Fascínio pela chama existe desde a Antiguidade

03.06.2016

A Tribuna Online
Redação
Especialistas explicam porque a tocha desperta e atrai multidões por onde passa
 
A chama Olímpica segue atraindo multidões ao atravessar cidades com malabarismos por terra, água e ar. Por onde passa, o maior símbolo dos Jogos provoca fascínio e desperta admiração.  O deslumbramento diante do fogo é tão antigo quanto a própria humanidade – desde a época das cavernas, ele protege, aquece e ajuda a alimentar. Na Antiguidade, os gregos o consideravam um elemento divino e mantinham chamas acesas em frente a seus principais templos. Um deles, o santuário de Olímpia, foi palco dos Jogos originais. Para assegurar sua pureza, as chamas eram acesas por meio de uma “skaphia”, espécie de espelho côncavo que converge os raios do sol para um ponto específico.
 
 Atualmente, sem o peso dos deuses, o fogo ainda inspira atletas, artistas e místicos, mas com uma simbologia tão maleável quanto suas chamas dançantes. “Os rituais e signos de ontem não são usados hoje de forma consciente, mas transmitem uma sensação de familiaridade. Existe uma memória coletiva, algo humano que precisamos sempre resgatar”, diz o antropólogo Jorge Claudio Ribeiro, professor de ciência da religião da PUC-SP. “E ficar vendo um fogo, uma lareira, é muito mais legal do que ver televisão. A tevê é uma avacalhação da fogueira primordial”, brinca. Além de trazer uma trégua temporária nas guerras, a pira Olímpica servia como alegoria para o próprio esforço do atleta. “O fogo precisa ser conservado, ou se apaga. Traz um pouco a ideia de mortalidade, da nossa fragilidade”, afirma Ribeiro. “É como nossa condição humana: se a gente não se esforçar, tanto no esporte quanto no resto, a chama apaga”.
 
O professor lembra do mito grego de Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para dar aos mortais e acabou punido por Zeus, amarrado a uma rocha enquanto um pássaro comia seu fígado, regenerado todos os dias para que pudesse ser devorado novamente. A Bíblia é outra fonte de histórias que remontam o passado de seu simbolismo. Surge tanto como punição, como a chuva de fogo que destroi as cidades de Sodoma e Gomorra, como para representar a presença de Deus, como nas línguas de fogo que aparecem no dia de Pentecostes. Na mitologia do índio brasileiro, Tupã é o deus do trovão, enquanto entre os orixás é Xangô quem traz os raios em suas mãos.
 
Toda esta tradição da humanidade com o fogo pega carona na mensagem da tocha Olímpica e ajuda a explicar a emoção despertada nas comunidades que recebem a chama, além de formar um forte sentimento de pertencimento, como lembra o psicólogo Luiz Amadeu Bragante, professor de psicodrama da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Não são só deuses que estão levando a tocha. Tem meu vizinho, o cara que fez colégio comigo, meu dentista. Quando eles conduzem a tocha, eu conduzo também. Quando o Pelé ou o Oscar Schmidt conduz, eu não conduzo, porque eles são deuses, e eu sou mortal”, diz Bragante. “Gente que nem se ligaria nos Jogos acaba prestando atenção porque a tocha passou aqui. O que estará queimando no Rio é um fogo que passou na minha cidade, então eu faço parte disto.”
 
O entusiasmo coletivo também é visto através da ideia de “sentimento oceânico”, no qual nos libertamos de nós mesmos e nos dissolvemos como sujeitos, como explica o psicanalista Christian Dunker, professor titular do Instituto Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). “E outra face desta emoção provém da lembrança que isso desencadeia em nossa história, formada por todas as Olimpíadas e tochas que já vimos, desde a nossa infância, de todos estes grandes momentos de desejo, muitas vezes vividos com os que já se foram e que, imaginamos, seremos também lembrados quando não estivermos mais aqui.”
 
Para Dunker, o ritual do revezamento indica a transmissão de algo, como uma “boa nova, uma notícia”, numa alusão ao mensageiro que correu até Atenas para contar a vitória dos gregos sobre os persas em Maratona, em 490 a.C. “A tocha representa o pouco necessário para que ‘comecemos de novo’. Este é um sentido crucial dos ritos: eles nos inscrevem no tempo, circunscrevendo o início e o fim”, diz Dunker, autor do livro Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma (Boitempo, 2015). “Um rito é essencialmente a prática de um mito e, no caso das Olimpíadas, trata-se do mito que retrata a origem de nossos heróis.”