O condomínio Brasil

03.02.2016

Revista CULT
Manuel da Costa Pinto

O psicanalista Christian Dunker faz reflexão sobre subjetividade, história e a sociedade brasileira “Sofrimento não é sintoma, e sintoma não é mal-estar”, escreve o psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, num dos tantos torneios conceituais que fazem de seu novo livro, Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros, uma reflexão marcante sobre a relação entre subjetividade, história e sociedade no Brasil.

A obra parte de uma questão metapsicanalítica – o diagnóstico – a partir da qual Dunker identifica uma proliferação discursiva que abrange outras práticas e outras áreas do saber, constituindo uma forma de lidar com nossas “narrativas de sofrimento” que abdicou de compreender sua singularidade (tal como o faz a psicanálise) para se limitar a gerir o mal-estar que lhe está na origem.

E a ideia da gestão da tríade mal-estar/sofrimento/sintoma, por sua vez, conduz ao cerne do livro e à metáfora que o percorre: o condomínio, como projeto urbanístico que materializa todo um imaginário de proteção, exclusão e bem-estar, mas que é também uma forma de vínculo social que produziu novas figuras da Lei (o síndico gestor do gozo) e novos sintomas, dentro da lógica do condomínio e da gestão.

O livro inclui ainda um capítulo dos mais ousados, do ponto de vista historiográfico, sobre a implantação da psicanálise no Brasil e sobre como ela se relacionou com os discursos sobre a identidade nacional. Dunker investiga o esgotamento desse discurso e seu impacto nas práticas psicanalíticas, na “metadiagnóstica social do mal-estar na brasilidade”, descrevendo como, dentro das grandes narrativas sobre a formação do Brasil, “a oposição entre desenvolvimento e subdesenvolvimento é substituída pela oposição entre condomínio e segregação” – e como a psicanálise, também ela, poder ser um sintoma brasileiro.

Você inicia o livro falando de uma diagnóstica – que aparece como uma prática discursiva, um “ato de nomeação” que se transformou em “reconstrução de uma forma de vida”. Em que momento surge essa proliferação discursiva e como a diagnóstica psicanalítica difere das outras (médica, jurídica, econômica etc.)?

Dunker O diagnóstico sempre foi um ato raro, que muitas vezes decidia o destino de um sujeito ao inscrevê-lo em um discurso específico, um parêntesis em sua “humanidade”, capaz de transformá-lo em monstro, animal ou fora da lei. Mas foi só a partir dos anos 1970, e da ascensão do neoliberalismo, com [Ronald] Reagan e [Margaret] Thatcher, que praticar autodiagnósticos, regular nosso desempenho por avaliações e confrontar nossa experiência com parâmetros sistemáticos de felicidade tornou-se uma prática generalizada e compulsória. É nesse momento que a neurose é excluída do grande sistema de classificação dos transtornos mentais, naquela altura o DSM-III. Com a sua exclusão suspendemos um princípio geral que remonta aos primórdios da psicopatologia no século 19, ou seja, de que todos os sintomas deveriam obedecer a uma regra de formação, uma lógica, que permitiria sua leitura ordenada, conforme sua ordem de aparecimento ou concomitância. Desta maneira a história da doença confundia-se com a história do doente, e essa era uma história que se exprimia em gêneros específicos, como o romance, o mito, a teoria ou a novela, em acordo com gramáticas próprias, como a da neurose ou da psicose, e segundo uma estilística que a experiência do tratamento seria capaz de reduzir ou transformar. A partir dos anos 1970 aparece a Medicina Baseada em Evidências, amplia-se a judicialização da sociedade e generalizam-se os princípios de desempenho econômico e de cálculo do valor agregado para áreas antes consideradas restritas, como educação, saúde, assistência social e cultura. O que todos esses movimentos têm em comum é a inclusão do cálculo de riscos e a necessidade de autojustificação, pelos próprios agentes jurídicos, médicos ou econômicos, no interior dos processos dos quais eles fazem parte. Surge assim a figura do gestor, que é o administrador da diagnóstica continuamente reaplicada ao hospital, à escola ou à empresa. A partir de então a história reduz-se apenas ao último capítulo. O lucro obtido no último semestre é o que importa para os acionistas. A métrica é o que conta para as agências de saúde ou de educação. Gerar números, criar fatos e administrar o mal-estar, criado muitas vezes por esses mesmos procedimentos, substitui a abordagem do sintoma e da verdade que ele porta sobre o sistema simbólico que o produziu. As diagnósticas médicas, jurídicas e econômicas têm em comum esse pressuposto populacional, que terminará na obscena contagem de mortos e baixas calculadas. A diagnóstica psicanalítica permanece de outro tipo, pois, de certa maneira, ela não conseguiu se “renovar” nem se adaptar a tais formatos securitários. Em psicanálise ainda não se inventou um diagnóstico breve, feito para a ocasião e conforme o freguês.

