'Lógica de condomínio' traz cisão ao país, diz psicanalista

20.03.2015

Ilustrada | Folha de S.Paulo
Eleonora de Lucena

O Brasil vive um momento agudo do conflito baseado na "lógica de condomínio", uma forma de viver alimentada pela hiperindividualização e pelo encolhimento do espaço público. As novas manifestações programadas indicam que a radicalização vai piorar.

"Parece que o problema do Brasil é o PT e o PSDB. Isso é um sintoma da impossibilidade de escutar o Brasil. A escuta é de particulares, condomínios. Mas o Brasil é muito maior do que isso", diz o psicanalista Christian Dunker, 48.

Professor titular de psicologia da USP, ele está lançando Mal-estar, sofrimento e sintoma - A psicopatologia do Brasil entre muros. O livro discute desdobramentos do avanço da "cultura de condomínio" na sociedade.

"As partes envolvidas traduzem o conflito em termos de dois condomínios –o vermelho e o azul–, sem entender que existe um espaço em comum chamado Brasil. A disputa entre esses dois condomínios não reconhece nenhuma mediação e imputa para o condomínio vizinho o rapto do gozo: não está dando certo aqui porque o outro roubou uma parte", diz Dunker em entrevista à Folha.

"A existência é pensada entre muros. Se eu sair do meu muro, eu vou sair para brigar, para quebrar o muro do outro. Não é que o outro esteja fazendo algo com o qual não concordo. Ele é de uma dimensão que eu não consigo reconhecer como semelhante à minha. Por isso, aparecem palavras como petralha, metralha, idiota, louco, deficiente mental –categorias entre o moral e psiquiátrico", afirma.

Dunker avalia que essa lógica chegou ao seu máximo agora. "Pode evoluir para o pior, uma anomia generalizada. Ou guerra civil, com condomínios ganhando tanta força que fazem funções de Estado. Mas não acredito nesse cenário", declara.

DESARMAR A VALENTIA

Como escapar desse risco de degringolada geral? Para o psicanalista, é preciso "desarmar a valentia" para nomear o mal-estar e reconhecer que a situação é mais complexa e não pode ser reduzida a um problema de violência, corrupção ou drogas.

Segundo ele, é vital reverter "a lógica de que o nosso sofrimento vem de fora: de outra classe social, de outra região do país". "Isso é muito simplificador."

Ligado à linha lacaniana, Dunker tem pós-doutorado pela Manchester Metropolitan University (Inglaterra). Seu livro "Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica", baseado em sua tese de livre-docência, recebeu o Prêmio Jabuti de 2012.

O psicanalista enxerga as raízes da "cultura de condomínio" na década de 1970, durante a ditadura militar. Foi quando começou a florescer um ideal de vida guarnecida, com segurança e repleto de muros. Não só na forma de morar, mas também de criar filhos e de consumir. Todos ambientes controlados e cheios de regras.

A "condominização" do Brasil se expande desde o período FHC, nutrida pelo neoliberalismo e pelo declínio do espaço público, analisa Dunker. Também foi nessa toada que floresceram formas de crenças mais ligadas à nomeação do mal-estar de forma binária: "Ou você está comigo ou está contra mim".

Nesse quadro, ganhou força a figura simbólica do síndico, que aparece em várias esferas da vida: na saúde, na educação, nas empresas. Basta lembrar do que ocorre quando uma pessoa liga para um "call center".

"Se no passado as pessoas tinham responsabilidades mais ou menos fixas e tinham com quem reclamar, o que emerge com a figura do síndico é a deformação desse tipo de autoridade. O síndico nunca é pessoalmente responsável pelo que está acontecendo. Ele é sempre um intermediário que está gerindo a sua queixa."

ÓDIO

Formas de sofrimento que poderiam ser enfrentadas de outra maneira acabam virando objeto de um síndico e tudo fica compartimentalizado (alcoólatras, loucos, ansiosos), resultando em mais ressentimento e ódio.

"Só se consegue pensar nas nossas dificuldades sociais a partir de grupos particulares que têm interesses particulares. Vai terminar na elite branca de um lado e nas vítimas de outro", pondera.

Para Dunker, "essa nova forma de organização da produção, associada com o neoliberalismo, produz um incremento do sentimento de hiperindividualização. Se sua vida deu errado ou deu certo, a culpa é só sua".