O dia em que decidiram não se calar sobre violência policial

31.07.2015

Terra
Janaina Garcia

A jornalista paulistana Laura Capriglione, de 56 anos, não é exatamente uma “foca”, expressão do meio para designar quem está começando na profissão. Mesmo assim, alguns assuntos ainda parecem ser difíceis de lidar com naturalidade – como quando ela explica a relação entre repórter e mães das vítimas da violência policial na cidade de São Paulo. A voz embarga, o choro é contido, mas a aspereza das palavras deixa a plateia atônita e em silêncio.

“São sempre as mães as pessoas que sofrem essa violência. É uma das cenas mais terríveis com que a gente se defronta: a solidão da mãe – porque o filho dela acabou de ser assassinado, acusado de ser traficante ou de ter resistido à abordagem policial, ou então, vira assaltante”, comenta, sobre as versões oficiais a situações do tipo. “A solidão daquela mãe se manifesta de duas formas: é o desespero para mostrar que aquele menino era trabalhador, estudava, sustentava a casa, jogava futebol, ou, quantas e quantas vezes não me deparei com essa cena, a mãe segurando a carteira de trabalho do filho morto como última fímbria de dignidade que se deixou para esse menino”.

Laura integra hoje o coletivo "Jornalistas Livres" e foi uma das convidadas do ciclo de palestras sobre violência policial promovido nessa quarta-feira pela editora Boitempo no Sindicato dos Bancários, região central da capital paulista. Durante cerca de quatro horas, palestrantes de diferentes áreas da sociedade civil falaram sobre o tema como parte da estratégia de lançamento do livro “Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação”, coletânea de artigos deste ano sobre violência policial e segurança pública da qual vários deles eram também autores. Autor do prefácio do material, o secretário municipal de Direitos Humanos, o ex-senador Eduardo Suplicy, também esteve presente.

Distribuição da violência policial "não é democrática", diz socióloga

Para a socióloga Ariadne Natal, de 31 anos, doutoranda do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), a violência policial estudada no grupo, e discutida no evento e no livro – do qual, junto com Laura e outros debatedores da noite, ela também é autora –, não é exatamente “distribuída de maneira democrática” nas grandes cidades.

“A violência da polícia de fato se concentra em áreas periféricas, e predominantemente com jovens do sexo masculino e negros. É um foco bem definido e voltado a agentes com menos capital social para agir, com menos possibilidade de se defenderem e menos formadores de opinião – diferente, por exemplo, se ocorresse dentro de um campus como o da USP”, analisou. “Há uma pesquisa recente da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), sobre letalidade da polícia, e que aponta uma proporção de 60% de negros para 40% de brancos mortos pela polícia. E violência não é só morte, mas ações cotidianas como nas blitze com revistas, por exemplo”, afirmou a pesquisadora. “O tipo de violência mais monitorado são os assassinatos, mas a violência física, de abuso, é mais difícil de monitorar porque depende de uma denúncia, e as pessoas não se sentem confortáveis de denunciar um policial. Há, portanto, muita subnotificação, o que dificulta a gente ter uma dimensão real do problema”.

Para psicanalista, há "medo de denunciar"

Também autora da coletânea e palestrante no evento, a psicanalista Maria Rita Khel afirmou acreditar que a sociedade, em geral, tem consciência de que a polícia não deve agir de forma truculenta, “mas tem medo de denunciar” isso.

“Eu acho que a sociedade sabe disso, a não ser, talvez, os milionários que estão murados lá no Morumbi [bairro nobre na zona sul de SP]. O que falta é a gente saber que dispositivos criar para evitar essa violência, já que existe medo da polícia. A gente tem medo de uma passeata pedindo que a polícia pare de matar -- porque talvez alguns sejam identificados, fiquem marcados... Não falta consciência sobre o problema, mas esse medo gera um fatalismo que deprime as pessoas – não que isso não as incomode”, observou. “Tirando, é claro, essa minoria muito rica que sabe que nunca vai acontecer nada com eles, a menos que por completo descuido da polícia em matar o filho de uma pessoa dessas”, ressalvou.

