Relatos de um país entre muros

24.08.2015

O povo | Páginas Azuis
Henrique Araújo

A partir do olhar psicanalítico, Christian Dunker passa em revista dores e sintomas de uma coletividade intramuros que sofre ao recalcar o outro

“Todo sofrimento é um desejo de que as coisas sejam diferentes.” À guisa de apresentação do novo trabalho do psicanalista Christian Dunker, Mal-estar, sofrimento e sintoma – uma psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo), a frase sumariza a “lógica de condomínio”. A expressão designa os modos de se relacionar que se instauram nesses enclaves de segurança, bem-estar e neurose.

Recalcado, o sofrimento amplifica as diferenças. Despolitizado, inviabiliza o entendimento entre as camadas sociais, resultando na recusa do outro como possibilidade de diálogo. Para superar esse estado de impasse que vive o Brasil, Dunker sugere o deslocamento do que chama de “afetos hegemônicos” e a reinvenção da política como um projeto que ultrapasse a ética de sobrevivência individualista. É urgente, afirma o psicanalista, reconciliar-se com o que está fora da zona de conforto.


O POVO - O País vive um momento em que, coletivamente, sofre. Em Mal-estar, sofrimento e sintoma (Boitempo), o senhor trata desse sentimento. Como psicanalista, como você o Brasil hoje?
Christian Dunker – Certamente é um momento de crise. Crise é aquele momento que a gente sempre teme um pouco, mas que também é prenúncio de uma modificação. É o fim de um projeto de Brasil, que incluiu FHC, Lula, Dilma 1 e Dilma 2. Fica claro que a lógica de governo baseada em “condomínios”, inclusive com sua função quase que esperada e necessária de corrupção e desvio, chegou a um esgotamento. Vejo que uma parte das revoltas populares é compreensível a partir disso. Quer dizer, cresce a intolerância quando você, de repente, se dá conta de que o outro não é apenas uma diferença com quem você tem que negociar, mas que você tem que abolir. Isso é novo na política do Brasil.


OP - Um discurso de ódio?
Christian Dunker - Esse discurso do ódio, esse discurso da desqualificação e da patologização do outro. Nunca se usou tanto a psicanálise e tanto a psiquiatrização na política como agora. Alguém tem ideias de esquerda, mas não é uma diferença razoável com quem você tem que negociar. Ele é alguém fora da razão. É um louco, um “esquerdopata”, que está comprometido em suas funções cognitivas. Acusa uma redução da sua capacidade de abrir-se para o outro. Você percebe como isso foi sendo acumulado por anos de fechamento. O próprio advento de um governo dito de esquerda foi interpretado pelas elites não como uma transformação da forma “poder”, principalmente a partir da maneira como a economia foi encaminhada, mas como uma forma de empréstimo, que cedo ou tarde voltaria pra gente. Porque, no fundo, a relação com o poder é uma relação de propriedade. Ele nos pertence. Como ele não voltou, você tem aí a emergência da intolerância.

OP - O que pode acontecer quando não se enxerga no outro a possibilidade de diálogo?
Christian Dunker - Não acredito que isso vá se estabelecer como uma forma de vida. Acho que é próprio de uma crise. A gente debate se é uma destruição dessa lógica que, durante muitos anos, recusou o reconhecimento. A política acontecia com zonas de invisibilidade. A gente vê o avanço da bancada cristã, da bancada da bala, mas isso tudo não formava um quadro articulado como uma reconfiguração completa da geografia política brasileira. Na hora em que isso se firma, você tem que negar outros atores, você tem que destituí-los do jogo. Tanto que tem esse discurso ridículo: você tem que ir pra Miami, você tem que mudar de país porque este não dá mais.

OP– O senhor articula psicanálise e política. É um momento para se interpretar a política a partir de outros campos?
Christian Dunker – Acho que sim por um motivo também consensual de que a gente chegou no esgotamento de nossa confiança na forma representativa de política, na forma partido, na forma instituição, na forma processo eleitoral tal e qual ele se dá. Há um desprezo por tudo isso. E o que acontece é que você começa a procurar em volta e se perguntar: que outras formas de política podem existir? Você vai encontrar tanto anarquistas, democracia direta quanto formas de pensar a política fora da política, como alguns movimentos sociais, que propositalmente querem distância da política instituída. A psicanálise faz parte dessa fronteira da política que, de alguma maneira, é afetada e pensa a política, mas ela não é identificada com a figura do político, com a figura cínica do síndico, do gestor.

