Sobre ovelhas e condomínios

08.11.2015

Revista CULT
Helder Ferreira
O jornalismo teve grande destaque no penúltimo dia do Fórum das Letras de Ouro Preto, que em sua programação principal dedicou três mesas à área. No início da tarde de sábado (7), os jornalistas Audálio Dantas e Miriam Leitão compartilharam experiências de carreira e falaram sobre trabalhos seus que venceram o prêmio Jabuti; às 15h30, quando a temperatura chegava aos 30 graus – algo pouco usual para a cidade mineira, conhecida por climas mais amenos –, a cartunista Laerte foi responsável por lotar o histórico Cine Vila Rica durante sua mesa com o diretor de redação da revista Piauí, Fernando Barros e Silva; e, às 19h, foi a vez do jornalista Paulo Markun se juntar ao colega de profissão norte-americano John Dinges para discutir “Memória, Anistia e Silêncio”.
 
No entanto, no meio dessa programação, mais especificamente às 17h, insinuou-se a filosofia. E a psicanálise. Diante de um auditório composto por cerca de 150 pessoas, o filósofo Vladimir Safatle e o psicanalista Christian Dunker, mediados pelo editor da revista CULT Welington Andrade, dialogaram a respeito de seus mais recentes livros durante a mesa de debate “A política dos afetos”.
 
Colegas no Laboratório INTERUNIDADES de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise, da Universidade de São Paulo, eles buscaram explorar algumas intersecções entre suas pesquisas.
 
Dunker, que no primeiro semestre lançou o livro Mal estar, sofrimento e sintoma (Boitempo), falou das “psicopatologias do Brasil entre muros”. Em sua análise, a sociedade brasileira contemporânea se estruturou nas últimas décadas tendo por base uma lógica de condomínio, de segregação. Este modo de vida, segundo ele, é baseado em dois afetos: o medo – isto é, a necessidade de se proteger do Outro, do perigo desconhecido no território além-muros – e a inveja – no caso, ser invejado por dispor de uma vida “controlável”. O estilo de vida ao modo de um”comercial de margarina”, no entanto, parece pouco saudável: depressão, pânico e uma cultura de excessos rondam os “condôminos”.  “A pessoa se apega ao orgulho de ser invejada, mas não é feliz. Sente uma sensação de esvaziamento, como se algo estivesse faltando em sua vida”, comenta o psicanalista.
 
É pelo fato de a vida social ser constituída por fantasias, desejos e afetos sociais que Safatle sustenta a tese de que a política não é apenas um problema de produção, circulação e consumo de bens, mas, sobretudo, um problema de circulação de afetos. “A maneira como sinto, percebo e vejo define o que é político. É uma questão de percepção”, explica o filósofo. Os afetos que dominam a vida social, segundo o autor do recém-publicado O circuito dos afetos (Cosac Naify), são o medo e a esperança, e é a partir deles que o poder do Estado se organiza. “O poder do estado é, ao mesmo tempo, o bombeiro e o piromaníaco: ele protege e lembra o tempo todo como seria se ele nao fizesse o que faz. Ele gere a insegurança”. Para Safatle, o único afeto com poder transformador é o desamparo. “Se eu demando amparo, faço isso porque espero que a pessoa consiga me amparar, assim, eu transfiro poder, desvirtuando a política – que se baseia na destituição de poder”, teoriza ele, acrescentando que afirmar o desamparo significa perceber a falta (ou vazio) como uma condição ontológica  inscrita na própria estrutura da subjetividade. “Isso pode até mesmo se transformar em coragem, posso deixar de procurar amparo. Para isso, é necessário a contingência e a despossessão”.
 
Todavia, enquanto isso não ocorre, continuamos vivendo dentro da lógica de condomínio ou, como Safatle apontou ao fim do painel, numa espécie de arca teológica política em que autoridade é exercida de modo pastoral. “O pastor sempre conhece as ovelhas, cuida delas e permite que elas se movam – sempre pensando no perigo que as espreita. Esse tipo de autoridade baseada no amparo se dá in absentia”. Somos, então, todos ovelhas vivendo em condomínios.