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Coleções: Revista: Selo:


Título: Margem Esquerda n.11
Subtitulo: ensaios marxistas
Autor: Vários autores
Páginas: 160
ISSN: 1678-7684
Preço: R$ 28,00

1968 foi um ano extraordinário. Espalharam-se pelo mundo protestos contra a Guerra do Vietnã. Estudantes franceses organizaram-se e exigiram mudanças sociais radicais. O povo, em luta, tomou as ruas da Checoslováquia, do México e dos Estados Unidos. Foi um ano de ressurgimento das mobilizações de massa e da esperança, ano de efervescência intelectual, em que pensamento e ativismo não se dissociavam. A cena cultural tremeu, com uma verdadeira revolução: Beatles, Rolling Stones, Sartre, Joan Baez, Bob Dylan, Chico Buarque, Vianinha e tantos outros.

Quarenta anos depois, Margem Esquerda dedica um dossiê – “1968, o ano que (quase) mudou o mundo” – à análise do impacto e do legado dessa década marcada pela resistência vitoriosa dos vietnamitas, dirigidos por Ho Chi Minh, pela consolidação triunfante da Revolução Cubana, de Fidel e do Che, pela vitoriosa revolução argelina de Ben Bella, pela passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro e pelo “verão quente” dos trabalhadores italianos, entre outros movimentos.

Para lembrar e reivindicar os revolucionários dias dos anos 1960, reunimos – com a colaboração de Daniel Aarão Reis – autores de diferentes visões, idades e países. Alguns militaram nessa década, fizeram parte da geração que procurou aprender com os trabalhadores o significado de sua luta. Uma geração que não esconde seu passado – ao contrário, orgulha-se dele –, que mantém ainda hoje a utopia da justiça social, continua sendo realista e pedindo o impossível.

Tariq Ali, de quem a Boitempo publica o livro O poder das barricadas, uma autobiografia dos anos 60, faz um balanço do que ocorreu nessa década de lutas, alertando para a triste evolução de alguns dos militantes de 1968, “hoje à frente de grandes corporações”.

O “assalto ao céu” de quarenta anos atrás é revisto por Emir Sader, que busca o sentido e o legado das mobilizações para a esquerda de hoje: “O anticapitalismo e o antiimperialismo continuam a ser o nosso norte, o norte humanista no mundo do século XXI”. Michael Löwy associa o romantismo revolucionário aos movimentos de 1968, citando autores que mudaram o clima intelectual e político em muitos países.

Em diversos cantos do mundo, 1968 será lembrado não apenas pelas manifestações estudantis, mas também pela intensa efervescência cultural e pelas muitas greves e mobilizações operárias. Em nosso país não foi diferente: Marco Aurélio Santana analisa a experiência brasileira, do ponto de vista da ação operária; Marcelo Ridenti e Ricardo Antunes apresentam o significado desse ano em que o movimento estudantil atingiu seu ponto mais alto e se misturou à luta operária que ressurgia após o golpe militar de 1964.

1968 aparece também nas imagens de Antonio Manuel (editadas por Luiz Renato Martins) e na seção Documentos. O massacre de Tlatelolco é o tema da escritora mexicana Elena Poniatowska (Tiníssima, Era, 1993), em emocionante texto lido na inauguração do Memorial de 68, no Centro Cultural Universitário Tlatelolco (Unam), no qual ela lembra que “denunciar os culpados é a única maneira de evitar que a história seja escrita somente pelos poderosos”.

Nessa mesma seção, Margem Esquerda traz uma conferência da dra. Nise da Silveira, psiquiatra e criadora do Museu de Imagens do Inconsciente, publicada na revista Movimento, em 1935, em que ela aborda questões filosóficas e sociais. Esse achado histórico da maior importância chegou a Margem Esquerda – após uma indicação generosa da livreira Milena Duchiade – pelas mãos da artista plástica Martha Pires Ferreira, amiga, colaboradora e estudiosa de Nise desde 1968 até sua morte, em 30 de outubro de 1999.

