O embate entre Sheherazade e o mundo real

17.04.2015

Blog do Matheus Pichonelli | Yahoo
Matheus Pichonelli

Quando começa a pipocar vídeo da Rachel Sheherazade na timeline, a primeira pergunta que me faço é se devo ou não clicar no link. A segunda é se devo ou não comentar.

Num caso como no outro, minha resistência é dobrada por um senso confesso de oportunidade. Vê-la falar é ter a chance de entender a lógica do brasileiro médio, aquele cidadão que, com base em pressupostos aparentemente corretos, esbarra em conclusões estapafúrdias. Chega a coçar de tanta vontade de responder.

A polêmica da vez foi um debate organizado pelo programa Pânico na Rádio, da Jovem Pan. Se você tem alguma restrição ao programa, pode deixa-la de lado: o vídeo mostra um embate interessante entre uma apresentadora que parece ter vivido de menos e outro que parece ter vivido demais. Sheherazade é a ingenuidade (proposital ou não) de quem vê o mundo a distância e acredita em fórmula mágica. A ponto de ver como bons olhos os trabalhos de um Congresso que quer extinguir direitos trabalhistas e encarcerar adolescentes pelo simples fato de ser “independente” do Executivo – no caso, de um governo petista. Dá para brincar de jogo de sete erros somente a partir dessa ideia de “independência”, mas esse não é o ponto mais grave.

Emilio Surita, o anfitrião, era a imagem do homem desolado, representante de uma parcela da população que, com sua razão, já não crê em selos nem em discursos nem em soluções populistas. A cada ideia estapafúrdia levantada pela convidada, citava um quadro desolador de uma realidade calejada para cercar, pelo óbvio, o encanto das fórmulas prontas – as fórmulas dos gurus que babam na gravata e se espalham pelo País feito praga.

Pois só quem anda de carro blindado do condomínio para o trabalho e do trabalho para o shopping e do shopping para o trabalho, como a apresentadora resume sua rotina, pode ousar pensar em dizer que um jovem pobre no Brasil tem as mesmas oportunidades de um jovem rico dos países nórdicos. Se um estuda em escola de ponta e outro é cooptado pelo tráfico, tudo se resume à vontade e à índole. Como se, na Noruega, jovens extremistas não invadissem o acampamento de jovens filiados a partidos políticos para promover carnificinas. Surita, ao saber da simetria entre os dois mundos, quase caiu da cadeira por nós. E citava o estado de abandono da quebrada brasileira, onde falta esgoto e sobra boteco, para dizer que de nórdica nossa realidade não tem nem o “N”.

Para Seherazade, pobreza não é condição sine qua non para a criminalidade. De fato. O problema é quando ela convida os presentes a conhecer a realidade do sertão nordestino - onde, segundo ela, as pessoas vivem numa passividade bovina em sua dieta à base de calango e água de mandacaru - e nem por isso roubam carro importado. Seria interessante mostrar de qual Nordeste falava, pois o que eu conheci recentemente, no interior de Alagoas e Pernambuco, estava longe dos desfiles de automóveis da avenida Cidade Jardim, mas contava com banda larga e pequeno comércio – até onde andei, ninguém saía no tapa por um calango.

Esse desencontro entre discurso e realidade, entre solução e populismo, é a visão de quem vê o mundo de cima para baixo. Para ela, o cidadão de bem está acuado pela impunidade e um garoto de 16 anos que vota pode muito bem responder ao Código Penal. Pode até ser. O tema é complexo e move paixões – tanto que cativa a grande maioria da população – mas se banaliza quando cria uma barreira higienista e nada aleatória: nós, os humanos direitos, temos direito de circular em segurança; eles, os que têm as mesmas condições de um jovem nórdico, mesmo comendo calango, não têm direito de nos apontar uma arma e levar o que temos. Ninguém discorda.

A coisa engrossa, no entanto, quando alguém tenta mostrar que a punição, em si, pode não resolver a questão: antes, é preciso destrincha-la a fundo e interpretá-la à luz de diferentes contextos históricos e culturais. A criminalidade não será debelada quando alimentamos preconceitos embaixo da cama com medo de fantasmas do lado de fora: o medo do bandido, esta figura que não precisamos sequer de uma foto ou descrição para visualizar sua cor e sua origem.

Para Sheherazade, hipocrisia é defender a dignidade de “bandidinhos” sem oferecer abrigo a eles em nossas casas. A certa altura do debate, ela desafiou os defensores de direitos humanos – aqueles radicais que ousam dizer que pobres e minorias deveriam, mas não têm, os MESMOS direitos de qualquer garoto nórdico – a oferecerem emprego aos culpados pelo nosso estado de insegurança. Em Paris, afinal, ela consegue andar às onze da noite em segurança. E aqui, não. Por quê? Porque, em sua cabeça, somos condizentes com o crime – seja lá onde esteja essa condescendência no terceiro país do mundo que mais encarcera sem dar chance de emprego a seus bandidos.

