''Não acredito no fim do livro impresso, pelo menos não em um horizonte próximo''

05.04.2016

O Povo | Especial Dia Mundial do Livro
Isabel Costa
Ivana Jinkings reflete sobre os caminhos e a presença dos livros impressos ou digitais no Brasil
Ivana Jinkings, fundadora e diretora da Boitempo Editorial, reflete sobre os caminhos e a presença dos livros ''impressos ou digitais '' no Brasil
 
O Dia Mundial do Livro, 23 de abril, nos faz lembrar da relevância desse objeto para a construção das sociedades. Qual o papel do livro - enquanto mecanismo difusor da cultura - no Brasil?
 
Ivana Jinkings - O livro é uma ferramenta capaz de explicar a história, de transformar o panorama intelectual de um tempo. No Brasil (e também no resto do mundo), são em geral pequenos e médios editores – principais defensores do livro como um bem cultural e não como simples mercadoria – os que se dedicam a difundir ideias novas, descobrir autores e formar leitores. Mas num contexto de forte concentração, veem-se obrigados a diminuir as tiragens e elevar o preço médio de suas publicações. Resultado, em parte, da política engendrada pelos conglomerados livreiros, que vendem espaços às megaeditoras e ocupam majoritariamente suas prateleiras com best-sellers, impondo o achatamento da oferta de obras de conteúdo, cada vez mais dirigidas a uma reduzida elite pensante.Na Boitempo, editora que dirijo ao longo de seus 20 anos de atividade, para fazer frente a isso estabelecemos uma linha editorial coesa, conquistando um público fiel e participativo, que muito nos alimenta. Adotamos uma linha editorial clara, capaz de defender os valores cidadãos e a luta por uma sociedade mais justa e igualitária, e essa tem sido nossa colaboração para manter o livro como importante difusor de cultura.
 
OP - O público brasileiro ainda lê pouco? Ou essa é uma falácia que nos acostumamos a repetir?
 
Ivana - Há uma pesquisa, “Retratos da leitura no Brasil”, que reúne análises de especialistas que compararam índices brasileiros com os de outros países e também a relação desses dados com as políticas públicas e ações de incentivo à leitura. Esse estudo diz que a grande maioria dos jovens (cerca de 80%, ou 24,3 milhões) entre 11 e 17 anos leem apenas os livros obrigatórios para escolas. Destes, 13 milhões acham os livros entediantes e 6,5 milhões não leram nenhum livro durante os últimos três meses. Mas a pesquisa também indica que 4,8 milhões de jovens leem por prazer. São números modestos, e por isso preocupantes, e de fato mostram que no Brasil se lê pouco. Ainda carecemos de políticas públicas e há outras questões a serem levadas em conta, como a identificada pela escritora Ana Maria Machado, que aponta perda do ambiente doméstico como principal influência na formação de leitores.
 
OP - Em recentes pesquisas tem-se falado que os livros em formato digital vêm perdendo força nos mercados - nacionais e internacionais. Quais as vantagens e as desvantagens desse formato no ponto de vista do leitor e no ponto de vista editorial?
 
Ivana - Houve retração especialmente no seguimento de ensaios, livros acadêmicos de modo geral, e algum crescimento na venda de livros de ficção no formato digital. Isso talvez se explique, em parte, porque há uma questão não resolvida ainda neste formato, que é a citação de páginas em referências e notas de rodapé. As teses e dissertações exigem informações completas, que os ePUBs (formato de arquivo digital) não oferecem. Além do mais, os suportes ainda não são muito acessíveis no Brasil. Apesar disso, naBoitempo apostamos bastante no formato digital, começamos a disponibilizar os chamados e-books em 2011, o que permite uma diminuição significativa no preço de capa. Reduzimos nossa margem sobre o exemplar digital e praticamos preços que estão abaixo que os do mercado internacional; com essa nova política de preços nossos títulos digitais passaram a custar até 65% mais em conta do que a versão impressa, uma redução acima da média brasileira em termos relativos e absolutos.
 
OP - Há uma discussão que eleva os formatos mais modernos e rechaça a uso de livros em papel. Os chamados e-books, afinal, serão capazes de substituir os livros de papel? Ou eles funcionam mais como um complemento para determinadas situações?
 
Ivana - Não acredito no fim do livro impresso, pelo menos não em um horizonte próximo. Penso que os dois formatos sejam complementares, há momentos em que é melhor ter o impresso, em outros o digital. E há quem prefira um suporte ao outro, como em qualquer outra situação que envolve mais de uma opção. Os amantes dos livros, os leitores contumazes via de regra preferem o livro impresso, gostam do cheiro do papel, da textura etc. Eu me coloco entre esses, nunca li um livro inteiro, apenas textos dispersos, no formato digital.