A entrevistada deste número é a economista Maria da Conceição Tavares. Nascida em Portugal, filiada ao Partido dos Trabalhadores, ela recebeu Carlos Eduardo Martins, Rodrigo Castelo e Virgínia Fontes para tratar de assuntos que vão do limite da queda do dólar no padrão flexível à influência de Marx em seu pensamento. Ela critica, entre outras coisas, a teoria da superexploração, de Ruy Mauro Marini – embora afirme respeitá-lo. A economista, célebre por suas opiniões polêmicas, ainda faz agudas considerações sobre o “capitalismo brasileiro”, a China e o risco de uma recessão nos Estados Unidos.

István Mészáros brinda Margem Esquerda com mais um grande texto: “Princípios orientadores da estratégia socialista”. Nele, indica conceitos-chave que devem guiar a construção de uma sociedade sem classes. Para o filósofo húngaro, são princípios que devem ser instrumentos para enriquecer a vida dos indivíduos e garantir a eqüidade entre as pessoas, fundamentando a viabilidade e a sustentabilidade de uma ordem socialista necessária.

De Nicolas Tertulian – que, como Mészáros, é notável estudioso da obra lukacsiana –, publicamos o artigo “O conceito de ideologia na ontologia de Lukács”, traduzido por Juarez Duayer. Trata-se de vigoroso estudo da ideologia na Ontologia do ser social, obra em que o marxista húngaro defende a polêmica tese da oposição entre ciência (o mundo da transcendência) e ideologia (o mundo da imanência).

Duas importantes resenhas retomam os temas da construção do socialismo e da “desconstrução” da ideologia: a de Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP, sobre O desafio e o fardo do tempo histórico, de Mészáros, que identifica na defesa do princípio da igualdade substantiva – empreendida pelo autor – uma importante atualização do projeto socialista; e a de Jorge Grespan, professor de Teoria da História da USP, sobre a principal obra filosófica de Marx e Engels: A ideologia alemã.

Outro marxista célebre analisado neste número é o historiador Caio Prado Júnior, cuja produção filosófica é parte integrante do “seu marxismo”, segundo o professor de História da USP Lincoln Secco. O pensamento de Caio Prado Júnior foi concebido como um projeto de atualização e de formalização da dialética marxiana, parte de sua obra pouco discutida pela historiografia. Seus livros filosóficos, todavia, permanecem importantes fontes para a compreensão de sua produção como historiador.

Chefe do Departamento de Sociologia da Universidade da Califórnia (EUA), Michael Burawoy traça, em “O futuro da sociologia”, um histórico da sociologia pública baseado em três estudos de países. Em “Medellín: a paz dos pacificadores”, resultado de um trabalho de campo realizado entre 2000 e 2007, o historiador Forrest Hylton desconstrói a visão hegemônica de que a Colômbia se tornou um modelo de sistema de segurança para a América Latina.

Fechando a seção Artigos, João Alexandre Peschanski discute, em “A construção do socialismo sem-terra”, os desafios que marcaram a constituição organizacional do MST: da influência de setores progressistas da Igreja à ruptura com a estrutura eclesial, da repressão nos primeiros governos pós-ditadura aos riscos na gestão Lula.

Para homenagear o mais universal de todos os revolucionários, Che Guevara, que em 14 de junho completaria 80 anos, publicamos o poema “Digam ao Che”, do professor de Literatura Brasileira, poeta e tradutor Flávio Aguiar. Três notas de leitura e uma “Carta à Margem”, do jornalista Raimundo Pereira, completam este número da revista.

Algumas perdas importantes merecem registro: do escritor e dirigente histórico do Partido Comunista chileno, Volodia Teitelboim, em 31 de janeiro, aos 91 anos; do poeta martinicano Aimé Césaire, criador do termo “negritude”, em 17 de abril, aos 94 anos; e do comandante das Farc, Raúl Reyes, assassinado pelo governo colombiano no Equador, em 1º de março, aos 60 anos. Nas palavras de Miguel Urbano Rodrigues, Reyes “entra no panteão dos heróis da América Latina. Como Sucre, como Bolívar, como Artigas ou Che, ele ultrapassa a fronteira da única forma de eternidade possível – dos homens que viveram para servir a humanidade e contribuir para que ela continue”. Aos três dedicamos esta edição. - Ivana Jinkings

Sumário da edição

Apresentação
Ivana Jinkings

Entrevista
Maria da Conceição Tavares
Por Carlos Eduardo Martins, Rodrigo Castelo Branco e Virgínia Fontes

