Psicanalista receita mais “pelada de rua” para geração criada em condomínio

01.07.2016

UOL | Página Cinco
Rodrigo Casarin
Dois ou três jogadores para cada lado. Meta feita com chinelo, pedra ou caixote. Dois gols ou 10 minutos. Jogando bola na rua que muita gente perdeu pela primeira vez a tampa do dedão do pé. Também foi na pelada que uma geração de brasileiros teve sua personalidade forjada. No conflito entre times, tendo que esperar a vez quando está do lado de fora e se relacionando com colegas que apareciam sabe-se lá de onde, muita gente aprendeu a lidar com fracassos, frustrações e, principalmente, com o diferente.
 
A falta disso, ou de situações semelhantes, pode resultar em pessoas criadas como pequenos reis, que crescem totalmente voltadas para o próprio umbigo e que desenvolvem uma dificuldade enorme para se relacionar e sentir alguma empatia pelo outro. É isso que acredita o psicanalista Christian Dunker, que recentemente lançou pela Boitempo o livro Mal-estar, sofrimento e sintoma, no qual se debruça sobre os impactos da cultura de condomínios e isolamento por meio de muros – não somente os físicos – que se tornou uma tendência ao menos para a elite do país desde a década de 70.
 
“Naquele momento, após o primeiro golpe e quando as cidades ainda estavam sendo ocupadas, a maior preocupação era com as leis, com a ordem, então, a partir disso, começaram a surgir os condomínios, oferecendo o que o próprio estado deveria oferecer, mas não o faz, como segurança”, explica numa conversa na pousada em que está em Paraty, onde participa da Flip.
 
No entanto, décadas depois do início desse movimento, o que temos são gerações de pessoas que nasceram e cresceram em bolhas, convivendo apenas com seus semelhantes – economicamente, culturalmente e, quase sempre, fisicamente – e enxergando somente temores e ameaças no que há além aqueles muros. “Quem vive apenas nesse ambiente não sabe quem é o outro e acaba desenvolvendo relações baseadas fundamentalmente na inveja, na maneira que será visto”, diz o psicanalista. “O ideal seria que, ao encontrar alguém diferente, pudesse haver um diálogo real, que o outro pudesse me fazer uma pessoa diferente, não fosse apenas um exercício de narcisismo, da afirmação do eu”.
 
Dunker ainda explica que essa segregação social e a necessidade de se afirmar perante o colega de dentro do muro acaba resultando muitas vezes em gente com um gosto estético questionável (um exemplo: carros que cada vez mais se assemelham a tanques de guerra), baseado essencialmente na ostentação. “Alguns acham que a beleza está intrínseca nos próprios objetos”, pontua. Para o psicanalista, uma espécie de caricatura desse perfil, com suas características principais exacerbadas, acaba sendo encontrada no funk ostentação – seria como se Mc Guimê fosse “uma paródia involuntária do rico de condomínio”.
 
Mas para o psicanalista esses muros poderão começar a cair dentro de pouco tempo. “Os filhos dessa geração que cresceu em condomínio deverão ver isso como um anti-modelo. Serão pessoas que vão querer passear, viajar, ir à Paulista andar de bicicleta…”, acredita. Quem sabe não voltam a jogar bola na rua também.