OP - O que caracteriza a lógica do “condomínio”?
Christian Dunker – Há alguns elementos que se juntam segundo uma conexidade histórica. Em primeiro lugar, você tem um muro, que pode ser um muro de palavras, pode ser um muro de processos, pode ser um muro de ocupação no espaço público. Por exemplo, um shopping center. É um lugar aberto, qualquer pessoa pode ir. Só que tem pessoas que não vão. Tem uma espécie de muro que impede que algumas pessoas não se autorizem a frequentar. Em São Paulo, por exemplo, a gente teve uma experiência interessante. Ônibus gratuitos traziam as pessoas da periferia para assistir a eventos no teatro municipal, que é um lugar nobre. Você tinha um público que gostaria de ir ao teatro. Daí os ônibus foram e ficaram vazios. Por quê? Você tinha as condições objetivas, mas havia o muro mesmo assim. Consultando as pessoas, elas diziam: eu queria muito ir, mas eu não sei me vestir. Eu vou chegar e vou estar vestida de um jeito, que vão perceber que eu não sou de lá.

OP - Vão sentir vergonha.
Christian Dunker - Vergonha. Eu vou chegar e não vou saber quando bater palmas, vou estar no lugar dos ricos, lugar da alta cultura. Vou chegar lá e as pessoas vão me reconhecer como alguém que não pertence àquele lugar. Ou seja, você tem muros ali.

OP - Não propriamente uma barreira física.
Christian Dunker - A barreira física é uma espécie de concretização desses muros, o que torna, de fato, a segregação ainda muito pior. É muito pior um muro tipo Alphaville do que um espaço em que a fronteira está lá, mas é invisível, e, na prática, a pessoa pode ir lá e cruzar aquele ponto. Então o muro é uma figura estrutural da lógica de condomínio. Ele produz dois afetos fundamentais: quem está do lado de cá do muro tem medo. O muro se justifica porque do lado de lá é perigoso. E o segundo, que é mais recalcado e difícil de reconhecer, é que, uma vez criado esse espaço de exclusividade, você passa a compartilhar com os outros, que são iguais a você, a ideia de que quem está lá fora, está invejando. Estão invejando a gente aqui. Nessa combinação de inveja suposta dentro do condomínio e medo projetado para fora, o resultado é ódio e confronto. Na hora que esse encontro acontece, ele desencadeia facilmente relações de violência.

OP - O muro não eliminaria essa tensão?
Christian Dunker - O muro causa essa tensão. Ele estimula essa tensão. As trancas, os cadeados, você está o tempo todo se lembrando de que possui algo que é cobiçado pelo outro. Aí você tem o caldo de cultura para uma patologia própria. Mas esse é apenas um aspecto da lógica do condomínio. Outro aspecto é que todo condomínio presume um síndico, que é alguém que funciona como um representante de uma comunidade, que não é bem uma comunidade porque o acesso é pelo consumo e não por relações orgânicas. Funciona como um gerente e como um gestor dos problemas que vão surgir ali e vão atravessar as relações sociais. Essa posição do atravessador de interesses é uma figura proeminente no Brasil e na lógica de condomínio. No fundo, qual é a forma de autoridade que o síndico enuncia? Não é aquele velho coronel que diz: você não sabe com quem está falando. Ele não diz isso. O síndico diz: eu sou vazio, minha autoridade pessoal é zero, eu só cumpro o regulamento. Ele se destitui do poder pessoal, aquele velho opressivo e localizado, mas ele torna a opressão uma coisa sistêmica. Porque, a partir do momento que você tem uma quantidade vasta e incompreensível de regulamentos, muitos contraditórios entre si, o síndico adquire aquele poder de suspender a lei. Com isso, você tem um tipo de poder, um tipo de autoridade, que a gente chama de cínico, quer dizer, é uma autoridade que não ousa dizer o seu próprio nome. Uma autoridade sempre exercida em nome do outro. Porque, se der errado, quem paga a conta? Não é o síndico. Quem paga a conta são os condôminos, quem paga a conta é o Estado, quem paga a conta são os que estão do lado de lá do muro.

OP - E o outro elemento?
Christian Dunker – O outro, que liga os muros com o síndico, é a produção de uma anomia, de uma indeterminação, para vender mais segurança. São os aparatos técnicos, todos os controles, todos os tipos de administração paralela que vão se infiltrando dentro do espaço do condomínio. E aí o problema é essa transformação do espaço público, porque o condomínio tem casas, tem ruas, mas não é um espaço público. É um simulacro.

