Como conviver com as cidades?

31.08.2015

Arq.Futuro
Christian Dunker
A mando de Napoleão, entre 1862 e 1875, Georges-Eugène Haussmann criou uma nova Paris. Baseado em uma estrela de 12 avenidas amplas em volta do Arco do Triunfo, grandes mansões foram erguidas sobre os escombros da antiga cidade. Surgiram avenidas largas e praças com uma nova estilística de ajardinamento, meticulosamente planejadas para propiciar o rito público do ver e ser visto. Mas o que o artista demolidor não contava é que as praças e avenidas ficariam vazias pela mutação que a cultura parisiense viveria em fins do século 19. Os longos passeios familiares foram gradualmente substituídos pelas passagens, pelos transportes velozes, pelos piqueniques nos subúrbios. As praças centrais ficaram vazias, uma vez habitadas por desconhecidos, imigrantes e boêmios sem origem definida.
 
Também quando surgiram os primeiros condomínios brasileiros, na década de 1970, uma nova forma de vida estava sendo meticulosamente planejada. Entradas de serviço independentes, chancelas e caminhos rigorosamente prescritos. Aqui também encontramos a experiência do esvaziamento. Segundo a antropóloga Teresa Caldeira, as únicas partes realmente utilizadas para a convivência pública foram os playgrounds onde babás e crianças, de classes sociais distintas, podiam coabitar uma experiência lúdica e de cuidado.   
 
Sobre as manifestações que tomaram o Brasil de 2012 para cá, duas coisas podem ser ditas. Primeiro, elas foram promovidas por novas gerações. Segundo, ligam-se tanto em sua forma quanto em seu conteúdo a temas urbanos como a mobilidade (Movimento do Passe Livre), a política de ocupação e permanência (movimento Occupy) e a circulação urbana (ciclovias). Não ousaria falar em planejamento, mas ao que parece há uma retomada do interesse na experiência pública. Estamos diante de uma nova percepção social, cuja máxima poderia ser: chega de condomínio! Chega de muros bloqueando o horizonte de nosso olhar e nos protegendo do "outro" perigoso. Chega de síndicos, operando regras cada vez mais impessoais em nossas trocas sociais cada vez mais rápidas, mais administradas, mais dependentes da gramática do consumo. Chega de regras poluentes, de prescrições de como devemos vestir, apresentar e administrar nossa própria corporeidade em público. Chega do sentimento depressivo de que os outros tão distantes e tão bidimensionais estão sempre mais felizes que nós, porque modelados no palco digital do Instagram. Chega do sentimento de ansiedade com o desconhecido. Chega de interiorização alcoólica, lisérgica ou calórica.
 
Sou de uma geração cujos pais viam no shopping center uma espécie de playground seguro para os filhos da classe média. Uma geração que aprendeu a temer as novas e grandes avenidas criadas pelos prefeitos Barões de Münchausen. Gerações que só podiam sonhar com segurança, embalados pelo dualismo entre prisões e condomínios. De repente descobrimos que o outro pode ser uma diferença muito mais interessante que nossas casamatas de igualdades feitas de plástico. Descobrimos que uma rua pode não ser apenas o menor caminho que liga dois pontos segundo o Waze. Uma rua não é só passagem, ainda que passagem seja o nome de nossa condição, não um meio e mero instrumento para outra coisa. 
 
O sistema de trânsito é uma grande metáfora. Nele vivem indivíduos e seus sistemas de interesses, atravessados por outros indivíduos. Nele há regras e infrações. Nele há indústrias de multas e de gentilezas. Vigora para nossa circulação no espaço público uma espécie de miniatura de nossos piores fantasmas. Os paranoicos que pensam que os outros estão sempre a passar na nossa frente. Os obsessivos que não suportam filas e os que as desobedecem. Histéricos invejando motoboys e ciclistas. Zumbis incapazes de olhar para o lado em seu sono esquizoide.  Fóbicos e seus iminentes desastres ou assaltos. Exibicionistas. Maníacos buzinadores compulsivos. Fetichistas por carros importados. Transtornados crônicos de explosividade intermitente. Disfóricas pré-menstruais que não dão passagem. Não há patologia que não se exprima em uma variante no modo de passar de um lugar a outro na cidade.
 
O tratamento passa pelas fórmulas conhecidas do transporte público e coletivo. Nisso os argumentos de arquitetos e urbanistas são irretorquíveis. Mas quero acrescentar um motivo de natureza psíquica. Tanto a vida no condomínio quanto seu corolário (que são as fantasias automobilísticas) dependem de um pequeno truque para que nossa fantasia possa entrar em campo livre, leve e solta. Ou seja, o outro tem que ficar suficientemente longe para que eu não o reconheça como alguém como eu e, ao mesmo tempo, suficientemente perto para que eu possa me iludir com a fantasia de que ele é meu velho e conhecido espezinhador.  O carro e o condomínio propiciam exatamente essa condição de anonimato do outro e de regurgitação contínua de nossos próprios preconceitos, de nosso narcisismo de pequenas diferenças.
 
Viver junto, ainda que uma vez por semana, num lugar onde andar não é apenas uma experiência determinada pelo chegar na hora, é um tratamento espontâneo e uma retomada de nossas formas de "convivialidade" com a diferença. E a diferença não é mera questão de tolerância, como se tudo fosse resolvido porque cada qual está em seu lugar - e nele permanece. O crucial no "outro" é que ele nos tira de nossos lugares, e é isso mesmo que torna nossa experiência mais interessante. Ao que parece é isso que queremos. 
 
* Christian Dunker é psicanalista, professor livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e autor de Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015).