Leia o conto inédito "A História de Tadeu", de B. Kucinski

31.05.2015

Folha de S.Paulo
Bernardo Kucinski

O conto abaixo faz parte do livro Bala perdida: A violência policial no Brasil e os desafios para sua superação que será lançado pela editora Boitempo no seminário "Cidades Rebeldes", que acontece de 9 a 12 de junho, no Sesc Pinheiros, em São Paulo. A publicação traz textos de Tales Ab'Saber, Jean Wyllys, Maria Rita Kehl, Luiz Eduardo Soares, da organização Mães de Maio, da repórter da Folha, Fernanda Mena, Eduardo Suplicy, Marcelo Freixo, ilustrações de Rafael Campos Rocha e fotos de Luiz Baltar.

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Naquele dia, nem pão havia em casa, e ele foi à escola de estômago vazio. Assim desencadeou-se a série de incidentes que acabariam por levar o menino Tadeu à instituição e, de lá, a um final de vida prematuro e trágico.

O pai os abandonara antes de Tadeu completar dois anos e se casara com uma evangélica com quem logo fez dois filhos. Dava uma pensão miserável - duzentos reais por mês - porque a mãe de Tadeu demandara na justiça. Mesmo assim, passava meses sem pagar e não contribuía para os extras, como o conserto do tênis e o agasalho de inverno.

A mãe mudou para uma quitinete barata na baixada do Glicério. Quando o pai atrasava a pensão, ela batia no menino. Quanto maior o atraso, mais forte batia. Assim começou a história dos espancamentos de Tadeu. Ficou pior quando a mãe passou a trazer homens. Sem divisória entre quarto e sala, Tadeu via o que eles faziam e chorava. Tinha seis anos e meio e chorava. Nessas horas, queria o pai, mas o pai só o buscava raramente, quando dele precisava para tomar conta de seus meio-irmãos. Irritada pelos choros, a mãe o confinava num canto escuro da área de serviço. Tadeu sentia muito medo e chorava mais alto. Como silenciá-lo? A mãe aprendeu que dois tabefes reduziam o choro a um lamento discreto. Houve vezes em que só a ameaça bastou. Tadeu tinha pavor dos bofetões da mãe.

A comunicação entre mãe e filho foi se limitando à linguagem da violência. Tapinhas leves sinalizavam trégua; era quando a mãe deixava Tadeu desenhar, copiando das histórias em quadrinhos. Em outros momentos, eram surras; quadrinhos e lápis sumiam, ocultados no topo do armário pela mãe.

Com sete anos, Tadeu entrou no grupo escolar. Contudo, não aprendia o alfabeto nem os números. Chamada pela diretora, a mãe não compreendeu o que lhe foi dito e, ao regressar, esbofeteou Tadeu. Na segunda vez em que foi chamada, deduziu que Tadeu ia repetir de ano e o surrou de cinto. Detestava perder tempo de serviço com a escola do menino. A cada lambada, xingava: mal nascido, desgraçado, bolha, inútil, asno.

Tadeu tentou conter o choro, mas não conseguiu e sentiu-se humilhado. Foi quando começou a gaguejar. Se o chamavam na classe para falar em voz alta, gaguejava. Os garotos o marcaram para saco de pancada, pela gagueira e pelo físico esquálido. Tadeu tinha corpo mirrado e levava a cabeça raspada porque a mãe concluíra que assim não juntava piolho e gastava menos sabão. Sua tez, morena bem clara, pendia para o esverdeado.

Muitas vezes, Tadeu sentou-se no cimento do recreio ao sentir os joelhos fraquejarem em meio a uma corrida. Um dia, desmaiou na aula de ginástica. A diretora alertou por escrito que ele poderia estar anêmico e deveria ir ao médico. A mãe assustou-se; depois decidiu que era exagero, deve ter sido o sol, não precisava de médico coisa nenhuma.

No recreio, todos desembrulhavam algo para comer, menos Tadeu. Seu uniforme era puído, sua mochila, gasta, e seu tênis, roto. Nunca foi à escola com boné de Superman ou tênis de marca. Só em desenho Tadeu impunha-se sobre os outros. Quando podia, desenhava. Se não tinha bloco de rascunho, compunha figuras no caderno escolar, no verso de folhetos de propaganda, no que lhe caísse nas mãos. Desenhava principalmente heróis do Karatê Kid dos quadrinhos japoneses.