Dossiê: 1968, O ano que (quase) mudou o mundo
Anos de luta
Tariq Ali

O romantismo revolucionário dos movimentos de maio
Michael Löwy

O assalto ao céu
Emir Sader

1968 no Brasil
Ricardo Antunes e Marcelo Ridenti

Caminhando contra o vento: as mobilizações dos operários brasileiros
Marco Aurélio Santana

Artigos
Princípios orientadores da estratégia socialista
István Mészáros

O conceito de ideologia na ontologia de Lukács
Nicolas Tertulian

O futuro da sociologia
Michael Burawoy

Medellín: a paz dos pacificadores
Forrest Hylton

O marxismo de Caio Prado Júnior
Lincoln Secco

A construção do socialismo sem-terra
João Alexandre Peschanski

Documentos
Filosofia e realidade social
Nise da Silveira

Tlatelolco para universitários
Elena Poniatowska

Resenhas
Em defesa da igualdade substantiva
Ruy Braga

A desconstrução da Ideologia
Jorge Grespan

Notas de leitura
Mystery Train
Alexandre de Freitas Barbosa

Pão e rosas
Claudia Mazzei Nogueira

A perda da razão social do trabalho: terceirização e precarização
Paula Marcelino

Carta à Margem
Sobre entrevista de Francisco de Oliveira
Raimundo Pereira

Apresentação das imagens
“A minha cama é uma folha de jornal”
Luiz Renato Martins

Poesia
Digam ao Che
Flávio Aguiar

PUBLICAÇÕES NA IMPRENSA:


Jornal da Usp
2008-05-12
Claudia Costa



O ano que (quase) mudou o mundo
Esse é um dos temas da 4a Semana de Ciências Sociais, que vai debater os fatos que marcaram o ano de 1968

O ano de 1968 é lembrado como um conjunto complexo de movimentos de mobilização e contestação social, época de rebeliões estudantis na França, da luta armada na América Latina, da guerra de libertação do Vietnã, da Contracultura na Europa, questionando os valores instituídos e pregando a expressão libertária. Para discutir a questão, passados 40 anos, um grupo de alunos do Centro Acadêmico organiza a quarta edição da Semana de Ciências Sociais, que acontece de segunda a sexta, incluindo mesas-redondas, debates, exposição, mostra de filmes, além de depoimentos de pessoas que viveram aquele momento.

Na abertura, nesta segunda, pessoas que atuaram e lutaram em 68 iniciam suas falas e reflexões sobre a luta armada e as organizações clandestinas, e como vivenciaram aquela época. Entre os depoimentos, estão o de Bernardino Ribeiro de Figueiredo (presidente do Centro Acadêmico de Filosofia, em 1968), João Quartim de Moraes (integrante da Vanguarda Popular Revolucionária, 68) e Leonel Itaussu de A. Mello (presidente do DCE-USP, 1968-1969). Ainda no mesmo dia serão realizadas duas mesas: Contexto Histórico do Brasil, com a presença de Alexandre Fortes, Francisco de Oliveira e Maria Aparecida de Aquino; e Contexto Histórico Mundial, apresentado por Robert Sean Purdy, Ruy Braga e Sebastião C. Velasco e Cruz.

No segundo dia, na terça, os temas são Terceiro Mundo e Revolução, com Bernardo Ricupero, Leonel Itaussu de A. Mello e Luiz Bernardo Pericás; Juventude: Ator Político e Social, com Helena Abramo e José Guilherme C. Magnani, assunto que ganha destaque “já que a existência da juventude como grupo social distinto dos demais é algo recente, e 68 foi marcante para apontá-lo como protagonista de muitos embates sociais e políticos”, como informa uma das organizadoras Camila Rocha; e Contracultura e Indústria Cultural, com Henrique Carneiro, Marcelo Ridenti, Paulo Menezes e Vladimir Safatle.

