ContraMarè - Ivana Jinkings

01.04.2016

Contramarè
Pedro Veríssimo e Bruno Santiago Alface
Em mais uma entrevista da série ContraMarè, conversamos com a fundadora e diretora da Boitempo: Ivana Jinkings. Além de dirigir a editora, edita a revista Margem Esquerda, coordenou a Latinoamericana: Enciclopédia Contemporânea da América Latina e Caribe (2006), organizou os livros As utopias de Michael Löwy (2007), István Mészáros e os desafios do tempo histórico (2011) e As armas da crítica (2012), pela Boitempo, e é uma das autoras de Edward Said: trabalho intelectual e crítica social (Casa Amarela, 2005). Ivana Jinkings integra a Alliance des Editeurs Indépendants, com sede na França, e foi uma das fundadoras da Liga Brasileira de Editoras (Libre).
 
UmaCascaDeNoz - Com o acirramento político crescente, sobretudo depois das últimas eleições presidenciais, percebe-se um clima de intolerância muito presente. Eduardo Cunha talvez seja a síntese desse período de Bolsonaros e toda a bancada da Bala, Boi e Bíblia que compõe o Congresso mais reacionário do país desde tempos da ditadura civil-militar de 64. Com é manter uma editora de esquerda nesse contexto?
 
Ivana Jinkings - Não é fácil, claro. A Boitempo publica livros e autores de esquerda e isso, em tempos de neomacarthismo, adiciona algumas dificuldades à nossa vida. Há no país um clima de ódio fomentado pelo conluio de juízes, políticos golpistas, colunistas de jornais e um oligopólio televisivo, que prega dia e noite o impedimento da presidenta eleita. Nesse cenário de fla-flu resta pouco espaço para uma reflexão que não seja rasa e o que virá, caso o golpe em curso se efetive, será muitas vezes mais grave, com a supressão do direito à livre-manifestação, a perda de direitos trabalhistas e retrocesso de algumas das parcas conquistas desses últimos anos. Será um período de trevas, contra o qual devemos lutar com todas as nossas armas. Neste momento grave da vida nacional, o silêncio significa conivência e por isso a Boitempo não se esquiva de tomar posição. Não há lugar para purismos quando estão em jogo instituições democráticas. Embora os governos do PT nada de essencial tenham feito contra o mercado financeiro, a velha mídia e as elites econômicas (ao contrário, afagaram a direita, esta mesma que agora tenta golpear Dilma), sabemos que são muito mais perigosos os retrocessos em marcha.
 
Além disso tudo, que envolve questões mais recentes, o mercado segue cada vez mais concentrado, de forma que as editoras estrangeiras e os grandes grupos vêm engolindo as editoras independentes. E se antes eram inexistentes, ainda são poucas as políticas públicas que promovem a bibliodiversidade e a livre circulação de ideias, a difusão cultural e a formação de novos leitores.
 
UmaCascaDeNoz - A Boitempo vem se empenhando na promoção de eventos, trazendo grandes nomes da esquerda nacional e internacional para cursos e palestras (que estão sempre cheios). Além do papel de formação política que cumprem, esse é mais um “produto” da editora frente ao tão falado e temido “fim do impresso”?
 
Ivana Jinkings - Esses eventos acabaram se tornando marca da editora e são principalmente uma forma de divulgar nossos títulos. A Boitempo organiza debates, cursos e seminários – quase sempre públicos e gratuitos – não apenas em São Paulo, mas também em várias cidades brasileiras, levando autores nacionais e internacionais. Essas medidas favorecem o acesso, nos diferenciam no segmento de livros, e elevam a qualidade do diálogo entre os nossos autores e leitores, pois em geral as gravações e os textos produzidos nesses eventos são depois disponibilizados gratuitamente no blog: http://boitempoeditorial.wordpress.com. Não se trata de um produto, mas um meio de encarar, de lidar com as mudanças pelas quais o mundo editorial está passando. Quanto ao “fim do impresso”, não acreditamos nisso, pelo menos não num horizonte próximo. Mas apostamos também no formato digital, começamos a disponibilizar os chamados e-books em 2011, o que permite uma diminuição significativa no preço de capa. Reduzimos nossa margem sobre o exemplar digital e praticamos preços que estão abaixo que os do mercado internacional; com essa nova política de preços nossos títulos digitais passaram a custar até 65% mais em conta do que a versão impressa, uma redução acima da média brasileira em termos relativos e absolutos.
 
