O sintoma atrás do muro

17.05.2015

Revista Mente & Cérebro
Daniele Sanches

No conto As ruínas circulares, de 1944, o escritor argentino Jorge Luis Borges narra a saga de um sonhador, “o forasteiro cinza”, que deixou sua pátria para se isolar dentro de uma antiga arena destruída pelo fogo. Os resquícios daqueles muros arredondados davam ao homem a quietude necessária para colocar em marcha sua missão: “Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade. Esse projeto mágico havia esgotado completamente o espaço de sua alma”. O problema nunca imaginado pelo taciturno forasteiro era a possibilidade de ser acometido pela intolerável lucidez da insônia.


Investigando arenas, o psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker mostra em seu recém-lançado Mal-estar, sofrimento e sintoma que o brasileiro também busca abrigar-se nos muros de um condomínio para lá adormecer e sonhar em paz. Além de fazer um diagnóstico social, o livro subverte o olhar comum ao demonstrar que o sistema de condomínio não é apenas um modelo fisicamente palpável pelas cancelas vigiadas das belas portarias. O projeto carrega em sua esteira uma narrativa oficial do bem-estar, cujo molde é aplicável a diferentes esferas. “Chamo de lógica do condomínio a transformação dos problemas relativos à saúde pública, mental e geral em meros problemas de gestão”, escreve.


A constatação de que o Brasil se tornou um dos maiores produtores de “comunidades muradas” do planeta não é, entretanto, mérito exclusivo de Dunker. Em reportagem do dia 19 de novembro de 2013, o jornal inglês The Guardian publicou uma lista com as maiores muralhas do universo. O muro do condomínio Alphaville (com 64 quilômetros de extensão, localizado na Grande São Paulo) ocupou o sexto lugar no ranking. O texto assinado pelo jornalista John Henley denuncia a frágil ilusão de segurança depositada na solidez dos tijolos, uma verdadeira miragem que almeja fortificar a identidade de uma comunidade. Com inquietude, o título pergunta: Why are we building new walls to divide us? (Por que estamos construindo novos muros para nos dividir?). A tese de Dunker lhe traz uma resposta: construímos novas paredes para acreditar que o mal-estar na civilização ficou do lado de fora. Pelas regras do condomínio, o caos sucumbe à inexistência e as diferenças desaparecem diante da padronização das linhas arquitetônicas, garantia do estilo uniforme das fachadas.


No texto O mal-estar na civilização, de 1930, Freud sugeriu que o desconforto humano perante o cobertor social que lhe dá abrigo é inexorável, donde seria preciso tratar continuamente o saldo de mal-estar. De modo análogo, Dunker também defende que o mal-estar na civilização urge ser reconhecido, mas identifica um problema novo: na atualidade, quando o mal-estar aparece é imediatamente convertido em doença e anestesiado com medicamentos. Com precisão milimétrica, o autor demonstra que essa conversão imediata é uma operação artificial, “que vai da propaganda, da divulgação e do consumo de experiências de bem-estar até aliança entre pesquisa universitária e laboratórios farmacêuticos. A crítica revela que, neste sistema, o principal elo da atividade diagnóstica fica perdido: o sofrimento.


Para a psicanálise, não há possibilidade de realizar um diagnóstico antes que a tríade mal-estar/sofrimento/ sintoma seja reconstruída – eis o argumento-chave de Dunker. A questão adicional, entretanto, é não deixar a própria psicanálise se esquecer disso. Para o psicanalista, a herança clínica deixada por Lacan é um potente instrumento de desalienação e crítica social. Entretanto, no Brasil, a lógica de condomínio parece ter se abatido também sobre as instituições lacanianas que, fechadas entre muros, padronizam o pensar de seus condôminos visando uniformidade de estilo no discurso de suas fachadas.


A ironia em questão nos obriga a lembrar que a ilusão de uma imagem totalizadora foi um dos temas mais teorizados da obra lacaniana. No texto A coisa freudiana, de 1955, Lacan sugere que o truque da paz obtida pela uniformidade é efetivado quando o sujeito consegue fundir-se à sua máscara, sob pena do apagamento da verdade. O antídoto trazido por Dunker é a sugestão de recuperar a verdade como categoria-chave da clínica psicanalítica. Se do mal-estar extrairmos o traço de verdade que contém, abrir-se-ão as vias de liberdade ao sujeito; mas, para que a verdade e a liberdade possam ser reintroduzidas como categorias fundamentais, se faz necessária uma releitura da diagnóstica lacaniana, advoga o autor.


O livro demonstra que, ao adotar a neurose como modelo subjetivo padrão, a psicanálise importou de modo embutido uma antropologia de base (a totêmica) e a elevou como fato universal. Nas sociedades totêmicas há ordenação pelo regime de filiação, pela noção de “pertença a” que orquestra subjetividades baseadas na construção de identidade.


Em oposição, Dunker nos introduz ao perspectivismo ameríndio, uma antropologia na qual a identidade não é perene; ao contrário, é variável e depende do encontro contingente na mata. O argumento é desdobrado em detalhes pelo autor, que, em síntese, parece ter descoberto uma forte base teórica para provar que nada há de natural, ou originário, no ímpeto de busca por um modo de vida que sustenta com barreiras de cimento sua identidade. Enfim, colocando o mal-estar em debate, o livro atrapalha o sonho do forasteiro cinza e mostra que a intolerável lucidez da insônia consegue driblar, sem dificuldades, as cancelas do condomínio.