Sheherazade é a prova material de que quanto mais olhamos o mundo de cima para baixo, mais perdemos de vista a sabedoria contida na poeira dos sapatos. Essa poeira contaria que é possível circular em segurança nórdica ou parisiense a depender de onde se nasce e se morre no Brasil. E que o país recordista de homicídios e encarceramento mata e encarcera apenas quem mora a quilômetros de nossos bolsões de dignidade. (A exceção nos choca, mas não faz arranhão às estatísticas, concentradas onde quem dá pitaco não circula).

Essa ausência de lé com cré é uma marca constante de um jornalismo criado em prédio ou condomínio. De lá não perdemos só a capacidade de pensar, mas de construir nossa subjetividade a partir da experiência. Essa lacuna é o terreno fértil a outros condomínios, para citar uma expressão do psicanalista Christian Dunker no livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: os condomínios que nos encarceram na ideia de normatividade. Essa parcela amedrontada da população diz que a família protege e o estranho nos coloca em risco. Sheherazade (grifo meu) é a porta-voz deste condomínio. Para ela, tropeçamos na hipocrisia porque somos incapazes de dar emprego ou acolher a quem defendemos a dignidade.

Se perguntasse ao pó, as Sheherazades que do alto apontam caminhos sem precisar caminhar saberiam que os criminosos estão, sim, devidamente acolhidos e empregados. Empregamos criminosos quando frequentamos shoppings beneficiados pela máfia do ISS. Empregamos criminosos quando ignoramos as acusações de trabalho escravo da grife de roupas e ainda assim a frequentamos. Empregamos criminosos quando trocamos a multa por agrado. Empregamos criminosos quando protegemos os pais de família acusados de assédio e violência. Empregamos criminosos quando pagamos para encerrar processos contra os filhos de família. Empregamos criminosos quando receptamos produtos contrabandeados. Empregamos criminosos quando mandamos entregar a cocaína na nossa portaria de luxo. Empregamos criminosos quando somos condescendentes com o médico vizinho acusado de realizar cirurgias ou implantes desnecessários para lesar a seguradora. Empregamos criminosos quando mantemos nosso dinheiro em bancos acusados de blindar fortunas não-declaradas em contas secretas. Empregamos criminosos quando votamos em quem defende tortura, estupro, violência contra minorias.

Visto de cima para baixo, o crime é só o que não cabe na nossa vizinhança. Empregamos criminosos o tempo todo, mas nossa insegurança é fruto apenas da negligência sobre adolescentes impunes.

Toda vez que ouço alguém repetir a lógica de sheherazadiana do “tá com dó, leva pra casa”, minha vontade é contar que minha mãe, catequista, atuou por um tempo como voluntária da pastoral carcerária em nossa cidade e, nessa época, conheceu um sujeito desesperado com o futuro da família.

Minha mãe jamais soube o que ele fez, mas tinha discernimento suficiente para saber que, não importasse o tamanho da pena, ela não poderia ser repassada aos filhos do condenado, que moravam em uma área afastada da cidade vizinha Américo Brasiliense. A esposa estava grávida e cuidava sozinha de outros três filhos, dois deles pré-adolescentes. Antes que alguém levante o dedo para dizer que pobre só sabe fazer filho, devo dizer que naquela rua não havia farmácia, posto de saúde, escola ou qualquer via de acesso a informações e métodos contraceptivos.

A rua não tinha sequer asfalto, e se tentasse sair e voltar de lá todos os dias em ônibus inexistentes numa área que faltava água e comida, o jovem que só queria ter aula de microeconomia e acha que todos têm condições iguais de entrar na USP talvez repensasse a ideia. Ali as botas não se sujavam por falta delas.

Durante anos, nosso programa de domingo, ao menos uma vez por mês, era levar àquela família o mínimo necessário para sua sobreviver na ausência do pai. Para eles, o desafio de não morrer de fome era tão alto quanto a probabilidade de serem aliciados pelo crime. Punição por punição, a defendida pelos populistas fãs do pateta e da Sheherazade por pouco não multiplicou a criminalidade por três. Questão de gosto ou vontade é licença poética para quem passa fome.

Um dia, ainda no fim dos anos 1990, o homem saiu da cadeia. Quando saiu viu a filha casada, o filho empregado, as crianças alimentadas.

Com o tempo percebemos que aquele esforço, do qual boa parte dos amigos do nosso bairro participava, jamais seria suficiente para definir os destinos que Sheherazade chama de “opção pelo bem ou pelo mal”. Mas poderíamos apoiar e pressionar o Estado a assumi-lo. A defesa dessa bandeira não envolve gosto ou filiação partidária. Envolve urgências. Em nome daquela família, e de tantas as que não pudemos jamais oferecer um sapato, lamento profundamente quando vejo amigos bem nascidos falando que o Brasil seria um país mais justo se não fosse um tal de “Bolsa Presídio”, o que premia o criminoso às custas de nossos impostos. A visão utilitarista de mundo não é só desumana. É também burra.