Uma história de amor aos livros

04.10.2015

Diário do Pará | Caderno Você
Laís Azevedo
Boitempo Editorial comemora 20 anos levando adiante legado de Raimundo Jinkings
 
"Minha paixão pelos livros começou na infância, quando meu pai - o dirigente comunista Raimundo Jinkings - abriu uma livraria em nossa casa, em Belém, após perder o emprego no Banco da Amazônica e ter os direitos políticos cassados pelo golpe militar de 1964. Eu praticamente nasci dentro de uma livraria. Cresci em meio aos livros e essa proximidade me fez ter contato com a leitura muito cedo", conta a paraense Ivana Jinkings, a mais nova dos cinco filhos de Maria Isa e Raimundo Jinkings, fundadora e diretora da editora Boitempo, uma das mais importantes do Brasil, que acaba de completar 20 anos.
 
A  livraria iniciada na casa onde Ivana cresceu, ela conta, era a alternativa encontrada pelo pai para sustentar a leva de filhos pequenos e parecia uma opção natural, já que o pai lia muito e tinha contato com as principais editoras do país. Ainda na década de 1960, ele participou, com o advogado Carlos Sampaio, da criação de uma editora chamada Boitempo. O empreendimento teve vida curta, pois os livros publicados eram apreendidos pelos militares logo depois de serem lançados. Mas, muitos anos mais tarde, no início da década de 1990, já vivendo em São Paulo, Ivana decidiu abrir sua própria casa editorial, resgatando o nome inspirado no poema de Carlos Drummond de Andrade. Foi, fiz ela, uma forma de homenagear o pai, que morreu no mesmo ano de fundação da editora.
 
"O cenário, naquele momento, já não era dos mais otimistas para uma editora independente. O mercado editorial já estava, embora não tanto quanto agora, dominado pelos grandes grupos", ela conta. Para uma editora que foi criada com dinheiro do FGTS e ajuda da família, a primeira empreitada foi publicar um texto inédito de Stendhal sobre Napoleão, que revela o lado “historiador político” do escritor. Assim, aos poucos, a Boitempo foi se firmando como editora de livros de ciências humanas, com um pé na sociologia, na história, na filosofia, na economia, na política e na cultura, sempre privilegiando o pensamento crítico.
 
“A editora apostou na formação de um ‘catálogo de fundo’ consistente, um movimento contrário da maioria das editoras, que, por estarem sempre na busca de um novo best-seller, acabam relegando seu próprio catálogo ao esquecimento”, lamenta a diretora.
 
Nesses vinte anos de existência, a Boitempo publicou mais de 400 livros, sem abrir mão da independência e do apuro editorial. Conseguiu conquistar solidez ao dominar as publicações do que se convencionou chamar de “pensamento crítico”. Tornou-se respeitada no mundo editorial – no Brasil e no exterior –, na academia e entre o público leitor.
 
Com uma equipe de 20 pessoas, ela publica em média 30 novos títulos por ano. “Fazemos um ‘barulho’ considerável no mundo dos livros”, orgulha-se Ivana, explicando que, com suas publicações, a Boitempo consegue manter um público bastante fiel nas universidades e nos meios mais “intelectualizados” da esquerda.
 
 
INVESTIMENTO NO LEITOR
 
Desde o início, a principal marca da Boitempo foi fazer livros de qualidade. Isso se deve não só a uma curadoria de conteúdo, mas também a um grande zelo, que se reflete em edições esteticamente bem cuidadas, com rara qualidade gráfica, enriquecidas com notas explicativas e textos complementares.
 
"Havia antes uma cultura de que os livros de esquerda deveriam ser publicados sem muito esmero e a Boitempo imprimiu uma face nova às suas edições. Ao mesmo tempo, lutamos para que a qualidade não eleve demais os preços dos nossos títulos, pois queremos que sejam mais e mais lidos. Isso a despeito da enorme concentração num mercado em que as editoras estrangeiras e os grandes grupos vêm engolindo os editores independentes", destaca Ivana.
 
Outra questão que norteia as editoras independentes como a Boitempo é "como ganhar espaço em um cenário onde o que cresce é a literatura infantojuvenil e a venda de livros de autoajuda e de colorir?". A solução, afirma Ivana, foi a verdadeira "criação de um público leitor" preparado para ler alguns dos mais importantes pensadores e escritores contemporâneos brasileiros e estrangeiros. "Muitos deles (autores), publicados por outras editoras, inclusive as grandes, com relativo fracasso de vendas, passaram a ter relevância no Brasil após serem publicados pela Boitempo", diz a editora.
 