Então, o fato de a psicanálise não ter se sintonizado com essas diagnósticas é sua virtude, pois dessa maneira ela preserva a história do doente sem diluí-la na história/gestão da doença. Como ampliar o efeito desse “anacronismo” da psicanálise num mundo de gestão de transtornos?
Dunker Sim, a diagnóstica psicanalítica inclui e reconhece a hermenêutica que o paciente faz de seu sintoma. Ela opera a partir dessa crise de saber, tornando essa crise um motor para o tratamento. É o que se chama de transferência. No fundo, a grande divisão se dá entre os que pensam que o sintoma é uma experiência formada em relações, e particularmente em relações de linguagem, e aqueles que acreditam que o sintoma psíquico é um epifenômeno “sem sentido” e independente da interpretação ou leitura que dele podemos fazer. Ele pode ter causas genéticas, químicas, neurológicas, mas jamais dirá algo sobre a história de relações daquela pessoa. Esse argumento é muito mais persuasivo, quando pensamos em sintomas. Uma ideia “fixa”, um medo “irracional” ou um impulso “incontrolável” já aparecem ao sujeito como destituídos de sentido, por isso, se um discurso externo confirma esta hipótese isso faz água para a desresponsabilização do sujeito, sancionando a alienação espontânea que há em todo sintoma.  Mas o raciocínio é mais difícil de reaplicar quando consideramos a dimensão do sofrimento. Isso ocorre porque a ideia de que você tem que aceitar o sofrimento, de que a existência de coisas inexplicáveis e sem sentido faz parte da vida, não se ajusta muito bem ao narcisismo pós-moderno. O sofrimento é interpretado espontaneamente como um déficit de felicidade. E, assim como a felicidade, ele é experimentado de forma comparativa e competitiva. Nosso sistema de consumo descobriu que o tratamento e a gestão do sofrimento são um ótimo negócio. 

E como essa “gestão do sofrimento” se dá no caso brasileiro? 
Dunker Em uma das voltas do livro, tento entender esse fenômeno em sua incidência específica no nosso país. A gestão do sofrimento, com suas tecnologias biopolíticas de medicalização e educação, ou com suas disciplinas pararreligiosas e de autocorreção, tem produzido um efeito adverso ao esperado. Nunca se fez tanta psicanálise no Brasil. As associações se expandem, os grupos de trabalho, os congressos e as publicações se multiplicam, com nítido auxílio de meios digitais. Contudo, não vejo esse processo de socialização da psicanálise, que hoje em suas mais diferentes combinações instalou-se nas instituições de todos os tipos, apenas com bons olhos. Como diria [Slavoj] Žižek, há uma paralaxe aqui. Com um dos olhos é possível ver que isso reflete a própria expansão da gestão do sofrimento, no sentido de que isso cria sequelas, demandas indiretas, efeitos contrários, fracassos psiquiátricos massivos, que vêm parar nos consultórios dos psicanalistas. Mas com o outro olho percebe-se que há ainda muitos compromissos e conveniências entre o nosso relativo anacronismo diagnóstico e a mera ideologia da conformidade. Há ainda demasiada política de condomínio na psicanálise brasileira, e é por isso que advogo que ela é, em certo sentido, um sintoma nacional. 

