Brasil entre muros

13.11.2015

O Popular
Rita Guedes
Quem nunca quis morar e ser feliz como naqueles comerciais de margarina? A vida idealizada e artificial dos condomínios fechados, suas origens, sintomas e consequências na sociedade brasileira são o tema da palestra A Delicadeza Perdida: Mal-estar Individual e Coletivo na Era dos Condomínios, que será proferida hoje pelo psicanalista Christian Dunker no projeto Café de Ideias. A palestra será realizada às 19h30, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. A entrada é gratuita.
 
De tradição lacaniana, o psicanalista Christian Dunker, formado pela Universidade de São Paulo e premiado em 2012 com o Jabuti de melhor livro na categoria Psicologia e Psicanálise, analisa o fenômeno da multiplicação dos condomínios sob um ponto de vista a que poucos se atentam quando se trata da questão urbana: a afetividade. No primeiro semestre deste ano, ele lançou o livro Mal-estar, Sofrimento e Sintoma pela editora Boitempo, em que comenta a relação com o outro no Brasil que vive a chamada lógica dos condomínios, cujo princípio é o da segregação.
 
Segundo ele, este fenômeno revela a necessidade que se proteger do outro, do desconhecido, do diferente – aquilo que está do outro lado do muro, a partir de um viés que é, primeiramente econômico. Quando os condomínios começaram a ser implantados no Brasil, nos anos 70, em plena ditadura militar, a ideia de controle e normas nos ambientes diversos parecia interessante às elites. Nas décadas seguintes, a segurança passou a ser uma justificativa a mais para a segregação. Assim, morando em um espaço restrito a pessoas iguais, não se corria mais o risco não só da violência, mas também da convivência com indivíduos de classes mais baixas.
 
Há, ainda, um fator muito importante nesse estilo de vida, que é a ideia de controle, da altura ou cor da casas, por exemplo, até as portarias, que funcionam quase como uma fronteira, territórios em que o síndico é uma autoridade e não mais o Estado, que de certa forma delega a função de organizar o espaço urbano para a iniciativa privada. Completa esse universo a entrada separada para os empregados devidamente uniformizados – algo mais eficiente, nesse contexto, que os elevadores de serviço, o carro importado na garagem, a promessa de segurança em meio ao caos urbano das grandes cidades brasileiras.
 
Desse modo, morar em um condomínio pode equivaler a um status de privilégio e, consequentemente, de cobiça, já que viver nesse lugar também implica uma certa exclusividade. “O morador se apega a esse status, ao orgulho de ser invejado, mas não é feliz e acaba sofrendo sintomas como pânico e depressão. A pessoa sente uma sensação de esvaziamento, como se algo estivesse faltando em sua vida”, diz Dunker.
 
Fantasia
 
“Como foi possível inventar uma forma de vida comum sem uma verdadeira comunidade?” indaga o psicanalista acerca da lógica dos condomínios no Brasil. Christian Dunker lembra que, atualmente, esse fenômeno não se aplica apenas às elites, já que há empreendimentos imobiliários do tipo adaptados para a classe média, por exemplo, diferentemente do que acontecia nos anos 70 e começo dos anos 80.
 
Outro fator mais contemporâneo observado pelo palestrante é que a febre dos condomínios, que antes se manifestava em grandes centros urbanos, notadamente no Sudeste, agora é presente também em outras regiões do País. Consequentemente, alastra-se a percepção social de que o espaço público, que deveria ser de todos, torna-se um lugar cada vez mais violento e perigoso. Para ele, os condomínios reforçam duas hipóteses para o mal-estar, o sofrimento do título da palestra e de seu livro: uma dizendo que o mal vem de fora e outra que a felicidade é uma questão de leis.
 
Por outro lado, lembra o psicanalista, há exemplos, a maioria da nova geração, de gente que tem outro ideal de vida e de relação com o espaço urbano. “Para alguns, o ideal é o retorno às ruas, a essa convivência na cidade, nos parques, onde o contato com o outro, o diferente, faz parte de um estilo de vida que, diferentemente ao preconizado pela condominização, não se pode dizer que o sofrimento vem de fora dos muros estabelecidos, seja de outra região do país ou de outra classe social”, destaca Dunker.
 
Café de Ideias: A Delicadeza Perdida: Mal-estar Individual e Coletivo na Era dos Condomínios, com Christian Dunker
Data: Hoje, às 19h30
Local: Centro Cultural Oscar Niemeyer – GO-020, km 0, saída para Bela Vista
Entrada gratuita