OP - Que tipo de relações se estabelece nesses espaços que simulam ambientes da cidade?
Christian Dunker – São parques temáticos, são cenários. Você está numa paisagem que é inautêntica. Ela é cenográfica. Isso produz um sentimento de óbvia falta de gosto, de cafonice. A pessoa não consegue entender que a experiência estética envolve uma certa totalidade. A sua casa é mais bonita ou mais feia no conjunto, no projeto estético. Essa desarmonia ou incivilidade presente na inautenticidade é um efeito da vida em forma de condomínio. Mas, respondendo objetivamente a sua pergunta: há uma patologia-mãe na lógica do condomínio que Freud chamou de narcisismo das pequenas diferenças. Quando você cria um ambiente artificial, regido por um chefe também artificial, entre muros, é como se você tivesse estabelecido, pela força da lei, que aqui estamos entre iguais. Quando você tem esse estado de igualdade virtual, mas não real, aquilo que seriam pequenas diferenças se tornam ampliadas. Isso gera uma rivalidade vazia. São os três sentimentos narcísicos: o vazio, a solidão e o sentimento de irrelevância, que é muito pouco tematizado mesmo na psicopatologia, mas é a fonte de um espectro imenso de comportamentos erráticos e de formas de consumo conspícua. Você perde de vista o que é importante na vida e passa a disputar pequenas diferenças com alguém que você presume que é igual a você. O resultado é que você vai se sentir, cedo ou tarde, irrelevante.

OP - A instituição do condomínio é uma tentativa de construir um espaço ideal, já que essa coletividade não tem conserto?
Christian Dunker – Essa é a fantasia que está no centro do condomínio. É a purificação. É possível salvar alguns. Não vamos salvar todo mundo, vamos salvar nós e nossos amigos. No final, você tem uma ética de sobrevivência individual.

OP - Por que esse modelo fracassa?
Christian Dunker – Fracassa porque acredita demasiadamente que a origem do sofrimento está baseada na introdução de um objeto. A vida estava harmônica, até que veio algo de fora que nos corrompeu... Meu filho era ótimo, até que ele começou a andar com... Ele é perfeito, mas, quando bebe... Não é ele, é a bebida... Tudo ia bem, até que o cara começou com drogas... O discurso de que o mal vem de fora. Isso vem desde as tragédias gregas. Vai dar errado quando a gente pega isso e força todos os sofrimentos a falar a mesma linguagem. Não pode dar certo porque a hipertrofia de uma única narrativa de sofrimento nos expõe e torna vulneráveis, não trata outras maneiras de sofrer que estão aí.

OP - O senhor elege esse conceito de “condomínio” para traduzir o país a partir dele. Que Brasil surge dessa análise?
Christian Dunker - Um país dividido. Na psicanálise, a gente usa o conceito de recalcado, que é aquilo que você nega, que não consegue admitir, e de retorno do recalcado, aquilo que você suprime de um jeito e volta de outro, volta deformado, volta de uma forma que você não consegue reconhecer. Essa irrupção de ódio é o retorno de anos de práticas combinadas de não tratamento da reforma política, distribuição de renda, reforma do judiciário, reforma tributária, reforma da polícia. Há um conjunto de coisas que qualquer brasileiro comum vai dizer que está errado e está errado há muito tempo. Como foi possível que a gente tenha deixado tanto tempo a coisa caminhar nessa direção sem que houvesse uma promessa de transformação possível? Eu atribuo essa inanidade, essa incapacidade de se implicar nos processos transformativos, a essa ideia de que, se você isola, aquilo que ficou negado, aquilo que ficou não reconhecido, ele vai desaparecer. Ele não desaparece. Ele volta na forma do ódio e ressentimento social. Eles se encontram nesse

momento.

OP - A gente vive a crise do “político-síndico”?
Christian Dunker – Isso, exatamente. A gente viu alguns personagens, como o Paulo Maluf, que se apresentavam nesta chave: eu não entendo nada de política, eu não sou político, eu sou um administrador. Eu sei fazer obras. Eu sou um técnico. É um primeiro momento da tentativa de se diferenciar do político profissional, só que, olhando agora, esse é que era o político profissional. Esse era o síndico, que estava em ascensão como função do homem público e que rapidamente se mostrou um cínico. Eu só faço obras, eu só estou interessado no progresso do país porque nas obras tem os 10%, tem a Lava Jato, é onde o dinheiro pode ser desviado. Nossa corrupção é diferente da corrupção africana, onde o chefe de estado angaria tantos fundos e começa a gastar em iates, mansões etc. Nossa corrupção é parte de um negócio chamado política, que precisa se renovar e ser continuamente reinventado.

