As contradições da utopia revolucionária

12.04.2014

Correio Braziliense | Pensar
Severino Francisco

O assassinato do líder comunista Leon Trotski está no centro do romance O homem que amava os cachorros (Boitempo editorial), do cubano Leonardo Padura. Mas, sob o pretexto da reconstituição de uma trama de ficção policial, Padura expõe as contradições e as feridas das utopias revolucionárias do século 20, que, algumas vezes, desembocaramno pesadelo de regimes totalitários. A narrativa se desdobra em torno de três personagens: Trotski; Ramón Mercader, o assassino; e Ivan, um escritor que gostava dos cachorros. É uma ficção com os pés fincados firmes na história. Padura pesquisou a vida de Trotski durante cinco anos. Desde o lançamento em 2009, O homem que amava os cachorros vem conquistando uma série de prêmios importantes: O Prix Initiales, o Prix Roger Caillois, na França; o Premio de la crítica, em Cuba; e o V Prêmio Francesco Gelmi di Caporiaco, na Itália. Padura lança o livro, hoje, às 18h30, no Auditório Nelson Rodrigues, com uma palestra e debate sobre o tema "Trotski: entre a realidade e a ficção", que terá a participação do secretário de Cultura, Hamilton Vaz Pereira. Nesta entrevista, Padura fala sobre a relação com a tradição literária cubana, a incorporação da literatura policial em suas narrativas, o jogo entre ficção e história e a relevância de Trotski para repensar as utopias socialistas do século 20: “Creio que abordar Trotski é uma lição, sobretudo, do que foi a perversão das grandes ideias utópicas do século 20 e nos serve como ensinamento para o século 21, inclusive em Cuba, ou sobretudo em Cuba, onde se aplicou o modelo social praticado na União Soviética que, ainda hoje, rege no país”.

A geração de Cabrera Infante e Severo Sarduy, por exemplo, parece muito marcada pela influência e pela recriação das técnicas de vanguarda. Como se posiciona na história da literatura cubana?

Faço parte de uma geração que, no fundamental e massivamente, despontou nos anos 1980 e tem em seu passado cubano a década de 1970, plena de repressões, ortodoxias e marginalizações políticas praticadas em Cuba contra muitíssimos intelectuais pela política cultural socialista posta em marcha nesta época. Mas temos também nesse passado a força da novela latino-americana da época, os grandes nomes (Carpentier, García Márquez,Vargas Llosa, Carlos Fuentes) com seus grandes relatos novelescos de proporções continentais, com pretensões abarcadoras. Então, devemos partir de uma posição que nos permita escapar da literatura politizada e pardidária que se tentou (e se logrou, incluindo Carpentier) fomentar em Cuba e os megarrelatos dos escritores da época. E, por isso, nós fomos, quase todos e de maneira creio que inconsciente no princípio, buscar os pequenos conflitos humanos que vivíamos e podiam existir na sociedade cubana, rumo a uma literatura mais intimista, a qual nos valia a acusação de “escapistas” e outras pelo estilo, pois não era o que e esperava o nosso realismo socialista tropical.

E no seu caso específico?

Creio que sou resultado de muitas leituras e influências. Porumlado, claro que teve seu peso a novela do boom latino-americano (os autores que mencionei antes, mas também Juan Rulfo, Cortázar, Fernando del Paso, etc.) com quemaprendi muito de estruturas e de manejo do meu idioma; a ficção norte-americana do século 20, de Hemingway e Dos Passos a Salinger e Updike ou Auster, com quem aprendi a contar histórias; e a novela europeia do pósguerra, com a qual aprendi (Camus, Sartre, etc.) a penetrar nos conflitos existenciais dos indivíduos.Comovê, souumasuma de muitas tendências, estilos e posições, que tentei harmonizar em minha busca de uma individualidade literária dentro de um contexto cultural e político tão singular como é o cubano.

Em sua trajetória, houve algum conflito com os valores das gerações anteriores?

Sempre existem conflitos geracionais, mas em meu caso não foram graves. Agora mesmo há autores da geração anterior que se empenham em considerar-meumescritor de “êxito comercial” para diminuir minha importância literária. Mas antes houve vários escritores e intelectuais que, com sua obra sua amizade, me ajudaram a definir meus interesses literários, a ver as dificuldades da criação, etc.Todavia, no essencial, creio que sou diferente deles na medida em que escrevo em um contexto diferente (não escrevi nesses infames anos 1970), e por isso pude fazer uma literatura mais crítica sobre a minha realidade, porque o contexto era diferente, e eu, também, fui diferente dos que me antecederam. A muitos deles, o medo e os dogmas os paralisaram; a mim, me impulsionaram a escrever como escrevi… E isso não quer dizer que não havia sentido medo, mas que enfrentei, que não deixei de lutar contra a autocensura que muito deles se aplicaramsem se rebelar.

A literatura policial começou como gênero de entretenimento da cultura de massas. Como se interessou por ela e como ela se incorporou em sua ficção com uma dimensão política e social?

É que eu cheguei à novela policial com a consciência de que podia ser uma literatura de alto conteúdo social. Antes de mim, transitaram esse caminho autores como Sciacia, Rubem Fonseca, Vázquez Montalbán e me mostraram como se podia fazer uma literatura policial com conteúdo artístico e projeção social, histórica e política.

