Hegel, Lacan e o mato

15.04.2015

Carta Capital
Vladimir Safatle

Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros, novo livro de Christian Dunker, é a prova maior da vitalidade madura do pensamento psicanalítico brasileiro e de sua capacidade singular de ampliação de seu universo de questões. Ele coloca a reflexão social psicanaliticamente orientada na linha de frente da construção de um modelo teórico no qual problemas nacionais são apresentados com um setor elucidativo de potencialidades ainda pouco exploradas ligadas a questões gerais de reconhecimento social. Dunker já vem, desde seu Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica: Uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento, se firmando como um dos mais originais psicanalistas da atualidade, graças à sua capacidade de fornecer chaves compreensivas que, ao mesmo tempo, recolocam a psicanálise em um espectro no qual clínica, teoria da cultura e história das ideias se encontram e abrem campos ainda inexplorados.

Não deixa de ser interessante salientar como, em um momento no qual a produção psicanalítica perdeu muito de sua força criativa em países onde ela sempre foi muito presente, é no Brasil que ela encontra atualmente uma renovação na aliança entre práxis clínica e teoria, não se contentando em pensá-las em dissociação.

O livro de Dunker tem ao menos quatro desenvolvimentos de grande originalidade, e um só bastaria para justificar seu interesse. Primeiro, ele consegue sintetizar um modelo de desenvolvimento de práticas disciplinares diferentes dos aparelhos ideológicos tradicionais, como família, Estado, Igreja, escola e empresa, entre outros. Trata-se do condomínio. Afinal, só mesmo um país como o Brasil poderia transformar um pesadelo distópico (a Alphaville do filme homônimo de Godard) em sonho de consumo. Dunker recebe na clínica pacientes que sofrem por viver a lógica do condomínio com seu tipo de figura de autoridade (o síndico), suas ansiedades e defesas contra o mal-estar. Vai da sua astúcia mostrar como essa forma singular de habitar produz modos de sofrer que lhe são próprios e que fornecem uma chave privilegiada para desmontar o nacional como patologia.

Leia o artigo completo na ediçao de 15 de abril de 2015 da revista Carta Capital