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21.06.2016

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Kim Dória
Reflexões de Kim Doria a partir de um debate sobre o mercado editorial promovido pelo Salão do Livro Político
 
Aconteceu entre os dias 1º e 3 de junho, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), a segunda edição do Salão do Livro Político. Iniciativa independente de editoras vinculadas a questões sociais e políticas, o evento surgiu no ano passado, sediado na Fundação Escola de Sociologia e Política (FESPSP). Este ano, com a participação de mais de 20 editoras independentes, o Salão mobilizou um público de milhares de pessoas em torno de feira de livros, debates e atividades culturais com a participação de Marilena Chauí, Fábio Konder Comparato, Djamila Ribeiro, Vladimir Safatle, Soraya Misleh, Ciro Gomes, Carina Vitral, Marcio Pochmann, Rosane Borges, Alysson Mascaro, Clara Averbuck, Gilberto Maringoni, Diana Assunção e Silvio Luiz de Almeida, dentre muitos outros. Temas como democracia, questão de gênero, o impeachment de 1992 e o golpe de 2016, questão racial, o movimento dos estudantes contra a reorganização escolar pelo Governo do Estado de São Paulo e análises de conjuntura engajaram um grande público em discussões que transbordaram os limites espaciais do Teatro Jardel Filho.
 
Gostaria aqui de tratar de um debate que me parece central, mas cujo tema, sintomaticamente, contou com uma das menores adesões de público no evento: o mercado editorial do livro político. A mesa, coordenada pelo ex-secretário-executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) José Castilho Marques Neto (que recentemente se demitiu do cargo pela recusa em colaborar com o governo ilegítimo de Michel Temer), teve a participação do historiador Flamarion Maués, da economista Leda Paulani e de Miro Nalles, da Coordenadoria do Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo.
 
 
Segundo Flamarion, que abriu a discussão apresentando um panorama do mercado editorial de livros políticos no Brasil, desde a década de 1930 começaram a surgir no país editoras vinculadas ao pensamento marxista (tanto ligadas a grupos e partidos políticos quanto de viés mais comercial), como a Unitas e a Editorial Calvino, dentre outras. A primeira grande casa editorial vinculada ao debate político foi a Editorial Vitória, ligada ao PCB, criada na década de 1940 e fechada com o golpe de 1964. Embora não fossem editoras “do Partido” e também se dedicassem à edição de pensamento não vinculado ao marxismo ou ao PCB, casas como a Civilização Brasileira (fundada por Ênio Silveira, militante do PCB, em 1932) e a Brasiliense (fundada por Caio Prado Jr., também ligado ao PCB, em 1943), desempenharam importante papel no debate político e foram duramente atingidas pelo golpe, sofrendo perseguição política e econômica.
 
Por muito tempo, observou o historiador, as discussões marxistas não se davam tanto nas universidades, acontecendo sobretudo na vida política e cultural do país. A partir dos anos 1960, as editoras vinculadas ao pensamento político assumiram postura de oposição ao regime militar e muitas foram fundadas com esse propósito, como a Kairós, a Cortez, a Brasil Debate e a Codecri (editora do Pasquim).
 
Durante o período, diversas casas editoriais buscaram abrir também livrarias, que se tornaram espaços de reunião e de resistência à ditadura. As listas de livros de não-ficção mais vendidos eram majoritariamente de esquerda, entre obras sobre a história recente do país e clássicos como Marx e Engels, o que levou, com a redemocratização, ao investimento também de editoras comerciais (não comprometidas ideologicamente com suas publicações) na edição de livros políticos.
 
A entrada de grandes editoras no mercado e a crise financeira dos anos 1990, intensificando as dificuldades de sustentação empresarial das editoras independentes, foram cenário propicio à diminuição do número de editoras de livros políticos. Nos últimos anos, temos visto algumas editoras engajadas nesse tipo de publicação voltando a se mobilizar e a promover debates para além do espaço das livrarias e das universidades e o próprio Salão do Livro Político é prova disso. Flamarion destacou o trabalho que a Boitempo tem desenvolvido na organização de cursos de formação teórica e política, prática tradicional de partidos políticos que foi deixada para trás, e na promoção extra-acadêmica do marxismo e do pensamento crítico. Concluiu com um elogio ao papel de formação de militância de editoras como a Expressão Popular, casas editoriais vinculadas a partidos, com destaque para Sundermman e Anita Garibaldi, e a recente organização de grupos vinculados a movimentos sociais em torno de edições independentes, como a Autonomia Literária.
 
Leda Paulani dedicou sua participação a considerações em torno das pesquisas Retratos da Leitura no Brasil e Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro. De acordo com essas pesquisas, apesar de o número médio de livros que o brasileiro lê por vontade própria por ano ter tido um tímido aumento nos últimos anos (ainda muito distante da média de países como EUA, Inglaterra, França e Alemanha), as vendas em livrarias não acompanharam tal crescimento de modo significativo. Embora o número de municípios com bibliotecas tenha aumentado (graças às políticas públicas capitaneadas por gente competente e comprometida com a inclusão social), diminuiu o de livrarias no país, o que indica concentração de mercado. Constata-se, assim, que, se ler não é um hábito do brasileiro, ler livros políticos é um hábito ainda menor: aproximadamente de 2,5 a 3,5% da produção do mercado editorial é de títulos vinculados à temática política, o que significa, aproximadamente, algo como cinco centésimos de livro político per capita produzidos no país, por ano. 
 
