O ano de 2011 foi um marco na história da humanidade. A Primavera Árabe derrubou ditadores como as Ben Ali (Túnisia), e Hosni Mubarack (Egito), que duravam décadas. Na Grécia e Espanha houve intensas e massivas mobilizações contra os pacotes de austeridade propostos pelos governos controlados pelos bancos. As ocupações de praça na Espanha, Estados Unidos e diversos outros países questionaram a democracia, e o capitalismo.
Todos esses processos mostraram que, ao contrário do que afirmam os ideólogos da teoria do fim da história, o mundo ainda pode mudar, e a humanidade pode encontrar soluções positivas para resolver os problemas criados pelo capitalismo e seu modo de produção.
Para discutir esses processos, a editora Boitempo, em parceria com a Carta Maior, editou o livro Occupy: movimentos que tomaram as ruas. A obra reúne artigos de diversos intelectuais como: David Harvey, Edson Telles, Emir Sader, Giovani Alves, Henrique Carneiro, Immanuel Wallerstein, João Alexandre Peschanski, Mike Davis, Slavoj Zizek, Tariq Ali, e Vladimir Safatle.
O lançamento do livro aconteceu na última quarta-feira (4/4) no Espaço Revista Cult, e contou com a presença de Henrique Carneiro, Edson Teles e Vladimir Safatle que realizaram um debate, seguido de uma noite de autógrafos.
Debate
O professor de História da USP, Henrique Carneiro, abriu o debate celebrando a importância da publicação. “Esse é o primeiro livro no Brasil que trata desse tema tão significativo para a história contemporânea”, afirmou. Ele lembrou ainda que já existem muitos livros discutindo as mobilizações em países como a Espanha.
Sobre as mobilizações de 2011, Carneiro afirmou que elas escaparam dos modos tradicionais de organização em partidos, e sindicatos surgindo de maneira espontânea. Ele aponta ainda que os novos movimentos tem uma dificuldade de concretizar um horizonte estratégico, e propostas de transformação real da sociedade capitalista.
“Eles (os manifestantes) tem uma clara noção do que não querem, mas tem dificuldade de concretizar um programa alternativo para a sociedade capitalista”.
Para ele, os novos movimentos tem que inovar nas formas de mobilização, e organização social, pois a sociedade e o capitalismo se transformaram muito ao longo do tempo. Dessa forma é preciso buscar novas formas que estejam mais ligadas a atual conjuntura mundial.
Ele afirmou, no entanto, que os novos movimentos tem buscar referências em movimentos, e revoluções anteriores para não correr o risco de incorrer em erros que já foram cometidos anteriormente, e para se inspirar em práticas que já mobilizaram milhares na história.
O professor de filosofia da USP, Vladimir Safatle, retomou as origens de todas essas mobilizações lembrando que o início dos protestos ocorreu quando um ambulante ateou fogo em seu próprio corpo na Tunísia. O fato deu origem a primavera árabe que derrubou diversos ditadores da região.
Para ele, a juventude desempregada, e desencantada com as possibilidades de futuro foi às ruas em um engajamento rápido, de longo prazo, e na maioria dos casos sem vínculos partidários ou sindicais.
Para o professor, o grande problema que surgiu depois das vitórias das mobilizações foi o dia seguinte, o que fazer depois que derrubaram um ditador que ficou décadas no poder. “(Na Tunísia) o primeiro que disse o que deveria ser feito foi um partido ligado islamismo. Ele orientou a população, que seguiu os rumos que eles apontaram. Isso aconteceu porque o movimento tinha uma capilaridade nas comunidades, e movimentos tunisianos”.
Sobre as mobilizações na Europa, ele afirmou que foram discutidas questões profundas sobre participação popular e economia. Sob o slogan “democracia real já”, os manifestantes pedem maior participação popular nas decisões do Estado, em especial naquelas mais importantes.
Esses questionamentos ganharam peso quando os diversos governos, incluindo ai os ditos socialistas, começaram a aprovar pacotes de austeridade, que destruíram um sistema de proteção social que durava anos, o que acarretou em uma grande massa de desempregos sem direitos.
Todas essas medidas e pacotes de austeridade foram feito a despeito da vontade da maioria da população, que estava nas ruas protestando. “O caso grego é emblemático, quando o Georges Papandreou, então primeiro ministro grego, ameaçou convocar um plebiscito sobre a questão da dívida pública, foi obrigado a renunciar uma semana depois. Em seu lugar assumiu um tecnocrata que está fazendo todas as reformas que os bancos pedem”.
Brasil
O professor de filosofia da Unifesp, Edson Teles, comentou a situação do Brasil dentro desse novo contexto global. Com algumas exceções, o Brasil ficou fora dessa grande onda de protestos, para Teles isso remonta a formação da democracia brasileira, que na visão do professor foi tutelada, não quebrou as velhas estruturas da ditadura, silenciou e desmobilizou a sociedade brasileira.
Ele cita o caso da luta pela anistia para os presos políticos, a campanha pelas diretas já, e a constituição de 1988 como exemplos disso. “A democracia brasileira nasce em meio a processo de derrotas e desmobilizações”, afirmou o professor.