"Corinthiano-Ladrão": a política que começa na segregação e termina na violência

24.03.2016

UOL | Painel acadêmico
Christian Ingo Lenz Dunker
Quando temos empresas, sistema judiciário e quase todos os partidos envolvidos em corrupção, não terá chegado a hora de suspender o ódio?
 
“Corinthiano Ladrão”. Apesar de ser palmeirense praticante, jamais acusaria alguém desta forma. Nesta aparentemente simples e corriqueira exclamação, ardorosamente repetida nos estádios de futebol, está contida toda a lógica do preconceito. Ela sugere que existe um nexo lógico entre pertencer a um grupo, definido por uma afinidade eletiva, e praticar certa a atitude decunho moral – no caso, criminosa. Se no enunciado digo “este sujeito é corinthiano e é ao mesmo tempo ladrão” afirmo implicitamente que “existe um nexo lógico e causal que liga um fato a outro”. Julgar alguém pela sua pertinência a uma classe, grupo ou massa é, de certa maneira, destituir este alguém como sujeito e transformá-lo em mais um. Uma vez realizada tal operação, a lógica do preconceito tende a se perpetuar porque ela é performativa e auto-realizadora.
 
Há um estudo clássico que examinou a forma pela qual os negros norte-americanos eram tratados, particularmente no sul do país, segundo a “presunção de violência”. Ou seja, a eles presumia-se uma tendência maior a violar a lei, a desrespeitar a polícia e a transgredir regras sociais. Diante desta hipótese, os diferentes casos de violência eram seletivamente interpretados segundo tal antecipação imaginária. Isso leva a leituras diferenciais do mesmo fato: quando se prendia um negro é porque ele era negro, quando se prendia um branco é porque ele era pobre ou de família desajustada. O que não se percebia é que ao se tratar os negros desta maneira preconceituosa eles se tornavam, vejam só vocês, “visivelmente violentos”. O passo seguinte são as confirmações científicas. Examina-se as prisões, constata-se a presença de negros e pobres, quiçá corinthianos, e então vemos corroborada a existência da relação causal entre pertencimento de raça, de classe e de time de futebol com um determinado estado de realidade. Ou seja, o viés de confirmação reproduz o preconceito criando níveis de realidade cada vez mais potentes na medida em que, indiretamente, reafirma a pertinência do preconceituoso com o seu próprio grupo. O ódio de classe não depende tanto da fragilidade identitária do perseguido, mas do perseguidor. Por isso, ele se alimenta do veneno que ele mesmo produz, ou seja, o ressentimento social.
 
Ora, uma narrativa similar parece ter definitivamente tomado conta do país. Pessoas são agredidas porque trajam vermelho, turmas de amigos são desfeitas quando se descobre um “deles” dentro de “nós”, crianças na escola são incitadas por seus pais a exigirem um “posicionamento político de seus professores” (provavelmente são aos mesmos pais que depois querem ver a ideologia fora da educação), passantes atravessam a paulista e são instados a buzinar em protesto contra Dilma, e em caso contrário têm seu carro cercado e ameaçado, pois obviamente “se você não está a favor da buzina, você está contra o impeachment e consequentemente é um petista, logo apoia a corrupção”. Melhor não andar de bicicleta. Você pode ser confundido com um alguém que tem uma posição de esquerda. Se for pedalar aos sábados na USP então, crime duplo: pedaladas e esquerda caviar. Um exemplo vivo e deste processo está no seguinte comentário do ex-colunista da Revista Veja, Rodrigo Constantino a uma de nossas atividades acadêmicas:
 
Apesar de ter mostrado em colunas anteriores que orientação política não pode ser usada como doença mental, de ter explicado por que isso representa não só um preconceito, mas uma desinformação nosso colunista se compraz em repetir o erro, em vez de responder aos argumentos. Esta é a lógica discursiva da violência que nos faz desconfiar a cada vez que ela é invocada como exemplo de pensamento liberal. O liberalismo é mais do que isso, apesar de seus contra-exemplos nacionais de hoje. 
 
