Ideologias atrapalham a educação? Não

30.10.2015

Época | Ideias
Christian Ingo Lenz Dunker
Há ideologia na educação, como sempre houve. A diferença entre hoje e o passado é que agora somos convidados a pensar sobre ela
 
O Enem deste ano reservou um “generoso espaço para tópicos e autores caros à esquerda”, dizem os críticos liberais. Para os calculistas, 31% dos autores da prova de humanas (7,8% da prova total) jogam no time da esquerda. Para os puristas, 31% é demais. A educação deveria, para eles, ter por objeto saberes constituídos e laicos, consensualmente científicos e universalmente acessíveis, neutros do ponto de vista ideológico. Nossas crianças não devem ser dirigidas ou doutrinadas para orientações de mundo particulares, seja de direita, seja de esquerda. Essa atitude presume que sabemos reconhecer facilmente o que é uma ideologia e o que é neutralidade na ciência.
 
É possível contar mentiras dizendo apenas a verdade. Ainda que os números, eles mesmos, não mintam jamais, somos nós que escolhemos quais são os números que contam. Se 31% da prova é de esquerda, isso significa que 69% é de direita? Nesse caso, temos claro desequilíbrio e flagrante parcialidade. Pelo princípio de neutralidade matemática, faltaram ainda 19% para que a esquerda tivesse seus justos 50% do Enem.
 
Não obstante, podemos prescindir de qualquer contabilidade desse tipo. Primeiro porque os autores não são em si ideológicos ou neutros. Um Slavoj Zizek por dois Edmund Burke? Que dizer de um pensador como Jesus Cristo? Ele está na direita com a Renovação Carismática ou na esquerda com a Teologia da Libertação?  E os que viraram casaca? Na juventude libertários, na maturidade liberais e na velhice colaboracionistas nazifascistas? Fazer o mapa da ideologia já presume uma geografia ideo­lógica. Ela fica ainda mais ridícula se ignoramos que o trabalho crítico é justamente a construção e a desconstrução dessas fixações imaginárias. Ajudar nossos alunos a tomar posição diante da ideologia é muito melhor do que querer protegê-­los dela. Para isso, eles devem mostrar ser capazes de analisar textos, conceitos e discursos com os critérios de rigor que são os das ciências humanas.
 
O leitor se insurgirá: mas nem tudo é esquerda ou direita. Há os neutros e os sem partido. Portanto, nosso problema é reconhecer a fronteira entre política e ideologia, os gostos humanos e os fatos.
 
O argumento de que o Inep devia buscar uma neutralidade ideológica representa um erro de conceito. Há muito tempo não se considera mais que podemos distinguir conteúdos ideológicos, politicamente tendenciosos, de sua contrapartida científica, neutra e factual. A ideologia está nas articulações, nas relações, no recorte dos fatos, na escolha dos números, nunca apenas nos autores brutos ou em suas escolas de pensamento. Toda definição de ideologia é ela mesma ideológica. As ciências humanas caracterizam-se por assumir isso como traço imanente de seu objeto. Não estudamos apenas fenômenos, mas as interpretações que fazemos deles. Nesta época de crescente oferta de informação, torna-se crucial desenvolver, em nossos alunos, a capacidade para operar criticamente com interpretações. O truque básico, contra o qual eles devem estar advertidos, é a crença na existência de discursos neutros, imparciais e científicos, que se destacam angelicalmente de todos os interesses humanos. Esse é o sonho de toda ideologia: infiltrar interesses políticos como se fossem fatos.
 
A esquerda tende a politizar os fatos, enquanto a direita tende a despolitizá-los. A esquerda dirá que a direita faz política por baixo dos panos (é o conceito clássico de ideologia), enquanto a direita dirá que a esquerda torna políticos assuntos técnicos (é o conceito ofensivo de ideologia, aquela  que corrompe, seduz e manipula). Resultado: há mais ideologia no Enem do que se pode imaginar, nos pesos das provas, nos conteúdos e nos temas. A boa novidade neste ano é que a prova fez transparecer e colocou isso em discussão.
 
A ingenuidade que move os que querem a política fora da educação é imaginar que essa petição, ela mesma, não é parte de uma política. Uma política que trata o conhecimento de maneira simplória, pois não lida com o fato de que o que há para ser lido e compreendido é a diversidade e o conflito de opiniões. Disso decorre o quadro atual de entendimento médio do debate público no Brasil. Pensamos por filiação simples, presumindo que educar é impor conteúdos que os alunos devem repetir, para reproduzir o mundo como ele é. Depois, esperamos que as novas gerações tragam soluções para os problemas que nós não conseguimos resolver. É desleal: propor uma prova insossa ideologicamente e depois exigir deles alternativas para nossa falta de imaginação política e cognitiva.
 
Nunca deveríamos pensar a ideologia como inclusão das ideias e autores, mas a partir da articulação de suas ideias em contexto. Nesse caso, todas as questões do Enem 2015 exigiam interpretação de textos, ou domínio de conceitos, critérios de rigor em ciências humanas. Bizarro que a direita pregue a suspensão da oposição entre direita e esquerda para recorrer a ela quando considera estar perdendo (como na prova do Enem 2015).
 
Desconhecer a diferença entre militância e manipulação com a crítica de conceitos e o estudo de textos é inaceitável para quem quer tratar de educação. O tema da redação do Enem foi a violência contra a mulher. Se o equívoco anterior era considerar que alguém é um autor de esquerda, antes de ser pensador ou cientista, o erro subsequente é deslocar esse raciocínio para temas. Como se os temas sociais fossem propriedade da esquerda.
 
A avaliação não é uma competição para hierarquizar vencedores e perdedores. Seu propósito não é aumentar o ressentimento social ou gerar métricas. A avaliação é um momento de aprendizagem, e a prova tem um sentido pedagógico. Ela instrui o aluno. Ela o convida a pensar, dirigidamente, sobre um problema. A escolha do tema não é a determinação anódina de um tópico. A violência contra a mulher é um desses problemas que carecem de visibilidade. É um tema que incomoda porque não sabemos bem como falar sobre ele, ou seja, uma escolha acertada para provocar alunos aderidos à servidão curricular e desacomodar os “entendidos em educação” que tirariam nota vermelha no Enem deste ano.