E essa foi a ficção que decidi praticar. A mim, não me importa se mais livros têm bons enigmas. O que me interessa é queumcrime me sirva para penetrar em minha realidade e fazer uma análise dela. E, me interessa, ademais, que esse exercício tenha um voo estético, e mais alto que eu poderia alcançar. Logo, procurei conservar as estruturas da novela policial em projetos mais ambiciosos e amplos, que se desenvolvam na história próxima e longíngua. E é o que ocorre em ficções como O homem que amava os cachorros, mas também em outras que escrevi como A novela de minha vida (2001), A neblina do passado (2005) e a mais recente, Herejes (2012), em que faço uma reflexão, por meio da história e até o presente, sobre os preços que deve pagar o indivíduo por exercitar sua liberdade individual: isso dentro de uma novela, digamos, policial…

Qual o interesse no personagem Trotski para a ficção nos anos 2000 e para repensar a história de Cuba?

Creio queTrotski foiumaopção para pensar o socialismo e para aplicá-lo como método filosófico a uma sociedade socialista, pois não só partiu dos clássicos, mas também foi um grande opositor do pensamento stanilista. E só por isso já poderia ser entendido como um pensador e uma figura interessante para o pensamento social. Seu antagonismo de ideias com Stalin, mais sua própria vida, que foi tirada por Stalin, servem como exemplos do que foi o sistema criado naUnião Soviética por Stalin e o que pode haver sidocomoutras práticas e ideias. Por isso, creio que abordar Trostki é uma lição, sobretudo, do que foi a perversão das grandes ideias utópicas do século 20 e nos serve como ensinamento para o século 21, inclusive em Cuba, ou sobretudo em Cuba, onde se aplicou o modelo social praticado na União Soviética que, todavia, hoje rege no país.

Por que, na condição de autor de ficção, se empenhou tantoempesquisar a história em O homem que amava os cachorros? A ficção não permite a liberdade absoluta de abordagem?

Sim, a ficção é o reino da liberdade, mas, quando se move na história, ainda como ficcionista, não se pode dar-se ao luxo de praticá-la a partir do desconhecimento. A ficção que se fundamenta na história deve conhecê-la e respeitá-la em suas essências. E desse conhecimento e respeito praticar sua liberdade essencial de obra artística.

Como é sua relação pessoal coma história de Cuba? No início, havia muitas esperanças, mas, depois, houve um choque de realidade. Comoisso apareceemsua ficção?

Minha relaçãocoma história de Cuba é problemática, e não poderia deixar de ser porque sou um ser pensante que me empenho em ter uma visão coerente de meu entorno, tanto atual como no passado. Nos anos 1990, apesar da queda do socialismo na Europa e de que em Cuba se iniciava uma crise econômica e de valores da qual ainda não saímos — e creio que não saíremos em curto prazo — senti uma grande desilusão, frustração e perda de sentido. Cabrera Infante se exilou, masdizia: “Nunca saí de Cuba, Cuba é uma presença constante”. Por que, apesar das dificuldades do país, o senhor prefere permanecer em Cuba?

Para que não me ocorra o que aconteceu com Cabrera Infante e tantos outros… É porque eu necessito de Cuba para escrever e viver. Sou um escritor cubano: essa condição pode ser uma condenação, mas também uma qualidade, e a ela me entrego. Sou um cidadão cubano, e como tal devo contemplar, entender, refletir minha sociedade. Sou um cubano e tenho um forte sentido de pertencimento à minha cultura, à minha história, à minha forma de ver e viver a vida.

Cuba já foi a ilha da utopia. Hoje, o que é Cuba para o senhor?

Hoje, para mim, Cuba é um mistério. Os ex-soviéticos diziam que o passado que haviam vivido era um passado imprevisível, e creio que o de Cuba o será quando o analisarmos a fundo. Mas o futuro é uma nebulosa de incertezas, pois não se sabe para onde vamos, porque as decisões importantes se tomam pelo governo sem demasiada consulta a nós, que as vivemos e sofremos.

Mais recentemente, por exemplo, se decidiu liberar, depois de meio século, a venda de automóveis. E o Estado exerceu seu direito de monopólio. E decidiu vender os carros a um preço que supera em 10 vezes o valor no mercado internacional. É uma burla ou uma falta de sentido comum? É um sinal de que a partir do poder se pode tomar decisões que nada têm a ver com a realidade e as necessidades do país? Pode ser tudo isso. E um país onde um Peugeout de 50 mil euros é anunciado por 300 mil dólares pode ser visto de qual perspectiva? É muito difícil. Por isso, creio que Cuba, seu presente, seu futuro e inclusive parte do seu passado é para mim um mistério. Apesar de haver vivido e estar vivendo e pretender viver neles: o passado, o presente e o futuro.

Trecho

“Na realidade, não tinha muita clareza sobre como poderia cumprir a pretensão de voltar a escrever, pois estávamos em pleno 1975 e nada no horizonte indicava qualquer mudança na concepção de uma política e de uma literatura que, sob o peso morto da mais rígida ortodoxia, só produziam e promoviam obras como a que eu escrevera há quatro anos: senflituosas — assim as qualificariam mais tarde — e complacentes, sem vislumbre de uma tensão social ou humana que não fosse permeada pelas influências da propaganda oficial. E, se de alguma coisa tinha a certeza, era de que essa escrita já não tinha nada a ver com a pessoa que eu poderia vir a ser. O problema estava no fato de eu não fazer nenhuma merda de ideia de qual poderia ser a literatura que devia e, sobretudo, que talvez pudesse escrever, e muito, muito menos, que pessoa queria ser.”