Na quarta, a primeira mesa Reforma Universitária no Brasil e na América Latina vai abordar as reformas realizadas na própria Universidade de São Paulo e ainda a Reforma de Córdoba, na Argentina, que tinha reivindicações em comum com o movimento estudantil da USP. Participam Gabriel Cohn e Maria Ligia Coelho Prado. O tema 1968, o ano que (quase) mudou o mundo é debatido por Heloisa Fernandes, Paulo Arantes e Theotonio dos Santos e também é assunto do dossiê da revista Margem Esquerda, número 11, que será lançada ao lado do livro O Poder das Barricadas, de Tariq Ali. E o último debate trata dos Movimentos Sociais, com Alipio Freire e Maria Célia Paoli.

Na quinta, as discussões giram em torno da Emergência do Movimento Negro nos EUA e no Brasil, com participação de João Baptista Borges Pereira e Teresinha Bernardo; e Estudos Urbanos e Conflito Social, com Eduardo Marques, Fraya Frehse e Heitor Frúgoli. No encerramento, na sexta, os direitos humanos são abordados por Ana Lúcia Pastore, Dalmo Dallari e Rossana Rocha Reis, além de “1968: Debate da Nova Esquerda/Velha Esquerda”, com Álvaro Bianchi, Gildo Marçal Brandão e Ricardo Musse; e na mesa Legados de 1968, o professor Franklin Leopoldo e Silva, que também participou ativamente na época, fala tanto como ator político como intelectual, refletindo sobre o legado daquele ano para gerações presentes e futuras.

Paralelamente, acontece uma exposição da artista plástica Fulvia Molina, apresentando a instalação 1968: Presente!. Estudante na época, apesar de não ter participado de nenhuma organização, acompanhou e vivenciou aquele momento de intenso embate social e político, e também dá depoimento durante a abertura do evento. E ainda é exibida uma mostra de filmes, selecionados por Paulo Menezes, com sessões a partir das 18h30: Pra Frente Brasil (1983), de Roberto Farias, na segunda; A Sociedade do Espetáculo (1973), de Guy Debord, na terça; Universidade em Crise (1966), de Renato Tapajós, 15 Filhos (1966), de Maria Oliveira e Marta Nehring, e Barra 68 – Sem Perder a Ternura (2000), de Vladimir Carvalho, na quarta; Ação Entre Amigos (1998), de Beto Brant, na quinta; e Quase Dois Irmãos (2005), de Lucia Murat, na sexta, mostrando como a arte e o cinema retratam ou rememoram aquele ano.
PUBLICAÇÕES NA IMPRENSA:


Jornal do Brasil
2008-05-24
Tariq Ali



Não me venha com essa, Sarkozy

Após as superficiais e arrastadas décadas da Guerra Fria – o período intermédio – do século passado, uma febre revigorante contagiou o mundo. Seus efeitos foram tão fortes que até hoje, quarenta anos depois, conferências são organizadas e ensaios, documentários e livros são produzidos para marcar o evento.

O conto foi relatado muitas vezes e em diversas linguagens, mas recusa-se a ir embora. Por quê? Uma explicação banal poderia ser simplesmente biológica: a geração dos anos 1960, está agora com sessenta anos e alguns de seus membros trabalham em grandes editoras, na televisão, no cinema etc., especialmente no Ocidente. Esta pode ser a sua última chance de lembrar, porque, em dez anos, muitos estarão mortos.

Na França, o debate foi reavivado por Nicolas Sarkozy, que declarou que a sua vitória na última eleição presidencial foi o último prego no caixão de 1968.

“Maio de 1968 impôs o relativismo moral e intelectual a todos nós”, declarou Sarkozy. “O legado de maio de 1968 impôs a idéia de que não existia mais qualquer diferença entre bom e mau, verdade e falsidade, beleza e feiúra. A herança de maio de 1968 introduziu o cinismo na sociedade e na política.”

Ele culpou o legado de maio de 1968 até por práticas de abuso oral: o culto do dinheiro, lucro rápido, especulação e abusos do apitalismo financeiro.

O ataque de maio de 1968 aos padrões éticos ajudaram a “enfraquecer a moralidade do capitalismo, a preparar o terreno para o inescrupuloso capitalismo das regalias e das proteções para executivos velhacos”.

Então, nós somos responsáveis pela crise do subprime, pelos políticos corruptos, pela desregulamentação, pela ditadura do “livremercado”, pela cultura infestada por um oportunismo descarado, pela Enron, pela Conrad Black, entre outras coisas. Não venha com essa, Nicolas.

