Um mal-estar para chamar de seu

18.06.2015

Revista da Cultura
Junior Bellé

Um jovem anônimo olha as ruas de Porto Alegre do alto de sua janela. A megalópole engole seus habitantes, minúsculos vistos lá de cima. Ela os traga garganta abaixo em uma espiral caótica e acelerada, e incrivelmente toda aquela gente, em vez de fugir apressada, apressa-se em entrar em seu ritmo alucinado, em descer até o estômago e arder, em sentir-se parte, senão importante, ao menos integrante e normal dessa capitalista selva urbana. Para nosso jovem anônimo, entretanto, tanto faz como tanto fez. Ele não gosta muito de sair, mas, se gostasse, também não seria nada demais. Não dá bola para isso. Tampouco tem amigos, algo que parece irrelevante enquanto puder entocar-se em seu pequeno latifúndio nas alturas. Ele vive de esporádicos bicos de tradução e seguidos pedidos de ajuda financeira ao pai. Ainda assim, por ele, tudo bem. Gosta de coisas simples, como beber uma cerveja enquanto caminha sozinho pela vizinhança de desconhecidos. Mas nada de ir muito longe, passeios breves às vezes bastam. Durante uma dessas andanças, um vira-lata o seguiu pela rua e ele deixou que o cachorro entrasse no prédio, avançasse pela porta e se instalasse em sua sala. Para ele, é indiferente se o quatro patas vá ou fique, a porta permanecerá aberta e assim qualquer um pode se mandar quando bem entender. Somente a bela Marcela, com seu entusiasmo e empolgação, conseguiu de fato abalar sua impassividade, e, mesmo que levemente, arranhar sua lentidão perante a toada alucinada da existência.

Ele construiu ambas – impassividade e lentidão – com esmero suficiente para que fossem mais resistentes que um muro de aço, e mais altas que uma cordilheira nevada. Queria estar protegido do mundo, só então se sentiria finalmente livre para deprimir-se sem maiores constrangimentos sociais. Desde cedo, ele fez uma escolha difícil: de um lado, uma rotina socialmente ascética e, por isso, sem grandes riscos emocionais; de outro, as incríveis e perigosas possibilidades inerentes ao afeto, às paixões e à convivência com o Outro, esse monstro de mil faces que ora aparece travestido de amigo, ora de carrasco. Com algumas licenças poéticas e geográficas, esse jovem anônimo poderia muito bem ser seu amigo, primo, sua tia ou mesmo sua namorada. É assustadora a facilidade de encontrar um conhecido – ou mesmo alguém muito próximo, quiçá você mesmo – remoendo um azedo sentimento de mal-estar, que não raro flerta com a depressão e a ansiedade e costuma ser vomitado no mundo por meio do isolamento, do entristecimento crônico, das pastilhas, fumaças e tragos e nos casos mais graves, do suicídio.

Um bom conselho ao nosso jovem anônimo seria procurar o consultório do psicólogo e professor paulistano Christian Ingo Lenz Dunker. Ele se debruçou sobre a relação entre esse sentimento de mal-estar, que nos toma e nos solavanca para dentro de um fosso fundo, ou, em casos como de nosso jovem anônimo, nos pendura e nos trancafia no alto de apartamentos, como falcões em gaiolas de concreto armado. O resultado é o livro recém-publicado Mal-estar, sofrimento e sintoma. Tudo isso que nosso jovem anônimo sente seria culpa dessa insana sociedade pós-moderna, de uma brutal máquina de moer sonhos chamada capitalismo? “Quando a gente atribui a ansiedade à vida moderna; a aceleração e a impessoalidade à exigência de desempenho, isso é verdade, mas não toda a verdade”, explica. O excesso de preocupações, sublinha Dunker, estimula a criação de ansiedade, mas há uma terapia espontânea e muito, muito eficaz para regulá-la: “Nossas relações com outras pessoas. A vida moderna só gera ansiedades sem nome, sem origem e sem lugar quando nós mesmos estamos privados de ler nossa experiência de modo compartilhado, em contextos de perda de intimidade, de isolamento e de hiperindividualização”. Dunker alerta, no entanto, sobre a importância de jamais apartar o sofrimento individual das forças sociais que lhe deram origem.

