Boitempo faz 20 anos, lança selo infantil e pensa na questão racial

26.12.2015

Estadão | Caderno 2
Maria Fernanda Rodrigues

Publicando ficção e livros de esquerda desde 1995, Ivana Jinkings celebra o crescimento tranquilo e constante de sua editora

Ivana adorava genética e bem tentou ser bióloga, mas a influência familiar falou mais alto. Não que alguém tivesse tentado convencê-la do contrário – é que ser filha de um militante comunista, editor e livreiro deixa a sua marca. Ao se mudar de Belém para São Paulo em 1983, após a faculdade e com sua primeira filha no colo, ela foi trabalhar no Voz da Unidade, jornal do Partido Comunista Brasileiro. De lá, foi para a Ática, Atual, Scritta. Quis ser dona do seu tempo e decidiu abrir uma editora.
 
Todos [os ex-editores] foram contra, menos Raimundo Jinkings, o pai – àquela altura, em 1995, já muito doente, ele, que teve uma editora no fim dos anos 1960, após a prisão e depois de ter inaugurado, na sala de casa, uma livraria, incentivou a filha caçula e ajudou a pagar as despesas dos primeiros títulos. Jinkings morreria cerca de 15 dias depois de Napoleão, livro de Stendhal até então inédito no Brasil e que inaugurou o catálogo da Boitempo, ficar pronto. Ela emprestou do pai o nome da editora e ele, por sua vez, emprestou de Drummond. “Mesmo que isso não tenha sido muito claro no começo, ter uma editora, e ter a editora que talvez ele tenha querido fazer, tem uma força muito grande. Acho que ele estaria feliz e orgulhoso”, comenta.
 
A primeira Boitempo começou com Umbanda e Integração Social e A Filosofia de Mao Tsé-tung. Em plena ditadura, quase tudo era apreendido ao sair de gráfica e os sócios desistiram. A segunda Boitempo queria editar obras raras, especialmente de ficção. Mas, de novo: não se é “a filha do comunista”, como diziam sobre ela na época de escola, e fica por isso mesmo. Logo Ivana lançou O Mister de Fazer Dinheiro – Automatização e Subjetividade no Trabalho Bancário, de sua irmã Nise. Nascia aí a coleção Mundo do Trabalho, na área de sociologia. A definição da linha editorial, Ivana lembra, veio mesmo em 1998, com a publicação de Manifesto Comunista, de Marx.
 
Em menor quantidade, obras de ficção continuam no radar da editora, que lançou o primeiro livro de Luiz Ruffato, apresentou Edyr Augusto (de Pssica, um dos melhores livros de 2015) e teve, depois de dois anos de esforço, a felicidade de publicar O Homem Que Amava os Cachorros. Com 50 mil exemplares vendidos, o título do cubano Leonardo Padura é o best-seller. Depois aparece Educação Para Além do Capital, originalmente uma palestra do filósofo húngaro István Mészáros que a editora resolveu transformar em livro. Cerca de 40 mil cópias foram comercializadas.
 
Para Ivana, o fato de a Boitempo ser uma editora focada garantiu o crescimento orgânico e tranquilo ao longo dos últimos anos. Entre as novidades recentes, estão a Coleção Barricada, para HQ, e o Boitatá, selo infantil que terá livros que despertem o questionamento nas crianças. Agora, ela organiza com a mãe um livro sobre seu pai e pensa em 2016. “Queremos investir mais em questões raciais. Percebemos, a duras penas, fazendo eventos, que o catálogo da Boitempo é muito branco – até porque ela é ligada à universidade e a universidade é branca. E estamos olhando com mais atenção para autoras”, conta.