Vladimir Pinheiro Safatle

Autor

Vladimir Safatle, filósofo e professor, é graduado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e em Comunicação Social pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), com mestrado (USP) e doutorado (Universidade Paris VIII) em Filosofia. Atualmente, é professor livre-docente de Filosofia na USP, tendo sido professor visitante das universidades Paris VII e Paris VIII e responsável por um seminário no College International de Philosophie, também em Paris. Desenvolve pesquisas nas áreas de epistemologia da psicanálise, filosofia da música e desdobramentos da tradição dialética hegeliana na filosofia do século XX. É um dos coordenadores da Sociedade Internacional de Psicanálise e Filosofia.

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Vladimir Pinheiro Safatle
 
por Silvio Carneiro
 
“A intenção última é a de introduzir um mínimo de negatividade no debate acadêmico,
revelando o que há de frágil na segurança moral-ideológica que está em sua base mais funda.”
Bento Prado Júnior, Erro, Ilusão e Loucura
 
O Trabalho do Espírito
 
É surpreendente descrever a vida de alguém tão jovem como Vladimir Safatle. Partindo do tempo cronológico, restringiríamos sua biografia a poucas linhas. Entretanto, seguindo o tempo lógico, notamos o esforço de um espírito inquieto, com ideias inovadoras, que por vezes causam espanto por sua ousadia no marasmo do sistema nacional de pensamento. Provocações que contraria performances cínicas, ao extrair ideias soterradas pelo discurso do senso comum. Daí a intervenção de nosso personagem nos centros universitários, nos meios de comunicação, nas produções artísticas.
 
Sua vida não deixa de refletir esta necessidade. Nasceu no Chile, quando a ditadura daquele país dava seus primeiros passos, em 1973. Sua família, na impossibilidade de permanecer naquele ambiente, retorna ao Brasil, em plena Ditadura Militar, e se estabelece em Goiânia. Grande parte de sua primeira formação ocorreria naquela região. Na adolescência, vive os anos 1980 e absorve, desde então, a rebeldia daquele período, contrária à ordem estabelecida do país. É provável que Safatle tenha vivenciado de perto a formação de certo rock nacional, cuja força musical é a contestação e o inconformismo. Decerto, anos depois, tal geração viveria a conquista e certa melancolia da reconstrução do país, que, por vezes, retomava fantasmas do passado e, concomitantemente, deixava abertas certas cicatrizes do tempo. É a época das Diretas Já!, momento de abertura política e silenciamento do passado. Época de ambivalências que surgem nos duros golpes do projeto de modernização por vir. Modernização que opera sobre o país das “carroças”, da “desestabilização econômica”, que inova com tecnologias, ao mesmo tempo em que contrai novas formas de sofrimento social. Chegamos aos anos 1990, com a desconstrução sistemática de uma velha ordem – sinal de progresso, diriam alguns; tempos sem perspectivas, diriam outros.
 
Seria neste cenário que Vladimir Safatle chega a São Paulo, onde frequenta simultaneamente dois cursos universitários, graduando-se no mesmo ano em Comunicação Social pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, bem como em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Nesta dupla via, a perspectiva filosófica dos problemas do mundo tomaria força nos projetos de Safatle. Em 1997, orientado pelo Prof. Bento Prado Jr., defende a dissertação, O amor pela superfície: Jacques Lacan e o aparecimento do sujeito descentrado. Este seria o primeiro trabalho de uma série de investigações cada vez mais interessadas pela articulação entre filosofia e psicanálise. O que nos faz perguntar: o que pode levar alguém a enfrentar áreas tão controversas? Tentemos compreender pelo percurso traçado por Safatle.
 
Adorno, Lacan e a Crítica da Economia Libidinal
 
Talvez, a novidade do trabalho de Safatle não esteja meramente na apresentação desta articulação. Lembremos como no Brasil tal relação já ocupa certa tradição, uma linha do tempo com variações que segue desde a apreensão existencialista próprio Bento Prado Júnior ou Luiz Roberto Molzani, a posições epistemológicas da psicanálise como em autores como Osmyr Faria Gabbi Jr., Renato Mezan, Richard Simanke entre outros. No interior desta tradição da filosofia da psicanálise, o pensamento de Safatle habita um lugar diverso, que não se limita a questões de ordem epistemológica; a discussão sobre o destino do conceito de subjetividade nos tempos contemporâneos, núcleo central da prática psicanalítica, recebe na ótica safatleana aspectos de teoria social.
 