O cerne do livro parece ser essa ideia do condomínio como “nova política de manejo da alteridade e do antagonismo social” e como resposta a determinada “racionalidade diagnóstica”, que vai além do condomínio propriamente dito (do tipo Alphaville). Em que outras instâncias da nossa realidade social você reconhece esse manejo e suas figuras (como o síndico e o gestor)? 
Dunker O condomínio é um sintoma brasileiro, que se mostra cada vez mais exportável, em conformidade com a brasilianização do capitalismo no mundo. O condomínio é uma estrutura e uma forma de vida. Ele não se restringe às pessoas que efetivamente residem em locais assim denominados. Por exemplo, o shopping center é uma versão da lógica do condomínio, com seus seguranças, muros e gestores. As favelas e as prisões, no Brasil, pertencem a essa mesma estrutura, como casos invertidos das mesmas propriedades de isolamento, segregação e autogestão, com pequena ingerência do Estado. O sentimento geral de fracasso de nossa atual forma de fazer política remonta à percepção de que nossos representantes operam apenas como gestores ou síndicos de um bem que não é tratado como público ou comum, mas submetido a esse estado de administração semiparticular, como recentemente se viu no caso da Petrobrás. É possível que exista uma homologia entre as práticas que nascem e prosperam dentro dos muros protegidos de um condomínio e a falsa segurança que vigora dentro de empresas nas quais a lei é apenas uma questão de ação entre amigos (ou inimigos). 

Na esteira da pergunta anterior: o fenômeno do condomínio, como você diz, data do início dos anos 1970, e você localiza uma continuidade de sua lógica “murada” no mundo dos reality shows. Como vê o fenômeno das redes sociais do tipo Facebook? 
Dunker Os realities redobram um dos traços mais marcantes da administração neoliberal: primeiro a segregação, depois a exclusão. Foi assim que Jack Welsh descobriu que ao eliminar sumariamente 10% de seus funcionários ao ano melhorava o desempenho da empresa. A combinação entre medo e competição é capaz de extorquir os melhores recursos de cada um antes que o bagaço que sobrar seja entregue ao sistema de saúde. Lacan distinguia muito precisamente a realidade, que é esse fragmento do mundo que se mostra de forma organizada e necessária diante de seus olhos, do Real, ou seja, esse núcleo traumático negado para que essa ordem se institua. Quando acompanhamos um reality, ele tem sempre um síndico zelando pelas regras, os muros que não podemos passar, um conjunto de provas ou desafios e um sistema de exclusão. Ora, tudo isso mimetiza a nossa forma de vida em estrutura de condomínio, permitindo que encontremos as mais diversas montagens entre o prazer exibicionista-voyerista, a identificação transitiva e o narcisismo das pequenas e grandes diferenças. O que não vemos é que enquanto encontramos prazer e segurança nessa realidade, estamos ao mesmo tempo gozando obscenamente com aquilo mesmo que nos oprime desde o Real: a exclusão arbitrária de formas de vida. Quando encontramos a obscenidade do “paredão” na escola, na empresa, na saúde, e até mesmo na lógica da vida amorosa ou de gênero, sentimos isso como um mal-estar indiscernível, mas na outra cena glorificamos culturalmente esta mesma lógica como parte das “regras do jogo”. 

 

E como funciona esse conceito de “condomínio”, no Facebook? 
Dunker Creio que o Facebook pertence a outra série de sintomas, com outra gramática de sofrimento, que responde a um tipo diferente de mal-estar. É preciso ter passado muito vigorosamente pelo tipo de solidão e inautenticidade produzidos pela vida em forma de condomínio para que o tipo de sociabilidade predominante nas redes sociais seja de fato sentido como um antídoto. Sua lógica não é a da exclusão nem a da segregação, mas a do choque de comunidades expansivas, que englobam outras comunidades ao modo de uma fagocitose. Nas redes sociais, cada um se torna um síndico (um administrador) criando e recriando formas de vida que são tão dispensáveis quanto inconsequentes. Se no condomínio estamos diante da relação entre a realidade e o Real, na vida digital estamos às voltas com o que Lacan chamou de “verdade em estrutura de ficção”. Por isso a sedimentação, o emparelhamento e o aparelhamento das formas de sofrimento é tão agudo e essencial para a sociabilidade digital. 

 

Acho que aqui valeria esclarecer a diferença entre os três termos que dão título ao livro e que aparecem na sentença “sofrimento não é sintoma, e sintoma não é mal-estar”.
Dunker Entende-se, desde Freud, que o sintoma é um compromisso entre forças ou desejos antagônicos, um compromisso que se expressa em um ato, um pensamento ou uma disposição cujo sentido aparece como “estranho” ao seu próprio agente. No livro, argumento que há duas famílias de sintoma, aqueles que se organizam em torno da gramática do “tenho que”, ou seja, certa coerção a fazer, pensar e sentir que pode ou não ir contra a norma social, e os sintomas cuja gramática é a do “não posso com”, como as inibições, as fobias e as impotências. Lacan estabeleceu que os sintomas possuem uma estrutura de linguagem, ou seja, ele são formalmente homólogos a metáforas. Na metáfora temos uma substituição de um termo por outro com a desaparição de um dos aspectos do termo inicial. É exatamente por causa dessa substituição que Freud dizia que os sintomas são operações simbólicas por meio das quais negamos algo e ao mesmo tempo conservamos aquilo que é negado em uma nova forma, uma deformação. Se o sintoma tem uma estrutura de metáfora, tentei mostrar neste livro que o sofrimento possuiria uma estrutura de narrativa. 

