Parar o trem ou passar sobre o corpo? O que o caso da SuperVia revela sobre nossas decisões morais

08.08.2015

Zero Hora | Caderno PrOA
Letícia Duarte
Parar o trem ou passar sobre o corpo? O que o caso da SuperVia revela sobre nossas decisões morais
 
"Se isso tivesse acontecido com a Angélica ou com o Luciano Huck, alguém teria deixado passar por cima?", questiona filósofo ao analisar episódio que dividiu a população entre manifestações de revolta e apoio
 
 
 
Um dilema moral clássico na filosofia começa com a hipotética história do maquinista de um bonde desgovernado que precisa decidir se segue seu curso sobre os trilhos, o que mataria cinco trabalhadores, ou se faz um desvio para a direita, matando um. Tirar a vida de um seria uma escolha legítima para poupar a vida de cinco?
 
Na semana passada, um outro dilema improvável se atravessou diante dos brasileiros, a partir de uma violação deliberada na estação Madureira, no Rio de Janeiro: ao ver um ambulante atropelado sobre os trilhos, a concessionária SuperVia autorizou seu maquinista a passar com um segundo trem por cima do corpo, para não provocar atrasos no horário de pico. Ignorar uma morte seria justificável para evitar o atraso de 6 mil passageiros que lotavam três trens na linha? 
 
A SuperVia concluiu que sim, e a decisão provocou fortes reações, sendo classificada como "atrocidade aos direitos humanos" pelo procurador da Justiça Márcio Mothé, coordenador de Direitos Humanos do Ministério Público do Rio, que determinou investigação. Mas também ganhou um apoio surpreendente: enquete feita pelo jornal O Dia constatou que 60% dos 14.942 participantes concordavam com a medida, pois a interrupção "atrapalharia a circulação". Ainda que a empresa tenha afirmado que só tomou a medida porque o veículo tinha altura suficiente para não atingir o corpo do vendedor de balas Adílio Cabral dos Santos, 33 anos, nenhum médico o tinha examinado para confirmar se ele estava realmente morto — o corpo só foi retirado do local mais de duas horas depois. E, ainda que tivesse sido atestado, o óbito não seria suficiente para parar o trem?
 
— Se isso tivesse acontecido com a Angélica e com o Luciano Huck, alguém teria deixado passar por cima? — questiona o filósofo Marco Casanova, presidente da Sociedade Brasileira de Fenomenologia e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), autor do livro Eternidade Frágil.
 
Mais do que um ato isolado, Casanova considera a decisão reveladora de modos de agir e pensar no Brasil, sedimentados historicamente. Por isso, o fato de o protagonista ignorado ser um ambulante e ex-presidiário não tem nada de aleatório nesta história. Diante de uma "estratificação social absurda", que se preocupa com quem está acima, quem está abaixo vira um "joão-ninguém". E quem se importa com ninguém? Mais um anônimo que morreu na contramão atrapalhando o tráfego, como canta Chico Buarque em Construção. Para o filósofo, o episódio seria mais um sintoma de "tolerância com o intolerável", que agora atravessa a última fronteira, a morte. Casanova lembra que, mesmo nas culturas mais primitivas, o respeito ao morto historicamente sempre foi tradição. Tanto que, na mitologia grega, os deuses condenam Aquiles por vilipendiar o corpo do inimigo Heitor, ao arrastá-lo pelo campo de batalha por nove dias.
 
— O Brasil é um país doente. A gente se acostumou a achar compreensíveis uma série de coisas incríveis. E quando a gente escuta algo assim isso não gera uma reflexão mais ampla. O que precisa ocorrer realmente para que a gente pare? Isso tudo é de uma violência simbólica enorme — ressalta Casanova.
 
Para o psicanalista Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da USP e autor do livro Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma (Boitempo, 2015), o Brasil vive uma "guerra civil local", travada especialmente em bolsões de miséria.
 
A pergunta que ele se faz é: por que esse caso despertou a ideia de que um limite foi ultrapassado, já que, como atestam o pouco espanto que causam chacinas e linchamentos cotidianos — o desrespeito à morte é sistemático no Brasil? Sua hipótese é que o episódio encarna a tensão crescente em torno da circulação nas grandes metrópoles. Não seria por acaso que as grandes manifestações de 2013 tiveram como mote inicial a reivindicação pelo passe livre, ou que as disputas de carro contra a moto ou contra a bicicleta tenham virado motor dos conflitos urbanos. O episódio do trem seria, assim, a materialização daquela velha frase: "Tá com pressa? Passa por cima".
 