“Talvez tivéssemos outros caminhos possíveis para nossos tenebrosos tempos políticos se o hábito da leitura fosse maior”, Paulani concluiu, constatando que ainda há um longo caminho para superarmos a avaliação da revista inglesa The Economist, publicada em matéria de 2006, na qual o Brasil foi definido como “uma nação de não-leitores”. Para a publicação, insuspeita de posições progressistas, nosso baixo índice de leitura seria motivo de vergonha nacional.
Para Miro, dedicado há anos à promoção de políticas públicas em torno da cultura e do livro, não basta que as bibliotecas se limitem a adquirir livros, uma vez que possuem a função de formar leitores qualificados e acervos duradouros. O desafio é enorme, dadas as crescentes limitações orçamentárias. Para o responsável pelas bibliotecas de São Paulo, diante de um cenário de crise, a colaboração com editoras na promoção de eventos em espaços públicos é, portanto, fundamental.
 
Castilho aproveitou o debate para lembrar que, diferentemente do senso comum, a leitura não nasceu do prazer, mas do poder, e que, portanto, a atividade editorial é essencialmente política. Em um país no qual aproximadamente 70% da população tem algum tipo de insuficiência de leitura ou de compreensão de texto, dificuldade de articular e de se comunicar, qual seria o sentido de democracia e de luta por direitos? A seu ver, na redemocratização o mercado editorial teria se voltado à questão da produção (em termos de desenvolvimento industrial, quantitativo) e não à questão qualitativa (o que está sendo editado, o que está sendo lido). Assim, enquanto as editoras não tiverem o foco de sua produção no leitor, estaremos fadados a não entender a diversidade cultural do país e a não transformar a realidade da nação de não-leitores. Faz-se fundamental, portanto, que o mercado editorial passe a discutir seriamente políticas públicas de incentivo à leitura e de formação de leitores, e a articular sempre a questão da leitura com a de formação de leitores.
 
Quando o assunto é literatura de temática política, chama atenção, além da gritante desigualdade constitutiva do país, alguns paradoxos de nossa sociedade. A tiragem média de um livro de temática política por aqui é de míseros 1 a 5 mil exemplares. Se tanto, chega-se a 10 mil. Em um país de mais de 200 milhões de habitantes. Está claro que o público, presumidamente sensível a questões sociais e políticas, é bastante restrito, e que a regra do jogo parece tender à crescente elitização do debate, tanto pela exclusão econômica promovida pela elevação do preço de capa dos livros (uma vez que o preço de um livro é fruto da equação entre custos de produção e tiragem) quanto pela questão linguística e de repertório. As pesquisas conduzidas por Jessé Souza em torno da ralé brasileira parecem indispensáveis para pensarmos os impasses da inclusão social e os mecanismos de sua complexa reprodução (sugiro aqui a leitura do livro de A ralé brasileira: quem é e como vive - UFMG). Essa dinâmica não pode ser revertida facilmente e o investimento prioritário em educação, bem como o engajamento de todo o setor editorial, são apenas parte do processo. Para aqueles preocupados com avanços, o mar certamente não está para peixe, dado o apetite do governo interino pela retirada de direitos: em menos de um mês, demonstrou-se agilidade no ataque à cultura e à educação, com a extinção do MinC e a redução da verba mínima constitucionalmente prevista para o MEC, além da trágica consultoria pedagógica recebida pelo atual Ministro da Educação de figuras como o apólogo da cultura do estupro Alexandre Frota e militantes do Escola Sem Partido etc.
 
Chega a impressionar a descabida competitividade no mercado editorial brasileiro, que parece se esforçar, por meio da crescente concentração de mercado, para diminuir a bibliodiversidade e o número de leitores no país. Em um mercado com potencial de crescimento de consumidores sem igual, é tocante que a educação e a formação de leitores não sejam assumidas como pauta fundamental pelas editoras e livrarias, aparentemente satisfeitas com sua entropia. Enquanto os grandes grupos editoriais só fazem emular outros setores da indústria na busca do crescimento a qualquer custo (a bolha dos livros de colorir e a literatura youtubber são sintomas do curtoprazismo neoliberal), resta a pequenas gigantes, como a Boitempo e as demais editoras organizadoras do Salão, o compromisso com a formação de leitores. Enquanto as editoras não se organizarem de forma colaborativa em torno da promoção de políticas públicas de leituras e enquanto não passarem a investir em cursos, clubes de leitura, debates e publicações voltadas à inclusão de novos leitores, nosso horizonte político seguirá inventando novas formas de reposição do atraso. Se, já há algumas décadas, temos experienciado um sentido antidemocrático propício ao egoísmo social em nossa sociedade (recomendo sobre esse assunto a leitura do livro A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal - Boitempo -, de Pierre Dardot e Christian Laval), a luta dos estudantes secundaristas contra a reorganização escolar e o papel que os profissionais da cultura tem desempenhado na defesa da democracia parecem indicar a chegada de novos ares. Pelo menos era este o espectro rondando os encontros promovidos pelo Salão do Livro Político. Que a experiência se multiplique!