar por conflitos, se reformular, e não deixar permanecer a imagem perfeita que os pais introjetam nas crianças".
 
"Existe a ideia de que 'se estão calmas, estão bem'", diz. "Com isso, o Brasil é um dos campeões do consumo de Ritalina". Dunker arranca aplausos com uma pergunta que reverberou tanto dentro quanto fora da tenda: "Por que desejamos tanto silenciar nossas crianças?"