— Uma situação que a gente vive psiquicamente no trânsito é a sensação de atraso coletivo, de que está todo mundo devendo. Todo mundo está um pouquinho atrás da hora que deveria estar e, portanto, buzinando sobre o da frente, transportando essa dívida para o seguinte, como que dizendo: "Não sou que eu estou atrasado, é que ele está me impedindo de passar". Em tudo isso tem uma mensagem sendo passada — analisa Dunker.
 
No caso específico do trem, o psicanalista enxerga ainda um outro agravante: a decisão de passar o trem por cima do corpo não foi tomada por alguém que não sabia o que fazer: foi uma deliberação institucional.
 
— Isso agrava a coisa, porque não é só a violência errática, anômica, fruto da desordem. É uma violência em nome da ordem, uma violência que passou pelo sistema, da gestão de tráfego de trem — salienta.
 
Gravadas por passageiros, as imagens do maquinista avançando sobre o corpo ganharam os noticiários. A mãe da vítima viu tudo pela TV e só depois soube que aquele borrão na tela era o seu filho. A violação repetida provocou indignação tardia, mas, se os sentimentos fossem retirados da discussão, restaria alguma racionalidade na decisão? A questão é um dos embates da filosofia moral. De acordo com o médico e filósofo Marco Antonio Azevedo, professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos, existem duas formas de decidir diante de dilemas morais: o viés consequencialista, que mede apenas as consequências da decisão, e a visão deontológica, que analisa os princípios, independentemente das consequências.
 
— A minha intuição é de que existem valores categóricos e que não se pode desrespeitar alguém, mas um consequencialista poderia dizer que só os vivos merecem respeito, ou que pensando no interesse da multidão se admitiria passar por cima para preservar o interesse da maioria em chegar no horário — raciocina.
 
O embate alimenta diferentes interpretações, estando longe de consenso. Para Cinara Nahra, professora de Ética do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), nem mesmo pela ótica consequencialista o desrespeito diante da morte seria justificável para cumprir a escala de horários.
 
— O utilitarismo sustenta que devemos promover a maior felicidade do maior número de pessoas e tentar diminuir ao máximo o sofrimento humano. Ainda que houvesse atrasos no fluxo normal de trens em função da morte acontecida nos trilhos, os transtornos causados por este atraso, mesmo que sejam transtornos para várias pessoas, causam um sofrimento mínimo para cada uma delas, de modo que, mesmo que seja somado o inconveniente causado a todos pelo atraso, ele não pode ser comparado à dor imensa dos familiares da vítima, que além de já sofrer a dor da perda de um ente querido, viram esta dor se multiplicar, pelo desrespeito desumano — argumenta.
 
E pensar que tudo isso poderia ter sido evitado se o corpo tivesse sido retirado previamente dos trilhos — ou, quem sabe até, se a vítima pudesse ter sido socorrida rapidamente. Como a lei brasileira não permite que se mexa no cenário da morte antes da realização da perícia e tradicionalmente atendimentos demoram, o impensável virou jeitinho.
 
— O crime maior é o poder público não prestar um atendimento rápido e permitir expor um cadáver horas a fio. Esse é o maior desrespeito, e é um fato crônico. Não gostaria de estar na pele dos operadores de transporte — diz o engenheiro e mestre em transportes pela Escola Politécnica da USP Sergio Ejzenberg, perito em acidentes.
 
A lentidão no atendimento a vítimas contrasta com a velocidade de uma sociedade refém de sua pressa. Os dilemas se sucedem sem que sejam resolvidos, as arbitrariedades se repetem antes que sejam julgadas, os atropelos já não param o trem. A vida segue sobre os trilhos e os passageiros chegam a seu destino, mas não impunemente.
 
— Para onde este trem supersônico que não tem tempo para parar mesmo diante do sofrimento mais derradeiro e definitivo nos leva? Quando deixamos de respeitar nossos mortos é porque já há muito tempo não mais respeitamos nossos vivos — alerta a filósofa Cinara Nahra.
 
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