Filme 'Que horas ela volta?' motiva reflexão sobre como o cinema atual retrata a busca por cidadania

30.08.2015

O Globo
Ronaldo Pelli
Longa estrelado por Regina Casé mostra relação de patrões com domésticas no país
 
Em determinado momento do filme “Que horas ela volta?”, Jéssica (interpretada por Camila Márdila) diz que quer muito ler um determinado livro. A obra, que aparece de relance, é “Viva o povo brasileiro”, clássico de João Ubaldo Ribeiro que tenta recontar a História brasileira pelo ponto de vista dos excluídos — pobres, negros, índios, mulheres. Em cartaz desde quinta, 27, o longa de Anna Muylaert, que já levou prêmios nos festivais de Berlim (melhor filme da mostra Panorama) e Sundance (melhor atriz da seção World Cinema, dividido entre Camila e a protagonista Regina Casé), segue o mesmo caminho proposto pela obra de Ubaldo ao retratar de forma sutil, e ao mesmo tempo incisiva, o apartheid social no país.
 
O longa traz para o centro da discussão a trajetória da empregada doméstica Val, numa atuação muito elogiada de Regina, potencial candidata do Oscar na categoria, segundo revistas especializadas internacionais. A personagem é uma pernambucana que deixa a filha em sua cidade natal para trabalhar em São Paulo na casa de uma família de classe média alta. Lá, obedece a uma lógica passiva que só é abalada quando Jéssica chega para fazer vestibular.
 
— O filme é a tentativa de mostrar o poder dessas figuras invisíveis — diz Anna Muylaert, acrescentando que esse projeto está sendo maturado há 20 anos, tempo em que ela ficou à espera do tom exato para contar a história dessa personagem, a trabalhadora doméstica, que muitas vezes foi retratada na cinematografia brasileira de maneira superficial. — O filme só poderia existir agora. Há 30 anos, ele seria uma comédia rasgada, em que as pessoas não seriam tocadas.
 
“Temas prosaicos e densidade reflexiva”
 
Após os conceitos de “estética da fome”, ligado ao Cinema Novo, e o “cosmética da fome”, referência às produções que foram criticadas por mostrar a favela e a violência como um fetiche, uma nova onda em voga, uma espécie de “estética da pós-fome”, mostraria um país que não é mais miserável, mas que ainda tem dívidas históricas profundas a pagar, como o racismo. Para o psicanalista e professor da USP Christian Dunker, que lançou recentemente “Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros” (Boitempo), livro que cita diversos filmes para falar da privatização do espaço público, “Que horas ela volta?” é um exemplo poderoso da tal onda. Ele acredita que a ruptura se deu com “O som ao redor” (2013), de Kleber Mendonça Filho.
 
— Atingindo ricos e novos ricos, antigas e novas classes médias, a disputa cultural acirrou-se como nunca. É comum um processo de afirmação exagerada das origens: a música da laje, o rock da periferia, o funk. O “novo cinema novo” parece ter percebido isso e age misturando temas prosaicos com alta densidade reflexiva, alcançando os dois públicos — reflete Dunker, citando algumas particularidades desta tendência: o aumento do número de produções com perspectivas femininas, de orçamentos mais baixos, com influência dos vídeos da internet, e a retomada de um experimentalismo. — Em “Que horas ela volta?”, não se trata mais de ressentimento ou vingança como um sentimento difuso de mal-estar, mas do ódio em estado puro: do incômodo (de certos membros das classes mais altas) com o “direito do outro” de viajar, de expressar gostos e opiniões.
 
O antropólogo e professor da UFF Marcos Alvito, estudioso das manifestações culturais, esportivas e religiosas das camadas mais pobres, é mais duro. Diz que as classes ricas seguem ainda uma lógica que poderia ser descrita como a repetição de “Casa grande & senzala”, clássico de Gilberto Freyre da década de 1930 que tenta fazer uma interpretação totalizante do Brasil.
 
— No Rio, por exemplo, o “zonasulista” tem concepções limitadas. Não conhece a própria cidade — diz Alvito, fazendo questão de ressaltar que as favelas também não são exemplos de um paraíso idílico perdido, mas áreas tão complexas como qualquer outra. — A caracterização paternalista (nas artes) é também violenta.
 
Curador da Cinemateca do MAM, Hernani Heffner lembra de um exemplo que trata de assunto parecido, mas com uma virada quase oposta: “O céu de Suely”, longa de Karim Aïnouz de 2006. No filme, a personagem de Hermila Guedes, a nordestina Suely, também vai para São Paulo, mas não aceita ser doméstica.
 
— Se o Brasil entrou de fato no mundo capitalista, depois de tanta discussão nos anos 1960-70, Suely sabe qual é a regra do jogo. Hermila/ Suely é a consciência deste momento. Ela recusa o papel, e vai para outra dimensão — argumenta Heffner, reforçando o papel ativo da personagem, que depois opta por, inclusive, rifar o próprio corpo.
 
PRODUÇÃO DA PERIFERIA: RICA E AINDA À MARGEM
 
Se não é fácil determinar o marco inicial desse possível movimento novo, há até quem critique se essa temática poderia marcar uma ruptura. É o caso de Adriana Facina, professora de Antropologia da UFRJ. Para ela, o único movimento estético relevante nos momentos atuais seria o produzido nas próprias periferias, que tem circulação restrita e raramente chega a festivais e cinemas tradicionais. 
 
— Essa produção é incrivelmente inovadora e tem um circuito próprio. Os cineclubes e festivais se multiplicam nas favelas e periferias brasileiras — diz Adriana, citando “Branco sai, preto fica”, de Adirley Queirós, como um dos poucos filmes que ultrapassam essa barreira.
A cineasta Anna Muylaert resume uma mudança de ponto de vista. Se antes havia a expectativa de ascensão social, um crescimento que ela associa com a perspectiva masculina, agora há a busca pelo direito à cidadania.
 
— Aprendemos na escola que apenas os poderosos escrevem a História, e esse poderoso é sempre o homem, que valoriza determinados aspectos, como o poder. Quis fazer um filme mais feminino, mostrar o trabalho da mãe, que é o trabalho mais importante que há.
 
RELEMBRE DOMÉSTICAS NO CINEMA BRASILEIRO
 
Por Hernani Heffner, curador da Cinemateca do MAM:
 
*Chanchada - “A personagem está presente no cinema brasileiro desde os anos 1930. Na década de 1950, Zezé Macedo, por exemplo, a interpreta com frequência, jamais como protagonista.”
*Pornochanchada - “O trabalhador doméstico se torna um personagem símbolo do gênero, em filmes como ‘Como é boa nossa a empregada’ (com Jorge Dória e Aizita Nascimento).”
*Cinema marginal - “‘Cuidado, madame’, de Julio Bressane, explicita todo o viés de dominação social pervertida dessa função. Em ‘Copacabana, mon amour’, Rogério Sganzerla carrega nas tintas para mostrar os muitos resquícios da escravidão na profissão até hoje.”
*Retomada - “O mais famoso do período é o longa ‘Domésticas’, de Fernando Meirelles, mas o curta ‘Recife frio’, de Kleber Mendonça Filho, inverte a expectativa usando o quartinho de empregada como centro de disputa.” 
*Anos 2010 - “O documentário ‘Doméstica’, de Gabriel Mascaro, retrata um conjunto de personagens, sendo um masculino, fugindo dos estigmas da profissão.”