A diversidade, a multiplicidade e o antagonismo são parte constitutiva da democracia não apenas porque podemos julgar teses distintas, mas porque podemos discutir inclusive quais serão os termos da discussão. Adorno estudou o fenômeno dos pregradores moralistas estadunidenses no pós-guerra e mostrou que eles se apoiavam em um dispositivo tão interessante quanto simples. Eles diziam coisas que “todo mundo entendia”, eles exageravam o que “todo mundo já pensava”, eles se apresentavam como “pessoas comuns, como todo mundo”, e com isso criavam um senso de “nós” que reafirmava a convicção dos membros de sua comunidade apenas… porque eles são membros desta comunidade. Ou seja, nada mais simples que isso. “Ser alguém” te confere um bônus político automático. Isso não depende do seu trabalho, do que você faz ou do que você fala, mas apenas por pertencer a uma classe, família ou agremiação. Esta é a forma mais simples e mais preconceituosa de fazer política. Esta é a política que começa na segregação e termina na violência. Sua fronteira é tão simples quanto crucial: julgar quem são as pessoas em vez de julgar o que elas fizeram.
 
 
Aqui o papel da imprensa é decisivo. Não só porque ela pode ser tendenciosa ou seletiva, mas porque ela, com sua força simbólica, sanciona o tipo de discurso que se pode ou que se deve praticar, independente de seu conteúdo. Por isso é pouco eficaz declarar que é preciso acabar com o Fla-Flu na política, que a política não é a extensão da sua casa, da sua família ou do seu caráter. A verdadeira mudança depende da própria forma do discurso que serve de aporte às teses colocadas. Com a ampliação do debate político para outras plataformas, notadamente a digital, ganhou-se liberdade expressiva, ampliou-se a voz de certas minorias, contudo ainda não há delimitação clara de como funciona o debate público nesta nova Garrafa de Klein*. Para entender melhor o Fla-Flu, é preciso exagerar seu funcionamento, fazer o que ele chama de “superidentificação” – isto é: levá-lo a sério, às últimas consequências, para mostrar onde ele vai dar. Só assim perceberemos como na verdade ele começa muito antes do jogo e termina muito depois do Mesa Redonda Futebol Debate. 
 
Tomo como exemplo desta retórica do “corinthiano-ladrão!” as recentes manifestações de nosso pregador moralista, Rodrigo Constantino, que conseguiu ser demitido da Revista Veja, ter seu site despejado do Blog da referida magazine e que, de seu condomínio em Miami, continua a comentar a nossa política compondo listas de boicote a artistas e intelectuais. É um exemplo perfeito, por sua insignificância, de como se consegue falar alto incitando o ódio. Alguém como Chico Buarque, que encabeça a lista dos que devem ser punidos, não é escolhido ao acaso. Sabendo que ele teria sido agredido ao sair de um restaurante, incitar o boicote contra ele é ao mesmo tempo, no plano da enunciação, dizer: “Vamos agredir mesmo, pega corinthiano-ladrão!”. Mas dizer sem pagar a conta, dizer covardemente, dizer para se esconder na voz da massa. E depois vêm os fatos confirmatórios. Um ex-diretor do Sport Clube Corinthians é pego ou suspeito pela Operação Lava Jato como intermediador de dinheiro da Odebrecht para a construção do Itaquerão. Pela lógica predatória do preconceito isso só aconteceu porque ele é corinthiano, porque ele é negro, porque ele é pobre. Disso se conclui que todos os que torcem para o Corinthians são coniventes. Quem foi ao estádio e pagou pelo ingresso está compactuando com a corrupção. Quem usa a camiseta preta e branca é um imoral disfarçado. O que dizer do sócio torcedor? Obviamente quadrilha. E aquele que diz que as coisas podem não ser assim, tão genéricas, está acobertando a quadrilha. Este ódio foi então criado pela construção corrupta de um estádio? Ou ele já estava em ressentimentos prévios à espera de um pretexto que autorizasse ele sair do armário? 
 
Quando temos 200 políticos implicados por corrupção junto a empreiteiras, parte significativa das maiores empresas brasileiras, públicas e privadas, o sistema judiciário e quase todos os partidos políticos envolvidos na trama da corrupção não terá chegado a hora de suspender o ódio aos personagens particulares e substituí-lo pelo desejo de uma reforma política e judiciária que dê oportunidade para um novo Brasil?
 
* A garrafa de Klein é um objeto topológico que comunica exterior e interior rompendo o modelo representado pela esfera. A esfera é usualmente tomada para falar da partição entre o público (externo) e o privado (interno). Para Lacan o espaço discursivo da modernidade assemelha-se mais a uma Garrafa de Klein do que a um conjunto de esferas articuladas por um centro vazio. Ver por exemplo, meu artigo A geografia imaginária e a segregação real, no Blog da Boitempo:
 
https://youtu.be/Mqqu4TLAkDQ
 
(*) Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012, seu livro mais recente é Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, no prelo). Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Este texto foi publicado originalmente no Blog da Boitempo, onde o autor colabora, mensalmente, às quartas.