Mal-estar, sofrimento e sintoma

19.04.2015

Ilustríssima | Folha de S. Paulo
Thiago Nascimento

A "Ilustríssima" faz três perguntas a Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP, sobre o seu mais recente livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros.

Qual é o novo sintoma social e psíquico dos brasileiros?
O sofrimento perde sua força política quando suas causas são naturalizadas. Nos anos 1970, o Brasil criou o sintoma da vida em forma de condomínio, acreditando que muros e síndicos resolveriam nossa relação com a lei e com o espaço público. A nomeação do mal-estar, como violência e corrupção, está gestando um fundamentalismo à brasileira, moldado no colapso de nossas formas religiosas.

Qual é o mal-estar relacionado ao capitalismo à brasileira?
O Brasil exporta seu "grande tropeço" baseado na combinação entre consumo voraz e precarização de leis. A elevação da renda torna-se supérflua se não conseguimos reconhecer os meios pelos quais ela se deu. O novo ressentimento social não segue apenas a gramática do trabalho contra o capital. Ele baseia-se na oposição entre os que acreditam na transformação pelo trabalho e educação e aqueles que não têm uma história para contar, só signos para exibir.

Como a psicanálise ajuda a entender a tradição patrimonialista brasileira?
Há um atraso em nossa partilha entre benefícios privados e vícios públicos, mas pensar que nossas instituições são inviáveis é um resquício colonial. Público e privado não precisam dar em mistura patológica ou separação legalista. A psicanálise brasileira encontrou certa reputação mundial, tanto por pensar essa confusão quanto pela complexidade de nossa crise de identidade.