De Stendhal a Padura

30.10.2015

Revista Brasileiros | Literatura
Manoela Aenha
No comando da Boitempo, editora que acaba de completar 20 anos, Ivana Jinkings difunde no Brasil o pensamento contemporâneo de autores como o esloveno Slavoj iek, o americano David Harvey, o cubano Leonardo Padura e o brasileiro Christian Dunker
 
A serenidade de Ivana Jinkings destoa da turbulência política e econômica propagada nos noticiários. Dona da Boitempo, principal editora de livros de esquerda do Brasil e uma das maiores no meio acadêmico, ela diz que a crise não chegou ali – uma casa de dois andares no alto do bairro de Sumarezinho, zona oeste de São Paulo. A rua é silenciosa e cheia de árvores. O dia, ensolarado. “Dizemos que vivemos numa bolha na Boitempo, a macroeconomia não chega muito. Temos um crescimento constante. Criamos uma nova cara para livros de esquerda, super- bem cuidada, e temos contato direto com os leitores por meio dos nossos eventos. Então, dependemos menos do mercado formal”, diz ela sobre a editora, que completou 20 anos em setembro.
 
Ivana nasceu em Belém do Pará, onde estudou Biologia e se especializou em Genética. Sem saber ao certo por quê, não chegou a exercer a profissão e acabou enveredando para o mundo das letras assim que veio para São Paulo com o primeiro marido, aos 21 anos.
 
Foi em Belém que seu pai, Raimundo Jinkings,  abriu a Livraria Jinkings, na época a maior da região e ponto de encontro da intelectualidade da capital paraense.  Na infância, Ivana viu o pai ser preso inúmeras vezes pela ditadura militar – foi um dos principais nomes do PCB no Pará e sindicalista líder do Comando Geral dos Trabalhadores. Eram frequentes as batidas policiais em sua casa e na livraria. No andar de cima da loja, havia um salão onde aconteciam reuniões políticas.
 
O período foi duro, mas não as lembranças que ficaram. De voz mansa e olhar risonho, Ivana fala de como ela e os quatro irmãos, ao serem avisados por algum vizinho de que haveria batida, saíam correndo pelo quintal para esconder livros na casa da avó, ou de quando afrontavam os policiais: “No meu quarto não vai entrar, não!”. Havia também as brigas com o vizinho, desembargador de direita, e as defesas ferrenhas do pai comunista diante dos colegas de escola.
 
Durante os meses em que Raimundo esteve preso, a mãe, também do PCB, e os cinco filhos viveram de doações de parentes e amigos. Quando saiu da cadeia, o pai foi ser feirante. Só depois é que abriu a livraria. “Meu pai lia muito e tinha contato com muitas editoras do Sul. Para ajudá-lo, pediam para ele representá-las. E foi assim que começou, representando a Editora Ática, cujo primeiro dono era seu conhecido. Ele vendia livros em casa até abrir o próprio lugar. Nos anos 1980, muita gente falava que não conhecia uma livraria como aquela.”
 
Os filhos também tinham suas atividades políticas. A mais velha foi do grupo Caminhando, dissidente do PCdoB, a segunda, do Libelu (Liberdade e Luta), e os dois irmãos, do PCB. Ivana, a caçula, foi do MR-8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro), mas não chegou a participar da luta armada. “Os almoços em casa eram muito engraçados, meu pai tinha uma paciência! A gente ficava sempre criticando o PCB, chamando de reformista”, conta aos risos.
 
A Boitempo de Ivana leva o nome de uma antiga editora de seu pai. Em plena ditadura militar, os livros eram apreendidos assim que publicados. Logo, a primeira Boitempo teve vida curta. O nome, em ambas, foi uma homenagem ao poema de Carlos Drummond de Andrade, que autorizou Raimundo a usá-lo.
 
Distante da família, Ivana sofreu muito nos primeiros anos em São Paulo, mas diz que hoje não consegue ficar longe da capital paulista. Ainda sente falta de Belém, especialmente das comidas. “Fico com uma aflição quando vejo todo mundo tomando açaí aqui, parece que vão acabar com o que a gente come lá em Belém!”, ri. Mas voltar a morar lá, jamais. “Sou exceção, a paraense que ama São Paulo.”
 
Assim que se mudou, começou a trabalhar no jornal Voz da Unidade, do PCB, no qual ficou por dois anos. Depois, foi ser assessora do vereador Luiz Carlos Moura (PPS), parte de seu passado que “preferia editar”, e de lá foi para a Editora Ática. Planejava abrir uma livraria, mas acabou decidindo por uma editora e, em 1995, publicou o primeiro livro: Napoleão, de Stendhal, com prefácio do filósofo e atual ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro.
 
O objetivo era buscar títulos raros, nunca publicados em português. O segundo livro foi Carta ao Pintor Moço, de Mario de Andrade, e depois Luar, do escritor francês Guy de Maupassant. “Pelas relações que eu tinha, o foco editorial foi mudando para ser o que é hoje, privilegiando o pensamento crítico na Ciência Política, Filosofia, Sociologia, História… Não foi uma opção de início, a Boitempo tinha outra vocação, mas a minha história de vida a fez entrar na linha justa.”
 
Muitos dos intelectuais publicados pela Boitempo viraram verdadeiras celebrida­des no Brasil. É o caso do filósofo esloveno Slavoj Zizek, do geógrafo norte-americano David Harvey, do psicanalista brasileiro Christian Dunker e do escritor cubano Leonardo Padura, cujo romance O Homem que Amava os Cachorros tornou-se o livro mais vendido da história da editora. Padura, inclusive, agradeceu a Boitempo pelo protagonismo que ganhou graças à publicação, em sua fala na Festa Literária Internacional de Paraty deste ano.
 
Ivana diz que a Boitempo quebrou paradigmas ao caprichar na publicação de livros de esquerda: “Costumavam ser feitos com quaisquer papel, capa e tradução”. Além disso, apostou na realização de eventos e cursos, que acabaram virando marca registrada da editora, como os de introdução às obras de Marx e Engels. O primeiro, em 2008, teve de ser realocado, tamanha a demanda. Com mil pessoas inscritas para uma aula de Ideo­lo­gia Alemã, o evento foi transferido para o Centro de Convenções Anhembi, em São Paulo. “Nas vésperas, eu procurei o Carlos Augusto Kalil, secretário municipal de Cultura, e ele cedeu o espaço. Eu até guardei o tíquete do estacionamento, era no governo Kassab, e tinha escrito: ‘Estacionamento do Anhembi – curso livre Marx e Engels’”, lembra às gargalhadas.
 
Os cursos costumam ser gratuitos, mas o retorno vem com a divulgação da marca e a venda de livros. Mais do que isso, é uma maneira de formar leitores, diz Ivana. “Tem muita gente que foi fazer curso nosso sem nunca ter lido Marx e saiu de lá comprando um primeiro, se interessou. Acho que a gente cumpre um papel importante. Nós percebemos que a universidade não atende essa demanda, os partidos não estão dando conta disso. Os partidos de esquerda não fazem formação política. Hoje em dia, o MST faz esse papel, com cursos de formação. Não temos a pretensão de ser uma organização política, somos uma editora, mas conseguimos fazer isso: uma constância de cursos, de debates, que faz muita gente começar a ler.”