Escuta da voz das ruas

24.08.2015

O povo | Páginas Azuis
Henrique Araújo

"Perde-se de vista o importante e passa a disputar diferenças com alguém que você presume que é igual a você"

1. Fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da Universidade de São Paulo (USP), Christian Ingo Lenz Dunker recupera a tradição do ensaio de grande abrangência para interpretar os impasses nacionais. Em Mal-estar, sofrimento e sintoma, o professor amplia ainda mais o foco da análise, abarcando a formação da coletividade no Brasil contemporâneo a partir de uma categoria (“condomínio”) e sua repercussão no desenho urbano, nas relações sociais e no Estado.

2. Segundo o professor, o “condomínio” é menos um espaço físico do que uma estrutura mental, ou mecanismo de reprodução, que se manifesta em diversas instâncias do País: dos governos, passando pela universidade, até os partidos e a igreja. Desse modo, é possível encontrar essa lógica, compartimentalizada e gerida por um síndico (um tecnoespecialista) esvaziado de poder – daí a crise de representação dos políticos, dos partidos e da política de modo geral – na origem dos protestos que vêm tomando as ruas do País desde 2013.

SERVIÇO

Mal-estar, sofrimento e sintoma (Boitempo)

Autor: Christian Dunker
Páginas: 416
Preço: R$ 66


Humberto Pinheiro é historiador da literatura

LEITOR - Hoje, o afeto predominante é o medo. No contexto político desses últimos meses, o outro, o adversário ou o inimigo político se transformou num doente, uma espécie de desvio da normalidade, um desqualificado.

Christian Dunker - Exatamente. A lógica do condomínio se apoia num discurso que gerou uma crença indiscutível de que o afeto político por excelência é o medo. Você cria medo pra vender proteção e segurança. Os problemas que merecem atenção e intervenção são derivados do medo, do risco, da violência, da intrusão de uma classe sobre a outra, da ameaça à propriedade. Tem todo um discurso que aponta para o medo. E o medo é um afeto que, em última medida, está ligado à propriedade. O medo de perder sua propriedade, seu corpo, seus bens. É uma lógica defensiva. Esse horizonte de afetos para essa política também se esgotou. A gente precisa de uma política diferente, que tenha outros afetos em curso. Ainda que a psicanálise diga que o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença, o ódio é muitas vezes uma reação para uma esperança não atendida. De onde vem essa política da esperança no sentido de promessa? Da promessa assistencial, do Estado do amparo, da ajuda, do Estado-pai? Vem do mesmo circuito, do circuito do medo, do ódio, desse mesmo conjunto que se exauriu. O nosso problema hoje é fazer um deslocamento dos afetos hegemônicos na política.

O Brasil merece mais que isso, o Brasil pode mais que isso.

Perfil

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), analista membro do Fórum Lacaniano, fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. É autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011), vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012. Desde 2008, coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa “Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise”. Lançou recentemente Mal-estar, sofrimento e sintoma (Boitempo).