 

E como seria essa “estrutura de narrativa”? 
Dunker Ao combinar de modo inconsciente transferência, identificação e demanda, as narrativas de sofrimento revezam-se em sua função de reconhecimento dos sintomas. Na verdade a ideia de sofrimento é necessária para entender por que alguns sintomas são sentidos como insuportáveis enquanto outros integram-se, de maneira complacente, aos mais diversos ideários de nossas formas de vida. As alternâncias ou fixações entre narrativas de sofrimento, tais como alienação, objeto intrusivo, dissolução da unidade e violação do pacto, respondem ainda a um segundo critério, a determinação de nosso mal-estar. Apesar desse ser um termo presente em Freud e em uma de suas obras mais importantes, O mal-estar na civilização, pouco se fez para tentar estabelecer a extensão de seu conceito. Por isso propus nesse livro que o mal-estar representasse uma espécie de buraco negro de nossas práticas de nomeação, ou seja, o mal-estar (Unbehagen) é ao mesmo tempo um empuxo a encontrar um nome para nossa posição de precariedade no mundo e para o fracasso repetitivo dessa prática de nomeação. Ao final poderia dizer que o sintoma é formado por um nome que encontramos para o real do mal-estar. Contudo, essa ligação entre sintoma e mal-estar requer uma “estrutura de ficção”, que liga a verdade do sintoma ao real do mal-estar. Essa estrutura de ficção é fornecida pelas narrativas de sofrimento. Nossa cultura não nos ensina apenas valores e padrões, ela não fornece os critérios de nossa ligação com o passado às condições de nossos sonhos futuros, ela também nos ensina a sofrer, e como. [Ludwig] Wittgenstein dizia que os limites de minha linguagem são os limites de meu mundo – podemos parafrasear para: os limites de sua linguagem são os limites de sua psicanálise. 

 

O livro inclui um capítulo sobre a implantação da psicanálise no Brasil e sobre como ela se relacionou com os discursos sobre a identidade nacional. Como vê o esgotamento desse discurso e seu impacto nas práticas psicanalíticas, na “metadiagnóstica social do mal-estar na brasilidade”? 
Dunker Ainda não nos recuperamos de um hiato histórico em nossa reflexão sobre a brasilidade. Depois daqueles que deram forma ao problema, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., os modernistas e nossas vanguardas, os tempos de ditadura substituíram o pensamento sobre o Brasil com coisas ridículas indexadas a nomes promissores, como: Estudos de Problemas Brasileiros (EPB) e Organização Social e Política do Brasil (OSPB). Sem falar nos nossos “institutos” de Estado, nos Ecads e Embrafilmes, criados para dar conta da tarefa de “oficializar” a cultura brasileira. Isso teve por efeito amaldiçoar o assunto. Quando acordamos desse hiato a própria distribuição de tarefas na universidade e na ciência havia mudado. Reflexões gerais tornaram-se inúteis ou coisa para amadores leigos. Os verdadeiros pesquisadores deveriam ter um tema, um autor, um período, um problema específico. Ou seja, nossas antigas antinomias, entre desenvolvimento e subdesenvolvimento, o campo e a cidade, o centro e a periferia, o nacional e o internacional, foram desativadas. Em seu lugar surgiram os “condomínios” culturais e universitários. É neste ponto que eu tento entender um aspecto muito específico da psicanálise no Brasil, ou seja, a chegada e expansão do lacanismo nos períodos da Abertura [1974-1985]. A partir das oscilações da psicopatologia inspirada em Lacan, tento perceber os abalos sísmicos deixados pela mutação de nossa forma de sofrer quanto à formação de novos “condomínios psicanalíticos”. 