Casas viraram "bunkers" contra a violência, avalia sociólogo

Para o sociólogo João Peschanski, da faculdade Cásper Líbero, discutir a violência policial traz à tona temas que parecem, em alguns momentos, “intocáveis”.

“A importância de uma discussão dessas é democrática. Muitas vezes perdemos a capacidade de opinar e de colocar nossas posições sobre aqueles assuntos que mais importam para a gente porque parecem simplesmente intocáveis”, comentou. “Porque as instituições punitivas parecem totalmente fora do controle civil. Isso nos deixa reféns de uma série de decisões que importam para as nossas vidas, e das quais não temos nenhuma voz – e é nesse ponto em que a violência policial importa: porque determina o modo como as pessoas vivem as suas vidas. Se você é pobre, negro e homem da periferia, hoje, a probabilidade de você ser vítima desse tipo de violência é simplesmente enorme e avassaladora”, destacou.

Indagado se o debate atual sobre redução da maioridade penal de 18 para 16 anos maquia ou adia o debate sobre a violência das polícias no Brasil, Peschanski atentou para o papel de veículos de comunicação à percepção desses temas.

“Estamos em um ponto dessa cultura da violência em que a pessoa é vítima dessa violência ou simplesmente excitado por ela – temos esses programas de televisão pelos quais o telespectador é submetido a situações de violência e pelos quais se gera o viés psicológico de que essas pessoas acham que realmente vivem assim”, ponderou. “Isso nos faz achar que qualquer outro tipo de sociabilidade é impossível: sempre estamos com medo de que vá acontecer alguma violência, e achamos que o único local protegido, e olhe lá, é dentro da nossa casa:  teremos nela um bunker de proteção, porque tudo o que vem da rua assusta. Mas a sociedade é muito mais interessante do que isso – o problema é que esse medo dá voto e faz com que outras situações abusivas sejam aceitas, e assim por diante”, completou o sociólogo.

Estatísticas da segurança não são completas, aponta advogado

Coordenador estadual do Movimento Nacional pelos Direitos Humanos e membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos, o advogado Ariel de Castro Alves assistiu da plateia aos debates e foi enfático: adolescentes negros e na periferia são, sim, os alvos mais comuns da violência institucional.

“Essa onda em torno da redução da maioridade pena também tem incitado a violência policial contra esses adolescentes. Além da violência que ocorre todos os dias, temos notado o aumento do assassinato nesse público – apesar de a Secretaria de Segurança Pública não divulgar esse recorte em suas estatísticas. Seria interessante que os próximos relatórios mensais, trimestrais e semestrais divulgassem também pessoas mortas por policiais, seja em serviço ou durante as folgas, bem como perfil por bairro e faixa etária das vítimas. Isso ajudaria que tivéssemos um diagnostico mais claro da violência policial”, apontou.

Redes sociais garantiram "novas narrativas", alerta jornalista

Para a jornalista Laura, a mídia também poderia ser instrumento de diagnóstico do problema. “Hoje em dia, cada vez menos os jornalistas vão para as periferias saber onde essas vítimas moram – isso gera um processo cada vez maior de desumanização completa dessas pessoas”, observou. “A imprensa transformou as vítimas em estatísticas. Isso desumaniza, tira a tristeza dessas situações todas”. Se há alguma saída para que esse quadro mude? A jornalista aposta na força das redes sociais.

“É por causa da imprensa independente que sabemos hoje o nome do [pedreiro] Amarildo – soubemos desse pelo pelo WhatsApp,  pois a comunidade dele começou a trocar mensagens e soubemos que ele é um pedreiro que sumiu. Por isso policiais foram julgados e por isso soubemos que os filhos e a mulher dele têm nome. Isso é a força da comunidade, dos amigos, das redes sociais – estamos nesse momento de extremo empoderamento nosso no qual, pelas redes, podemos nos informar e impor uma outra narrativa à imprensa tradicional; podemos contar a nossa história e fazer uma grande mobilização de defesa das comunidades mais pobres. Temos também um grande caminho de autodefesa e de luta, porque somos donos voz, da razão, e dessa nova narrativa”, concluiu.