Os sonhos e as esperanças de 1968 foram todos fantasias estéreis? Ou a história cruel abortou algo novo que estava preste a nascer?

Revolucionários – anarquistas utópicos, fidelistas, trotskistas de todos os tipos, maoístas de todas as correntes etc. – queriam a floresta toda para si. Liberais e socialdemocratas estavam pendurados nas árvores. A floresta, alertavam eles, era uma distração, demasiado vasta e impossível de definir, enquanto uma árvore era um pedaço de madeira que poderia ser identificado, nutrido, aperfeiçoado e trabalhado como cadeira, mesa ou cama. Algo útil para o presente.

“Vocês são como um peixe que vê apenas a isca, nunca o anzol”, respondíamos, ridicularizando-os. Pois o nosso lado acreditava – e alguns de nós ainda acreditam – que o povo não pode ser medido pela posse de bens materiais, mas por sua capacidade de transformar as vidas dos outros – os pobres e desprivilegiados –; que a economia tem de regular e reorganizar, segundo os interesses de muitos, não de poucos; e que o socialismo sem democracia nunca pode funcionar.

Acima de tudo, nós todos acreditávamos na liberdade do discurso. Os eventos de 1968 foram, independentemente de tudo mais, um poema da revolução impressa.

Um boletim libertário publicado pelos estudantes franceses em 1968 soa fora de moda quando tantos vivem no ciberespaço, mas é ao mesmo tempo um hino à palavra escrita:

Folhetos, pôsteres, boletins [...] não foram impostos para garantir a efetividade [...]. Eles pertencem à decisão do momento presente. Aparecem e desaparecem. Não dizem tudo, ao contrário, arruínam tudo: são alheios a tudo. Agem, pensam em fragmentos. Não deixam uma marca […], como pichações nas paredes, são escritos com insegurança, comunicados sob ameaça, carregam o medo neles, depois passam pelos transeuntes, que passam por eles, deixam-nos ou até os esquecem [...].

Tudo isso parece utopia, hoje, para homens e mulheres, cujas cabeças se tornaram dominadas pelo futuro enterrado no passado do mercado e, como membros de seitas antigas que transitavam facilmente da devassidão do ritual pagão para a castidade, eles agora consideram qualquer forma de socialismo a serpente que tentou Eva no paraíso.

O mundo ocidental pareceu tranqüilo após a Segunda Guerra Mundial. As complacentes e auto-satisfeitas elites da Europa ocidental estagnaram durante a Guerra Fria: elas nunca desfrutaram tanto. A Europa oriental foi menos passiva: um levante em Berlim Oriental em 1953, uma insurreição em Budapeste em 1956 e levantes em Poznan e Praga, alguns anos depois, que chacoalharam a gerontocracia em Moscou.

A crise dos antigos impérios foi tipificada pelas guerras na Argélia, no Vietnã, em Angola, em Moçambique e na Guiné-Bissau. Franceses e portugueses recusaram-se a deixá-los sem luta. O resultado foi uma série de guerras brutais, derrotas que provocaram uma crise severa nesses países, levando ao colapso da Quarta República na França, em 1958, e à crise crescente de uma ditadura bonapartista senil em Portugal.

A Guerra do Vietnã foi entrando na sua terceira e derradeira fase. Com o país ocupado pela França, posteriormente pelo Japão, brevemente pela Inglaterra e novamente pela França, os vietnamitas aprimoraram habilidades de resistência popular até formas nada bonitas ou decorativas. E, em 1957, os líderes dos Estados Unidos, convencidos da superioridade da raça branca e determinados a não deixar os comunistas vietnamitas unificarem o país, substituíram a França como poder colonial e começaram a enviar soldados para consolidar suas marionetes locais.

O fato memorável em 1968 foi a amplitude geográfica da revolta global. Foi como se uma única faísca tivesse posto o campo todo em chamas.

As erupções daquele ano desafiaram estruturas de poder de norte a sul, de leste a oeste. Todos os continentes foram infectados pelo desejo de mudança. A esperança reinava suprema.