OP – Como é que se pensa fora da lógica do “condomínio”?
Christian Dunker – Quando um sintoma fica muito evidente, de certa forma é porque aquele sintoma está envelhecendo. O bom sintoma se entranha de tal forma que você nem percebe. Ele se disfarça, ele não gera sofrimento muito fora do esperado, ele se infiltra na sua forma de desejar, de trabalhar e de usar a linguagem. E até se integra egoicamente. Quando a gente consegue ver um sintoma muito bem, é porque ele já não está funcionando como antes. Ele não está mais tão adaptado. Isso é o que estamos vivendo agora.

OP – As últimas manifestações, de 2013 e de 2015, são resultado desse sintoma que está mais evidente hoje do que antes?
Christian Dunker – Sim. Pergunta para alguém uma geração mais jovem que a nossa: o seu sonho de vida é acumular dinheiro e comprar um lote em Alphaville? Ele vai dizer que não. O condomínio envelheceu. Você tem uma geração que tem uma nova relação com o espaço público. São bicicletas, marchas, ocupações. Ninguém sabe exatamente aonde isso vai dar, mas, obviamente, você tem uma geração que quer ocupar de maneira diferente, quer alargar a experiência pública e que repudia o condomínio como uma vida menor. Não é o sonho dos meus alunos, por exemplo, crescer e morar no condomínio. Não é mais o sonho dessa classe média. Apesar de se sentir numa sociedade violenta, perigosa, mas não é esse mais o sonho.

OP - Há um esgotamento desse horizonte de vida?
Christian Dunker - Há um esgotamento. Claro que você vai ter ainda muita gente pegando esse projeto de vida como o seu grande horizonte. Mas as vanguardas, em termos de formas de vida, já estão procurando outras coisas. Vidas mais comunitárias, vidas que não se realizam na posse de um pedaço de terra.

OP – O som ao redor, filme do Kleber Mendonça Filho, se detém nesse universo da classe média enclausurada, tateando pontos de fuga para seus problemas. Como o senhor vê o diagnóstico que o filme apresenta sobre a crise atual?
Christian Dunker – Tem uma parte do meu livro em que eu falo do cinema da retomada. Vários leitores escreveram dizendo: você não falou de O som ao redor, é uma lacuna, uma coisa óbvia que você não incorporou. Mas ali tem uma outra coisa. Não é bem a lógica do condomínio, mas é quase que uma alegoria do pré-condomínio. O cara (um dos personagens do longa-metragem) era um senhor de engenho, o dono de uma rua. O filme é mais genial ainda. Ele passa pela coisa da segurança, dos guardas. É bem pior que a lógica de condomínio. Você ainda tem no Brasil estruturas anteriores.

OP – O Brasil resolve mal os seus impasses históricos e sociais?
Christian Dunker – Sim, sim. A gente tem esse provincianismo de achar que é pior em tudo, mas eu estive na África do Sul, Chile, Argentina, Uruguai e outros países que passaram por momentos de ajustes de contas. O Brasil é primitivo desse ponto de vista, da capacidade da gente de lidar com erros, lidar com os desacertos históricos. Nossa Comissão da Verdade terminou ano passado. Isso é ridículo. Para o tamanho, o comparativo, os números de aprisionados, torturados etc. Para os nossos recursos, inclusive em termos de resiliência cultural, acho que nós pensamos muito pouco o Brasil e temos uma indiferença com o que eu vou chamar de valor terapêutico da cultura. Quer dizer, como é que se resolvem tensões? Não é com o Concílio Vaticano II. É na música, é no cinema, é nas artes. É como você dá expressão e permite que as contrações sejam postas. Não se fala em reconciliação social. O Brasil é um país dividido, com pobreza, racialidade, cheio de conflitos, mas ninguém fala em reconciliação. Pode ser que não dê certo, que seja pouco para o tamanho da encrenca. Mas falta esse discurso. Esse discurso estava lá na esquerda católica, mas acabou. Estava um pouco no terceiro setor, mas depois o terceiro setor se industrializou, virou uma máquina. A universidade virou esse condomínio de produção de “papers”. Caramba. Os jornais (rindo) são a nossa última esperança. Mas tem que democratizar a mídia.