A mãe de Tadeu não cozinhava. Almoçava no emprego e à noite, ao sair da academia de ginástica, parava no bar do começo da rua para uma cerveja com as amigas e para mastigar uns amendoins. Isso lhe bastava. Fazia regime para se manter esbelta. Às vezes, nas noites em que não malhava na academia, fervia um macarrão instantâneo. Tadeu comia então uma rara refeição quente. De manhã, quando saía para o trabalho, a mãe lhe deixava biscoitos ou uma côdea de pão.

Naquele dia fatídico, em que nem pão havia em casa, Tadeu chegou à escola faminto de doer o estômago. No recreio, não tirava os olhos do lanche de Bruno, um gorducho. Bruno o afastou com um empurrão, e Tadeu revidou.Bruno caiu no piso de cimento e, ao ver sangue em seu cotovelo arranhado, berrou. Chamaram o inspetor, e Tadeu levou uma suspensão, dessa vez de três dias, acusado de provocar a briga.

À noite, a mãe soube da suspensão e surrou-o com a parte afivelada do cinto. Tadeu sangrou. Depois, espargiu sal para não arruinar. Naquela noite, embora nunca tivesse apanhado tão feio e nunca tivesse doído tanto, Tadeu conseguiu não chorar. Mordeu o lábio de baixo com os dentes de cima e não chorou. Tinha tomado uma decisão.

Depois que a mãe dormiu, enfiou na mochila suas poucas roupas, seus dois álbuns do Karatê Kid, o lápis e o caderno. Vestiu seu único agasalho e seu único boné, calçou seu par de tênis já gastos e abandonou em silêncio da quitinete. Não pegou o elevador, temendo ser visto por vizinhos; desceu pela escada, degrau a degrau, assegurando-se de não haver ninguém no caminho.

Na porta da rua, mentiu ao zelador que o pai o estava esperando, saiu, virou rápido para a direita e apressou o passo. As costas ardiam tanto que precisou levar a mochila com as mãos. Mas estava contente. Finalmente tomara coragem. Sentia-se um karatê kid em busca de aventura. Caminhava depressa, sem destino. Não tinha um plano. Queria apenas fugir. Ao perceber que tomara automaticamente a direção da escola, dobrou na primeira esquina. Também da escola fugia. Chega, acabou.

Caminhava havia meia hora quando foi interceptado pela patrulha da Polícia Militar. Eram três policiais, um deles, mulher. Estranharam o garoto só, tarde da noite. Tadeu não ia dizer nada a eles, isso que apanhou, que levou suspensão de três dias, já não era mais criança. Estavam numa porta de padaria. Frente a sua teimosia em não falar, a policial foi ao fundo da padaria e voltou com um pão doce coberto de creme e uma latinha de refrigerante. Em poucos segundos, Tadeu devorou o pão doce e esvaziou o refrigerante. Aquilo já era uma mensagem. O garoto estava faminto. Com Tadeu apaziguado,
examinaram a mochila. Entre as folhas do caderno encontraram a carta da diretora da escola. Simples, fugiu de casa por causa da suspensão; era só levá-lo de volta.

Mas, quando falaram em mãe, Tadeu gritou um "NÃO!!" que eletrizou a padaria. E agarrou-se com todas as forças na base fixa de uma banqueta rente ao balcão. Dali ninguém iria tirá-lo. O grito atraiu mais pessoas. Formou-se uma pequena assembleia. Finalmente, os policiais decidiram levá-lo à delegacia da mulher, por sorte, ali perto, pois àquela hora o juizado de menores estava fechado. A delegada, familiarizada com violência doméstica, mandou Tadeu tirar a camisa. Como ela desconfiara, ali estavam as marcas do espancamento, profundas, avermelhadas, salpicadas de sangue.

Dois dias depois, no juizado de menores, para onde fora levado diretamente, sem ter regressado à casa, Tadeu foi informado de que não viveria mais com a mãe. O juiz cassara a tutela materna, fato raríssimo. Para a casa do pai não podia ir porque a madrasta se recusava a recebê-lo, e o pai chegara a insinuar que, depois de o garoto crescer, perdera a certeza de ele ser filho seu.