Afinal, como ele mesmo disse, a voraz espiral do mundo não é inocente. “O sofrimento é o fator político do mal-estar”, enuncia. O psicólogo defende que a politização do sofrimento é imprescindível para que uma decisão importante não fique a cargo de tecnocratas ou gestores da saúde, sempre tão afáveis com o temperamental mercado: “A decisão de qual sofrimento deve ser tratado e qual deve ser ‘invisibilizado’. Politizar quer dizer que isso é um assunto que depende de como certos acontecimentos, histórias ou séries são reconhecidos. Isso não quer dizer partidarização, mas uma espécie de inclusão generalizada de todos nós nos problemas relativos ao sofrimento mental”.

GALERA DO CONDOMÍNIO

Voltemos ao nosso jovem anônimo. Ele poderia morar em qualquer lugar, mas mora em Porto Alegre, que, como metrópole brasileira, está sujeita a forças sociais, econômicas e políticas bastante específicas. “O interessante é que o capitalismo brasileiro é tardio e avançado ao mesmo tempo, uma espécie de túnel temporal pelo qual os antigos vícios, em termos de nosso liberalismo mal implantado, nossa produção de leis para usuários customizados, nossa corrupção ‘organizada’, nosso precariado, nossa produção calculada de anomia para criar novos ‘negócios’ de repente se tornaram um modelo de produção e consumo, que faz inveja à Indonésia e ao Chile, bem como a todos os outros países que estão na linha intermediária entre a implantação do neoliberalismo como política de Estado e a mera oferta de mão de obra e facilitação trabalhista para a produção deslocalizada. É uma espécie de ‘grande salto para trás’ que caiu bem na nossa casa, e que nos torna cada vez mais uma espécie de modelo avançado do pior.”

Para ajudar a entender como a tríade mal-estar, sofrimento e sintoma opera em nós, Dunker criou a metáfora do condomínio, ou, como a batizou, a Lógica do Condomínio, muito apropriada para nosso personagem anônimo. A partir da década de 1970, conta Dunker, acelera-se no Brasil a construção de grandiosos condomínios cercados por todos os lados e apartados do convívio com a sociedade ao redor. Com eles nasce um novo modo de vida semelhante ao mal-estar adequado a um capitalismo à brasileira. Significa dizer que problemas de saúde pública, mental e geral são transformados em meros problemas de gestão, responsabilidades do síndico, é claro. O tecnicismo sobe ao trono e se torna “tecnicinismo”. Mas essa vida condominial seria capaz de criar uma espécie de fantasia, que, como seus muros, nos apartam da realidade?

“É um pouco pior que isso”, corrige Dunker. “Não há posição no mundo e ponto de vista sobre a realidade que não esteja enquadrado por uma fantasia. Ocorre que o condomínio é uma fantasia encarnada, que começa pela passagem bruta do ideal ao real. Esta é a primeira e decisiva fase de incorporação da fantasia de condomínio, depois vêm os muros, que correspondem à produção de uma liberdade por exclusão, que volta na figura do ressentimento, da inveja e do ódio projetado nos que estão de fora. A terceira fase é a do síndico, que representa a reinstituição da lei, agora domesticada e para consumo próprio. A quarta fase é a da produção de sintomas: a separação público e privado esvazia o interesse na convivência, a vida entre iguais cria insuportáveis diferenças mínimas, as pequenas contingências originam uma hipertrofia dos regulamentos e, ao final, estamos em ansiedade, pânico, depressão e consumo, seja de drogas, seja de experiências.”