Foi a guerra que despertou a atenção do mundo. Apesar de meio milhão de soldados e da tecnologia militar mais avançada já conhecida, os norte-americanos não foram capazes de derrotar os vietnamitas. Esse fato desencadeou um movimento antiguerra no interior Estados Unidos que infectou os militares. “Marines contra a guerra” tornou-se um slogan familiar. E eu me lembro de ter dividido o palanque com veteranos negros da guerra, em Berlim. “Eu não vou ao Vietnã, pois o Vietnã fica onde estou”, um deles declarou e recebeu um grande aplauso. Seus herdeiros diretos são as atuais “Famílias de militares contra a guerra” no Iraque.

Entre 1966 e 1967, eu passei seis meses na Indochina durante o clímax dos bombardeios e vi a devastação e as mortes diárias de civis desarmados. Isso ficou gravado na minha memória. Como alguém pode esquecer? A agitação política por um mundo diferente e pela solidariedade com os vietnamitas era a conseqüência lógica para muitos daquela geração.

E depois, para nosso espanto total, a França explodiu entre maio e junho daquele ano, fazendo disso um lindo, incomum e memorável verão. Dez milhões de trabalhadores em greve, a maior da história do capitalismo, e ocupações de fábrica que deixaram claro que os trabalhadores sabiam administrá-las muito melhor que qualquer patrão.

O exemplo da França começou a se espalhar e a preocupar os burocratas em Moscou, tanto quanto as elites no Ocidente. Eles concordaram que o povo selvagem e indisciplinado devia ser mandado para o inferno. Robert Escarpit, um notável correspondente do jornal Le Monde, expressou o clima em 23 de julho de 1968:

Um francês que esteja viajando pelo exterior sente-se um pouco ameaçado, como um convalescente de uma febre forte. E como irrompeu a revolta das barricadas? Qual era a temperatura às 17 horas de 29 de maio? O remédio gaullista está indo realmente à raiz da doença? Há risco de uma recaída? [...] Mas há outra pergunta que raramente é feita, talvez por medo da resposta. No fundo de seus corações, todos gostariam de saber, cheios de esperança ou temor, se a doença é contagiosa.

Ela certamente era. Um “maio alastrante” tomou a Itália e grandes demonstrações antiguerra foram tratadas como insurreições virtuais pelos governos social-democratas britânico e alemão. A Suécia foi excepcional. Lá, o ministro das Relações Exteriores, Olaf Palme, liderou uma procissão de tochas contra a guerra até a embaixada dos Estados Unidos e nunca foi perdoado. Em Praga, reformadores comunistas – muitos deles heróis da resistência antifascista durante a Segunda Guerra Mundial – anteciparam aquela primavera proclamando o “socialismo com um rosto humanitário”.

O país foi submerso pela lava de debates e discussões resultantes na imprensa estatal e na televisão. O objetivo de Alexander Dubcek e de seus seguidores era democratizar a vida política no país. Este era o primeiro passo em direção a uma democracia socialista e assim era visto em Moscou e em Washington. Em 21 de agosto, os russos enviaram tanques e esmagaram o movimento. Mais tarde, Alexander Soljenitsyn relatou que, para ele, a invasão soviética na Checoslováquia fora a última prova. Ele percebeu que o sistema nunca poderia ser reformado a partir de dentro, e teria de ser derrubado. Ele não estava sozinho. Os burocratas de Moscou selaram seu próprio destino.

Posteriormente, estudantes mexicanos que pediam o fim da opressão e do partido único foram massacrados um pouco antes da Olimpíada.

Em novembro, houve a erupção do Paquistão. Os estudantes tomaram o aparato estatal de uma ditadura militar corrupta e decadente, apoiada pelos Estados Unidos (soa familiar?). Juntaram-se a eles trabalhadores, advogados, funcionários de colarinho branco, prostitutas e pessoas de outros níveis sociais e, apesar da repressão severa (centenas foram mortos), a luta cresceu e atingiu seu clímax em março de 1969, com a derrubada do marechal Ayub Khan.

O país estava num alto grau de comoção. O clima era radiante. A vitória levou às primeiras eleições gerais da história do país. Os nacionalistas bengalis do leste do Paquistão conquistaram a maioria, o que a elite e os principais políticos se recusaram a aceitar. Uma sangrenta guerra civil levou à intervenção militar da Índia e isso acabou com o antigo Paquistão. Bangladesh foi o resultado de uma sangrenta cesárea.