UmaCascaDeNoz - Chamou atenção e me alegrou muito o novo selo Boitatá que a editora criou, que, não subestimando a capacidade das crianças, propõe um aprendizado pautado na crítica. Gostaria que você comentasse um pouco como foi a elaboração desse projeto e qual a importância dele na formação dos pequenos.   
 
Ivana Jinkings - Esse era um sonho antigo da casa. Como boa parte do nosso público leitor é jovem (a maioria é estudante universitário, às vezes do ensino médio), acreditamos que a Boitempo já carrega na proposta editorial essa ideia do leitor em formação, que quer aprender mais sobre o mundo. Esse é o espírito do selo Boitatá: um selo que aposta na inteligência de seus leitores, que incita o questionamento e a construção do senso de justiça. Esse projeto ganhou forma no começo de 2015, quando discutíamos a programação de lançamentos do ano e a divulgação do nosso aniversário de vinte anos. Nesse meio tempo conhecemos os editores da espanhola Media Vaca e nos apaixonamos de cara pela coleção Livros para o Amanhã, com quatro volumes que abordam diretamente temáticas muitos próximas às da nossa linha editorial. Esse foi um jeito de reforçar a marca e a proposta da editora como um todo, pois a independência e o pensamento crítico (marcas da editora) estão igualmente presentes no selo Boitatá, que incentiva a criança a desenvolver autonomia e a questionar, a ter dúvidas, a pesquisar.
 
UmaCascaDeNoz - Como percebe o cenário de produção de pensamento crítico e teórico no Brasil?
 
Ivana Jinkings - Vivemos um dilema. Diante da chamada ‘onda conservadora’, da eminente ‘direitização’ da classe média e das investidas contra direitos sociais duramente conquistados, as esquerdas se fracionam e a produção teórica também se ressente.  Infelizmente não fomos capazes de produzir uma teoria que seja alternativa real ao neoliberalismo. E isso ocorre não apenas no Brasil. A cientista política Ellen Wood, recentemente falecida, escreveu no livro Democracia contra Capitalismo (publicado pela Boitempo) que o capitalismo tornou-se um sistema econômico e social que retira gradativamente mais e mais esferas da vida social do controle popular e democrático. Ele impõe uma lógica e os intelectuais de esquerda, quando não abraçam o capitalismo como o melhor dos mundos possíveis, limitam-se a sonhar com pouco mais que um espaço nos seus interstícios e prescrevem apenas resistências locais e particulares. Mas tenho esperanças em uma nova geração de marxistas que se forma, vigorosa, dedicada à dura tarefa de renovar o pensamento critico nos dias que correm.
 
UmaCascaDeNoz - Tem algum autor preferido, nacional ou internacional?
 
Ivana Jinkings - São muitos os preferidos, de modo que vou fazer uma pequena relação aqui (correndo o risco, como sempre, de deixar de fora autores de quem gosto muito): começo por Karl Marx e Friedrich Engels, que ocupam um lugar privilegiado no nosso catálogo, passando para Gyorg Lukács e seu mais brilhante discípulo e que se tornou uma espécie de carro-chefe da Boitempo, István Mészáros. Além deles, mencionaria David Harvey, Perry Anderson, Michael Lowy e Domenico Losurdo. Entre os brasileiros, destaco Chico de Oliveira, Paulo Arantes, Maria Rita Kehl, Alysson Mascaro, Ruy Braga, Silvio de Almeida, Antônio Carlos Mazzeo e muitos outros. Em matéria de ficção, cito dois ascritores que publicamos: o cubano Leonardo Padura, autor dos romances O homem que amava os cachorros e Hereges, e o paraense Edyr Augusto, de quem lançamos o quinto romance policial, Pssica, e uma autora cujo ótimo romance (Cabo de guerra) publicaremos este ano, Ivone Benedetti. Antes de me tornar editora tive fases em que li tudo de Monteiro Lobato, Agatha Christie, José Lins do Rego, Machado de Assis e Graciliano Ramos (dele, aliás, temos uma excelente biografia escrita por Denis de Moraes chamada O velho Graça).