Nosso jovem anônimo distrai-se com suas cervejas e, até onde sabemos, elas não podem ser culpadas de nada além de umas tantas ressacas. Mas nem todos têm essa sorte. Na Lógica do Condomínio, o uso – e abuso – dos fármacos entra na ordem do dia e despenca das receitas médicas em embalagens milagrosas, cuja química e o marketing são frequentemente reformulados em nome do bom azeitamento tanto da máquina econômica como da máquina mental. Dentro dos muros do condomínio, ou entre as paredes do apartamento, há uma promessa de controle das sensações. É dessa forma que, batendo de porta em porta em cada casa ou apartamento do condomínio, vende-se a sensação de bem-estar. “Mas o contrário do mal-estar não é o bem-estar. Essa é só a promessa neoliberal. O contrário do mal-estar é a apenas estar. ‘Estar’ comporta variações e contingências que não queremos, daí que utilizemos filtros anestésicos ou estimulantes para o ‘bem-estar’. Por tabela, ganhamos este condomínio no qual todo sofrimento corresponde a um sintoma e todo sintoma é expressão de um mal-estar. Tudo tem que ser tratado, administrado, e aí temos este novo capital simbólico a explorar que é o sofrimento segmentado da vida das pessoas.”

LIVREMENTE INSPIRADO

Para deslindar os três fios da Lógica do Condomínio – mal-estar, sofrimento e sintoma –, e aproximá-la de nós, Dunker se vale da literatura, convidando à análise de grandes narrativas e personagens emblemáticos, como Simão Bacamarte, o alienista de Machado de Assis.

Emprestei o método neste artigo, ainda que à luz da literatura contemporânea, apresentando nesta reportagem a história de nosso jovem anônimo, aquele que poderia ser eu ou você, mas é, na verdade, o personagem principal do livro Até o dia em que o cão morreu, de Daniel Galera, que agora tem a oportunidade de apresentá-lo em suas próprias palavras: “O protagonista deste livro é um jovem adulto com educação superior, instruído e esclarecido, mas que se vê intimidado diante do excesso de escolhas e dos riscos dos envolvimentos afetivos. Ele, é claro, não vê dessa maneira. Pelo contrário, é apegado à própria apatia e acredita que há algo de puro e valioso em sua solidão e inatividade”. Galera delineou o personagem como uma versão problemática de alguns sinais e sintomas que detectava em si mesmo e em seus conhecidos, especialmente na época em que terminou a faculdade. “Não é, portanto, um personagem biográfico, mas pode ser visto como uma versão alternativa de mim mesmo, caso eu tivesse feito escolhas bem diferentes na vida e sucumbido à pressão de certas dúvidas e anseios.”

Para o escritor, o elemento mais importante é o apartamento elevado no centro histórico de Porto Alegre. Dali ele pode ver o horizonte: “Algo que lhe parece quase infinito, como o horizonte de escolhas que ele supostamente possui. Essa ideia de ver a cidade de cima é importante para a psicologia do personagem. É como ele se sente, vendo de longe uma trama complicada, vibrante, mas também intimidante, de possibilidades. Para conseguir um emprego, viver a vida com Marcela ou viajar com ela para o exterior, ele precisa descer do alto dessa torre, que é sustentada por seus pais, mas ele gosta da torre, se sente bem no apartamento. Esse bem-estar, essa convicção de ter alcançado o que queria, é a armadilha que prende o narrador, e que, ao contrário dele, o leitor enxerga claramente”.

Já que é possível fazer um paralelo, ainda que não direto, entre personagem e escritor, Galera afirma que não considera o jovem anônimo uma pessoa deprimida, assim como acha que nunca, realmente, se deprimiu. Claro que às vezes se vê desanimado e entristecido, o que pode durar algumas horas. Mas então o escritor deita em sua cama e pacientemente espera tudo aquilo passar. “Cidades grandes são o local do excesso, entre eles, o excesso de vida social. A vida social pode ajudar ou piorar um estado depressivo. O importante é, não interessa as circunstâncias, conseguir olhar de frente para a vida, sem idealismo nem niilismo.”