Houve turbulência por toda parte, inclusive a oposição de Gough Whitlam à Guerra do Vietnã e sua vitória eleitoral na Austrália, quatro anos depois, marcando uma curta ruptura no servilismo da elite política australiana.

O colapso do “comunismo” criou a base para um novo acordo social, o Consenso de Washington, pelo qual a desregulamentação e a entrada do capital privado nos até então sagrados domínios das provisões públicas se tornariam a norma por toda parte, tornando a tradicional socialdemocracia redundante e ameaçando o processo democrático em si.

O pleno emprego é agora lembrado como utopia. O fato de nenhum partido de centro-esquerda não poder nem mesmo propor um imposto de renda redistributivo é um indicativo de quão longe esses líderes foram forçados a ir. Os partidos estão sem rumo. O modelo deles é o da política norte-americana, no qual nenhuma das opções se diferencia.

A esperança nasceu novamente na América do Sul, onde movimentos sociais de base lideraram vitórias eleitorais em vários países, tendo à frente a Venezuela.

No Ocidente, avizinha-se uma crise: as sociedades não podem viver de crédito para sempre. A alteração mais importante que testemunhamos foi a alteração estrutural do mercado mundial: o Extremo Oriente é agora central para o futuro do capitalismo. A China hoje, como a Inglaterra no século XIX, é a manufatura do mundo. O impacto disso na política mundial ainda será sentido. O gigante semi-adormecido talvez acorde algum dia com conseqüências surpreendentes.

Muitos dos que sonharam um dia com um futuro melhor desistiram. “Se você não evoluir, não ganhará” é a máxima que se defende e, ironicamente, a intelligentsia francesa está hoje entre as piores e preside um declínio na cultura desse país.

Os renegados participam de todos os governos europeus e fazem-me lembrar da educada resposta de Shelley a Wodsworth, que depois de dar as boas-vindas à Revolução Francesa regrediu para um conservantismo grosseiro:

Em honrada pobreza tua voz teceu
Músicas consagradas à verdade e à liberdade,
Desertando-as, tu me entristeces,
Assim tendo sido, deverias cessar de ser.*

Penso em outro poeta, o norte-americano Thomas McGrath, que em meados do século passado defendeu o radicalismo dos anos 1930. Seu poema “Carta para um amigo imaginário” poderia ser aplicado aos dias hoje, bem como aos anos 1960:

Conversa selvagem, e fácil o suficiente para rir.
Esse não é o ponto, nem nunca foi.
O que era real era a generosidade, esperança expectante,
O claro e verdadeiro desejo de fazer o bem.
Agora, em outro outono, em nossa nova desobrigação
De uma antiga escuridão enregelante, a geada cai sobre
As ruínas estreladas do meu jardim.
Sobre a minha esperança.
Sobre
Os mortos generosos dos meus anos.
Agora, nas ruas frias,
Ouço a caçada e o longo trovão do dinheiro...*

PUBLICAÇÕES NA IMPRENSA:


Publishnews
2008-05-28




Ensaios marxistas

A revista Margem Esquerda n.11 - Ensaios marxistas (Boitempo, 160 pp., R$ 28) traz um dossiê - "1968, o ano que (quase) mudou o mundo" - no qual é feita análise do impacto e do legado da década de 60, marcada por movimentos sociais. O ano de 1968 se destaca por fatos como os protestos que espalharam-se pelo mundo contra a Guerra do Vietnã, a organização de estudantes franceses, exigindo mudanças sociais radicais e a tomada das ruas da Checoslováquia, do México e dos Estados Unidos pelo povo.

Para lembrar e reivindicar os revolucionários dias dos anos 1960, a publicação reuniu, com a colaboração de Daniel Aarão Reis, autores de diferentes visões, idades e países. Tariq Ali faz um balanço do que ocorreu nessa década de lutas. O "assalto ao céu" de quarenta anos atrás é revisto ainda por Emir Sader. Michael Löwy, Marco Aurélio Santana, Marcelo Ridenti e Ricardo Antunes também contribuem para a edição.


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05/03/2013 - Marx: a criação destruidora
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