Não por menos, Safatle elege Lacan como o seu interlocutor privilegiado, o que se confirma alguns anos depois em sua tese de doutorado publicada aqui no Brasil sob o título A Paixão do Negativo: Lacan e a Dialética, defendida na Universidade de Paris VIII em 2002, sob a orientação do prof. Alain Badiou. Decerto, Lacan é o psicanalista que, em meio a uma linguagem por vezes impenetrável, nunca deixou de lado a máxima de Rimbaud: “O Eu é um outro”. Eis a marca do descentramento do sujeito que nunca é visto como isolado, mas, desde sempre, em relação. Mais do que uma passagem pela alteridade, o modelo subjetivo de Lacan se identifica de pronto à ordem social. Definido pelo olhar do outro, o Eu é sempre estranho a si mesmo, e carrega em sua formação marcas desta alienação de si.
 
Ora, ao recompor esta discussão em suas teses, Safatle leva adiante duas hipóteses centrais para se compreender a sociedade contemporânea e seus modos de subjetivação. De um lado, temos na clínica lacaniana uma lógica do reconhecimento, uma “intersubjetividade capaz de produzir a assunção do desejo do sujeito na primeira pessoa do singular no interior de um campo linguístico partilhado” (Safatle, 2006a, p. 22), um modo de dizer que o indivíduo se insere em uma estrutura social a partir do momento em que se reconhece e se faz reconhecer como momento de um processo de sociabilização. Por outro lado, a clínica lacaniana se depara com modos patológicos de vida, marcas de sofrimento no interior da lógica do reconhecimento em que o indivíduo se coloca. Podemos afirmar que Lacan, seguindo a lógica freudiana, compreende este fenômeno do sofrimento psíquico como algo distinto da deformação genética, ou mesmo, como uma deformidade contingente do indivíduo perante a ordem social. Aquele que sofre é, pois, manifestação sintomática indireta de uma ordem social doente.
 
No entanto, atentemos para o fato de que a proposta lacaniana não está na identificação do sujeito à ordem social em que vive. Safatle percebe que Lacan enuncia uma nova maneira de se pensar a subjetividade. Movimento interessante para compreendermos a intenção de Safatle: na contracorrente dos tempos pós-modernos, de uma filosofia contrária ao sujeito, Lacan seria um dos poucos que ainda sustenta este conceito, “livrando-o de um pensamento da identidade” (Safatle, 2006a, p. 30). Ou seja, Lacan se aproxima de uma filosofia do sujeito, não mais restrita à figura cartesiana do eu pensante. Lembremos, o eu lacaniano é um outro, diferentemente daquele pensa e que, por isso, existiria. Diferença repleta de consequências no coração da filosofia. É com tais inquietações que, em meio às pesquisas do doutorado, Safatle organiza em 2001, centenário do nascimento de Jacques Lacan, um seminário que reúne autores da psicanálise e da filosofia, publicado na coletânia Um Limite Tenso: Lacan entre a Filosofia e a Dialética. Alimenta-se aqui o debate em que não apenas o conceito de sujeito como também o pensamento dialético tornam-se fundamentais para compreender esta ordem de pensamento que escapa à lógica da identidade. Afinal, de qual modo de reconhecimento se trata, quando se afasta da força da identidade?
 
A pergunta pode ser interessante, mas deixa de lado o fato de que o reconhecimento não seria uma determinação dos sujeitos. Na própria lógica do reconhecimento existem pontos cegos, os quais a racionalidade moderna, em sua vontade infinita por determinar os objetos, deixa de lado. Não por menos, Safatle apresenta como interlocutor de Lacan, Adorno – autor que ocupa cada vez mais espaço nas investigações de Vladimir. Articulação que não pretende reduzir a filosofia de um à psicanálise de outro, mas que pretende colocar seus discursos em tensão, um movimento bipolar, capaz de apreender o que é da ordem da determinação da razão e da configuração do sujeito (idem, p. 31). Cada qual a seu modo, Adorno e Lacan, ao invés de “assumirem o discurso da morte do sujeito (...) estiveram dispostos a sustentar o princípio de subjetividade, embora desprovendo-os de um pensamento da identidade” (idem, p. 32). Tema central do pensamento dialético, seria a identidade o alvo de tais pensadores na perspectiva de Safatle. Haveria na identidade algo da ordem da sobreposição de determinações, fundamental nos modos de racionalidade totalitária e que manifesta modos patológicos de vida em seus sujeitos, como certa ordem paranóica e alucinada com a qual Adorno e Horkheimer haviam se defrontado nos capítulos sobre o totalitarismo em Dialética do Esclarecimento. Um sinal maior da patologia social, como o sofrimento dos campos de concentração (mas não só: podendo se estender a crítica ao modelo da indústria cultural no capitalismo americano).
 
