Militarização das polícias é um fenômeno mundial, diz pesquisador

06.06.2015

Cotidiano | Folha de S.Paulo
Eduardo Geraque

A morte do brasileiro Jean Charles de Menezes nas ruas de Londres em 2005. A ação policial nos protestos no Brasil antes da Copa do Mundo. Policiamento agressivo e militarizado contra manifestantes em cidades como Londres, Toronto, Paris e Nova York.

A tese defendida pelo britânico Stephen Graham, professor de Cidades e Sociedades na Escola de Arquitetura da Universidade de Newcastle, é que todos os eventos acima estão relacionados.

Segundo ele, a maior urbanização do mundo está gerando cidades mais desiguais e polícias militarizadas.

A morte do brasileiro Jean Charles, por exemplo, ocorreu, diz ele, por causa do uso da tecnologia "shoot to kill" (atirar para matar), desenvolvida para confrontar os riscos de homens-bomba em locais como Tel Aviv e Halifa.

O britânico é um dos convidados do seminário internacional Cidades Rebeldes, organizado pela Boitempo Editorial em parceria com Sesc.

Os debates estão com inscrições esgotadas. Serão discutidos problemas urbanos (como violência e moradia) entre os dias 9 e 12 de junho, no Sesc Pinheiros.

No evento serão lançadas seis obras sobre discussões urbanas. Entre elas, Bala perdida, de vários autores.

Leia a seguir trechos da entrevista concedida por Graham.

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Por que as polícias estão mais militarizadas?
O novo militarismo urbano está relacionado com a maior urbanização mundial. As forças de segurança estão mudando a forma como elas vêm os inimigos. A estratégia para trabalhar com movimentos sociais e políticos, que às vezes são radicais, está sendo repensada.

O desafio agora é ter uma estratégia para controlar as cidades. No início dos anos 2000, as forças de segurança, como as americanas e britânicas, atuaram muito contra vários grupos sociais em cidades como Cabul e Bagdá. Ao mesmo tempo, vimos uma incrível militarização em polícias das cidades de Londres e Nova York. Existe uma paramilitarização ao redor das grandes reuniões de líderes políticos [como as do G-8] e dos grandes eventos políticos, caso da Olimpíada.

A militarização é um fenômeno mundial?
No Brasil sei que isso é uma grande questão em debate neste momento, por causa da realização da Copa do Mundo [de 2014] e da Olimpíada [de 2016] e de eventos como a pacificação das favelas. Mas é um fenômeno global porque o mundo vem se urbanizando de forma muito rápida.

O desafio é dar segurança às elites face aos conflitos não contra outros países, mas contra grupos da sociedade local.

Na prática, qual é a saída para controlar esses conflitos?
Sou um grande crítico da militarização da polícia, mas entendo que há vários níveis de violência em toda a sociedade, relacionados com o funcionamento dos sistemas políticos e econômicos. No caso do Brasil e da América Latina, existe muita violência por parte do tráfico de drogas.

Não há uma solução simples para isso, mas o grande problema é quando essas ações começam a minar os princípios legítimos da democracia. É importante dizer que nos últimos 50 anos ocorreram mudanças positivas na América Latina.

Temos que aprender com isso. A melhor solução é a social e não a militar.

Pelo seu raciocínio, a saída passa por uma mudança cultural ligada à violência. Como fazer essa transição?
A questão é complexa, porque você precisa melhorar o bem-estar de todos, tornar as sociedades mais igualitárias. Processo que nem sempre é fácil porque as elites muitas vezes não querem as mudanças que precisam ser feitas pelo sistema político.