 

E de que maneira a psicanálise pode participar desse debate sobre a brasilidade? 
Dunker Tomo a psicanálise como um sintoma brasileiro. Ela responde ao nosso modo de sofrer, isso é inegável. Outras culturas se pensam em outras chaves, a brasileira não pode ser pensada sem a psicanálise, por isso tentei introduzi-la (ou reintroduzi-la) em nosso debate sobre a brasilidade. No livro, eu tomo o chamado Cinema da Retomada como uma tentativa de refazer esse hiato, com suas narrativas de vingança e sua cosmética da fome. Nesse cinema, até onde ele possui alguma homogeneidade em termos de linguagem fílmica, há uma intuição importante: a nossa forma de nomear o mal-estar se modificou, não está mais focada no excesso de experiências improdutivas de determinação (os excessos da autoridade, da família, do erotismo), mas a raridade, senão o déficit, de experiências produtivas de indeterminação. É o que vemos em Sergio Bianchi, Beto Brant, Walter Salles e Fernando Meirelles. Temos aqui um retrato animado de como no lugar de um pacto social mal formulado, ou mal refeito, surge um muro denegatório. Dentro dos muros do condomínio podemos realizar a segurança e conforto “entre iguais”, mas fora desse estado de isolamento, fora do reality show, nada mais de cordialidade, nem mesmo complacência ou apadrinhamento dos pobres. É por aí que se formou a atual divisão “moral” de nossa sociedade. Houve uma mutação do afeto social, que é sempre a enunciação de nosso mal-estar. Não mais o medo, de quem sabe que nosso pacto é um pacto desigual entre desiguais, mas o ódio de quem não admite diferenças que não são segregáveis por meio de muros. 

 

Como você vê os sintomas e o mal-estar que parecem ter se abatido no país neste exato momento, em que tudo parece ser um “objeto intrusivo” que vai minando uma sociabilidade já bastante corroída? 
Dunker Nossa onda de ódio e de intolerância indica o esgotamento de nossa confiança e da eficácia mesma de nossas outras narrativas de sofrimento. Há uma espécie de beco sem saída quando se trata das voltas e reviravoltas em torno do pacto mal formulado e sua violação, que é o registro da patologia da lei. Mas há também uma retração de duas outras narrativas de sofrimento: aquela que aposta que perdemos um fragmento de nossa própria alma (alienação) e aquela que tematiza a dissolução de unidades do espírito (como a família, o amor, a infância). De repente, ninguém pode dar-se ao luxo de estar enganado, ninguém consegue acreditar na força das pequenas comunidades, nem na resiliência de nossos laços. Ora, o exagero da narrativa do pacto e a desativação dessas duas narrativas, mas ligadas ao sofrimento de indeterminação e à experiência de anomia ou deriva, nos fazem entender o súbito giro para uma quarta alternativa: se há mal-estar, se há algo fora da ordem, é porque algo ou alguém não pertence a esse lugar, alguém está, como um objeto intrusivo, instalado indevidamente em “meu condomínio”. Esta é a forma historicamente mais perigosa de sofrer, porque ela convoca uma espécie de solução óbvia, uma solução trágica, que é purificar o condomínio: excluir negros (ou brancos, se forem da elite), atacar homossexuais e mulheres (ou os machistas), achincalhar a esquerda caviar (ou a direita coxinha), silenciar baderneiros (ou reformar a polícia). Essa é uma lógica perigosa porque longe de serem dois grupos opostos eles estão reunidos pela mesma premissa: tem alguém a mais neste condomínio, tem alguém que não deveria existir nas minhas imediações. Não se trata de dizer que os dois lados estão igualmente errados porque em situações de poder desigual pressupor equidade é tomar partido do pior. O que não conseguimos mais visualizar em uma situação dessas é a situação dos “perdidos”, dos “erráticos”, dos que estão “à deriva” e que são levados ou postos de um lado ou de outro, porque só há dois, nesse casamento entre a narrativa do pacto e a narrativa do objeto intrusivo. Como psicanalista eu me preocupo também com esses que têm sua forma de sofrer silenciada neste momento. Eu me pergunto pelo tipo de reconhecimento que dispensamos aos alienados, os errantes, os que perderam suas almas e estão em um mundo que não lhes parece mais deles e que são “forçados” a sofrer de um lado do pacto, para ter lugar no mundo dividido entre vítimas e objetos intrusivos. Por outro lado não houve mudança substancial na história, para o bem e para o mal, que não tenha se produzido em uma conjunção entre as narrativas de sofrimento semelhante à que estamos enfrentando agora.