De outro modo, uma estratégia comum a Adorno e Lacan é apontada na crítica à lógica identitária de reconhecimento. Neles, o sujeito surge como ponto de resistência, na mesma medida em que ocupa o “lugar da não-identidade”. Recompõe-se desde então o território privilegiado da experiência do corpo, da pulsão e seus modos de subjetivação – componentes do que Freud denominara “economia libidinal”. Assim, compreender os desvios, déficits ou inflacionamentos dos investimentos de prazer e desprazer no mundo contemporâneo é, para Safatle, algo fundamental. Seria este modelo crítico da economia libidinal que, anos depois, se apresenta em Cinismo e Falência da Crítica, quando afirma tratar-se de “propor a compreensão do fundamento dos processos de racionalização social a partir dos problemas de socialização do desejo” (Safatle, 2008a, p. 114). Diagnóstico fundamental em uma sociedade do consumo que torna ilimitadas as possibilidades do gozo fornecido pela mercadoria, determinando os indivíduos no interior do território flexível das formas-mercadoria.
 
A vida pública e o papel do intelectual
 
A inovação de tal crítica da economia libidinal exige compreendermos outra característica de nosso autor, que vai além do pesquisador acadêmico e procura se estabelecer no cenário público. Ao lado de sua pesquisa de mestrado, em 1995, Safatle lecionou em Universidades Particulares, como professor assistente no curso de Comunicação Social da Universidade Paulista (UNIP). Desde então, praticamente não parou com as atividades de ensino, lecionando em outras instituições privadas como a Escola Superior de Propaganda e Marketing. Em 2003, um ano após a defesa de seu doutorado, passa a integrar o corpo de professores na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, onde leciona desde então, ocupando a cadeira de Teoria das Ciências Humanas.
 
Desde então, passa a oferecer cursos e orienta trabalhos de pesquisa, sobretudo no que tange às áreas de História da Filosofia (sobretudo de autores franceses e da tradição dialética), Filosofia da Psicanálise e Filosofia da Música, temática sobre a qual falaremos adiante. Além disso, oferece diversos cursos em instituições estrangeiras, como professor visitante no Collège International de Philosophie, Université de Paris VII, Université de Paris VIII, Université de Toulouse e Universidade Católica de Louvain – Bélgica. Visitas que se refletem nos Encontros Internacionais de Filosofia e Psicanálise, em que procura promover um debate mais intenso entre as duas áreas, com pesquisadores de diversos centros universitários. O encontro entre filosofia e psicanálise também se dá em projetos de ensino (não apenas no curso de Filosofia, como também no curso de Epistemologia das Ciências Humanas – curso obrigatório nas disciplinas do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – em que procura explorar temas do campo clínico da psicanálise), bem como em projetos interdisciplinares de pesquisa, como o que organiza junto aos professores do Instituto de Psicologia da USP Christian Dunker e Nelson da Silva Júnior, envolvidos com os projetos do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da Universidade de São Paulo (Latesfip/USP).
 
Mas as atividades de Safatle não se restringem à pesquisa e ao ensino. Há nele a inquietação de ocupar o espaço público. Desde 1997, já podemos encontrar diversos textos de intervenção em meios de maior circulação, como o Correio Braziliense e a Folha de São Paulo, revistas como a Cult, e sítios eletrônicos como o Trópicos. A natureza destes textos é diversa, mas já apontam para o lugar que Safatle anseia ocupar: no coração do debate público a partir de resenhas de livros acadêmicos, críticas de arte e literatura, artigos sobre os fatos políticos. Atualmente, Safatle é colunista de revistas e jornais, além de ser convidado continuamente para participar do Jornal da TV Cultura, onde comenta os fatos do dia. Nestes espaços, é possível afirmar que a estratégia adotada por Safatle seja a de resgatar o pensamento no interior do senso comum, um exercício de reflexão que permite controvérsias e rearticula pautas de debates para o interesse social. Em meio a teses polêmicas – a tese do “salário máximo”, armamento dos rebeldes líbios, pra citar algumas mais recentes – Safatle não se furta de colocar à vista pública o teórico das ciências humanas pautando o debate social, remoendo a gramática daquilo que é dito cotidianamente pelo senso comum.
 