Foram os casos do britânico David Harvey, do cubano Leonardo Padura, do esloveno Slavoj Zizek, do húngaro István Mészáros e dos brasileiros Chico de Oliveira, Maria Rita Kehl e Ricardo Antunes. Autores de renome, como Mészáros, Padura e Harvey, em reconhecimento ao trabalho da editora, fazem questão de ser publicados exclusivamente por ela no Brasil.
 
"Hoje em dia eles reúnem milhares de pessoas em eventos (via de regra gratuitos!) e é aqui que encontram audiência quantitativamente incomparável à que têm em qualquer outro lugar do mundo", orgulha-se a paraense, que também tem ajudado a trazer ao encontro do público com frequência autores como Domenico Losurdo, Perry Anderson, entre outros.
 
"Nós percebemos que a comunicação com o público é essencial no processo de formação do leitor e investimentos em eventos, imprensa, redes sociais", ensina Ivana. 
 
A Boitempo é a editora brasileira com o maior número de inscritos em canal próprio de vídeos no YouTube. "Isso tudo nos 'blinda', de certa forma, e acabamos passando ilesos aos modismos e livros de ocasião", completa.
 
Para Ivana, o Brasil avançou, sim, na formação de leitores. "De nosso lado, buscamos formas de tornar os livros mais acessíveis ao leitor, sem prejuízo da qualidade editorial". Um exemplo é a tradução e edição de textos que são depois disponibilizados gratuitamente no blog da Boitempo.
 
 
CUIDADO COM O AUTOR
 
O conterrâneo Edyr Augusto é um dos principais autores da Boitempo, de quem a editora acaba de publicar Pssica. É o sexto livro dele pela editora, depois de Os Éguas, Moscow, Casa de Caba, Selva Concreta e Um Sol Para Cada Um. "Eu não o conhecia pessoalmente e ele me mandou Os Éguas quando eu publicava muito raramente ficção. Amei o livro, publiquei aquele e os demais que ele mandou. Mas no mercado brasileiro foi muito difícil fazê-lo decolar. A literatura contemporânea se fecha em grupos, a imprensa costuma divulgar o que já está estabelecido", reclama. 
 
Ela conta que a Boitempo investiu tudo o que foi possível de modo a construir a imagem pública de um autor que, embora talentosíssimo, era totalmente desconhecido dos leitores.
 
"Ele tem presença agora em vários festivais, no Brasil e no exterior. Mas foi mesmo o sucesso de Edyr na França que fez com que a imprensa local desse a ele, agora, a atenção devida. As grandes editoras deveriam cumprir o dever público e moral de lançar estreantes, apostar em novos talentos, pois são elas que têm poder de fogo para tanto. Não é o que vem ocorrendo, infelizmente, com grande frequência no mercado editorial", lamenta Ivana. 
 
 
LEI DO LIVRO É SOMENTE UM PASSO
 
Ivana também dá sua opinião quanto a criação da "Lei do Livro", que pretende regular os preços de livros no Brasil, a exemplo do que já acontecia em países como a França, e que foi resultado de um projeto de lei da senadora Fátima Bezerra (PT-RN) que institui a Política Nacional do Livro.
 
A principal ideia é fomentar a produção intelectual nacional e facilitar o acesso à cultura impressa impondo regras para aplicação de descontos de preços, e com isso protegendo de alguma forma pequenas livrarias, editoras independentes e, de certa forma, a diversidade cultural.
 
"Acho que ajuda sim, mas precisamos de muito mais. Os poderes públicos precisam propor políticas exclusivas para  o livro e a leitura, que promovam a 'bibliodiversidade', ampliando e melhorando o acesso, a produção, a mediação, equipamentos e a formação de leitores", defende Ivana Jinkings.
 
Sobre a distribuição do livro, um destes entraves, ela é direta: "A distribuição é smepre um problema, especialmente num mercado fortemente concentrado, como o editorial". Uma das armas usadas pela Boitempo contra este problema permanente é a divulgação de seus títulos, que faz com que leitores do país inteiro os procurem nas livrarias, forçando redes locais a terem os livros expostos.
 
Outra alternativa é apostar no formato digital. "A Boitempo reduziu sua margem sobre o exemplar digital e se dispôs a praticar preços tão acessíveis quanto os do mercado internacional. Com essa nova política de preços de ebooks, nossos títulos digitais passaram a custar até 65% mais barato do que a versão impressa, uma redução acima da média brasileira em termos relativos e absolutos".