Tadeu foi internado na escola-orfanato para crianças abandonadas, no Pacaembu, onde já se abrigavam 320 meninos, a maioria mulatinhos e pretinhos. Funcionava quase como prisão. Dentro, circulavam livres, mas não podiam sair. Tadeu era o menos escuro. Logo que o viram, caíram em cima para pegar suas coisas. Embora menor que muitos deles, Tadeu resistiu bravamente, derrubou vários e de um tirou sangue. Conseguiram pegar um de seus álbuns do Karatê Kid, mas a valentia lhe garantiu a aceitação.

Naquela instituição de meninos abandonados era preciso ser esperto sempre. Mas a nivelação pelo abandono fez bem a Tadeu. E nunca mais lhe faltou o café da manhã. Era até mais bem tratado pelos serventes, que o viam como vítima de um infortúnio maior, como se para pretinhos e mulatinhos o abandono fosse natural e talvez merecido.

No primeiro exame médico diagnosticaram em Tadeu verminose e desnutrição protéico-calórica. Recebeu vermífugo, um mês de ração extra e suplemento de vitaminas durante um ano. No final desse ano Tadeu já parecia um menino normal. E parou de gaguejar. Contudo, sua compleição permaneceu franzina e com sequelas da desnutrição na ossatura dos ombros e dos joelhos.

De um professor encantado com seus desenhos, Tadeu recebeu um caderno com quarenta folhas de papel Canson. Pela primeira vez, sentiu o prazer de desenhar em papel de gramatura grossa. Também havia, na pequena biblioteca, livros ilustrados, os quais ele podia copiar. Poucos meninos eram visitados pelos pais, mas apareciam muitas avós, um ou outro irmão, ou alguma tia. Tadeu nunca recebeu visita da mãe nem do pai. Nesses momentos, sentia melancolia.

No segundo ano, já veterano, Tadeu ficou amigo de um garoto recém-chegado do juizado da Zona Norte, um pretinho de apelido Boquinha, e suas atribulações diminuíram, ajustou-se a um estado de violência de baixa intensidade, como modo de vida normal. No último ano do internato, Boquinha começou a fumar crack e insistiu para Tadeu acompanhá-lo. Tadeu disse "não". Pelas histórias em quadrinhos sabia que o crack era coisa ruim demais. Ele não era um merda, sabia desenhar, não precisava dessa porcaria de crack. Pediu pro Boquinha nunca mais falar de crack perto dele.

Saíram quase juntos do internato, e Tadeu, que tinha dificuldade de se relacionar com estranhos, ficou uns tempos na casa das tias do Boquinha, na Zona Norte. Entregava pizza, lavava prato, fazia bicos. O dono de um jornal da Zona Norte viu os desenhos dele na pizzaria e o chamou para trabalhar de aprendiz em sua gráfica. Tadeu criou coragem e alugou um quarto só para ele. Já estava com dezoito anos e meio.

Boquinha entrara numa gangue de desmanche de carros em sociedade com uns soldados da PM. Ele e Tadeu continuaram amigos e quase todo fim de semana se encontravam para uma cerveja e para paquerar as meninas do bairro. Boquinha saía da droga, entrava de novo, saía. Não demorou muito, uma noite a PM o pegou. Sua gangue invadira o território de outra turma da PM. Vieram em dois carros da Rota, de supetão, seis peemes. Agarram Boquinha quando tomava cerveja com Tadeu e o foram arrastando, já de revólveres nas mãos, para um matagal.

Tadeu gritou e tentou segurar Boquinha. Levaram ele junto. Enquanto dois peemes seguravam Tadeu, os outros quatro fuzilavam Boquinha. Foram oito tiros, cinco no peito e três na cabeça. Depois discutiram o que fazer com Tadeu. Deixar testemunha era ruim. Matar um branco bem-vestido também não era bom. Decidiram por uma advertência pesada, para ele nem pensar em abrir a boca. Levaram Tadeu mais para dentro do mato e o espancaram. Revezaram-se, esmurrando o peito franzino, socando a barriga na altura dos rins, batendo de cassetete nos ombros e nas canelas, dando pontapés na virilha. Só não batiam na cabeça para não matar. Mas mataram. Não sabiam das sequelas da desnutrição. Tadeu morreu do jeito que viveu a maior parte de sua vida, apanhando. Tinha dezoito anos e oito meses.