Além disso, ganha destaque seu olhar aguçado para os debates de seu tempo. Seria ele um dos primeiros a trazer para o Brasil figuras como Slavoj Žižek, ou a ampliar a circulação de nomes como Giorgio Agamben, Judith Butler entre outros. Personagens da esquerda que surgem no início deste século com propostas que articulam o debate político com problemáticas diversas, retomando as experiências fracassadas da esquerda no século passado, como lições a partir das quais novas práticas se fazem necessárias, seja no campo da sexualidade, das instituições e do direito. De modo complementar a esta orientação, Safatle recupera as principais fontes de debate destes e outros autores. Vimos a importância de pensadores como Lacan e Adorno, mas podemos adicionar à experiência intelectual de Safatle, as presenças de Michel Foucault, Axel Honneth, Jean-François Lyotard entre outros. Porém, nada mais surpreendente do que o modo como Vladimir Safatle nos conduz por tais autores. Não se trata de modo algum de uma “bricolagem filosófica”, mas de um exercício de reflexão que nos conduz para territórios que seguem para além destes autores, conceitos que ressoam posteriormente em lugares antes inesperados e que, de um modo peculiar, reúnem tradições distantes, como apontamos na relação Adorno e Lacan. Deste exercício, talvez o mais interessante não seja nos atermos a uma leitura estrutural de suas obras, mas atentarmos para o destino de suas ideias sem perder o rigor das suas obras.
 
A Música, estética e política da forma artística
 
Se percorrermos as ideias de Safatle, sobretudo em seus livros principais (e mesmo em sua tese de livre docência, Grande Hotel Abgrund, defendida em 2009), é notável a tendência que o modo filosófico acaba seguindo. Há sempre um capítulo final sobre o papel da arte: Arnold Schoenberg e Morton Feldman são personagens constantes. Mais do que um capítulo sobre arte, trata-se de um capítulo sobre a música; ou melhor, sobre um certo tipo de música. As composições dodecafônicas chamam a atenção de Safatle e a isto corresponde o modo pelo qual articula estética e política.
 
Primeiramente, é importante notar que a posição privilegiada do pensamento estético na obra de Safatle principia de antemão uma posição política. Aqui, a estética não ocupa o território da intuição, da sensibilidade, daquilo que escapa às formas de racionalidade. Basta lembrar Schoenberg quando afirma: “Faz-se música a partir de conceitos” (apud Safatle, 2008a, p. 184). Não se trata aqui de identificar a música conceitual como a única válida, tomando partido em um debate desgastado entre o erudito e o popular. Mais do que isso, interessar-se pela música a partir de sua racionalidade significa, em primeiro lugar, compreender a composição a partir de sua forma estética, da ordem racional pela qual a gramática musical organiza as expectativas de determinado autor. Assim, aos olhos de Safatle, a estética reconquista seu espaço na ordem do pensamento filosófico.
 
Em seguida, vale à pena lembrar que as artes compreendem conceitos de fundamental importância para uma teoria social. Não se pensa apenas em termos como “harmonia” e “tensão” – que aparecem na ética e política aristotélica. De outro modo, pensa-se na modernidade artística e seus efeitos na organização dos discursos. Ora, neste período, a noção de autonomia da arte ressoa de maneira intensa. O que não significa que o discurso da Arte pela Arte passou a ser hegemônico; mas que a forma musical “é o que permite a realização construtiva de exigências expressivas, ou seja, ela é o que deve unificar construção racional e expressão subjetiva” (idem, p. 185). Tal definição da forma musical como um exercício de autonomia artística recupera um conceito político de extrema importância: a autonomia. Lembremos o Iluminismo Alemão, quando Kant confere um estatuto especial deste conceito: a maioridade dos seres humanos racionais se daria na conquista da autonomia.  Enfim, é na estética que conceitos como este são reatualizados, e a música se mostra, pois, como um exercício estético desta ordem.
 
Estética musical, psicanálise, teoria social convergem assim no pensamento de Vladimir Safatle. Perguntado sobre o que seria a Filosofia, Safatle geralmente a considera como um discurso vazio. Isto não significa que a filosofia não tenha mais nada a dizer, mas sim que ela não tem objeto próprio. Diferentemente das demais ciências, o vazio do discurso filosófico não segue em busca de um objeto específico e, por isso, a importância de articular-se com diversas áreas do saber – atividade de pensamento que Vladimir Safatle continuamente exercita e nos desafia a exercitar.

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