O fato mais marcante do ano passado foi sem dúvida a série de protestos que tomou o mundo. Seja na Primavera Árabe ou com as ocupações que chegaram até o Brasil, 2011 foi um período de revoltas.
Por mais que as ocupações tenham acontecido debaixo do nariz ocidental, parece que a Primavera Árabe foi mais analisada e entendida. Pudera, as revoltas que tomaram conta do Oriente Médio e que até hoje tem eco na Síria tem objetivos mais claros e um maniqueísmo mais fácil de entender. Sim, os ditadores são malvados e o povo merece ter liberdade nesses países.
Mas e a outra parte do ano revoltado, quando a entenderemos? O livro Occupy – Movimentos de Protesto que tomaram as ruas, recém lançado pela Boitempo, tenta cumprir esse papel com uma coleção de artigos de pensadores que se identificam mais com a esquerda. é abertamente pró ocupações, mas isso não significa que todos concordam com todos. Há divergências essenciais sobre o sentido do movimento e os direcionamentos a serem tomados.
O jornalista e escritor Tariq Ali, por exemplo, mostra uma proposta utópica: “Por que não unir todos que pudermos por meio de uma carta de reivindicações – um “grandioso protesto” ao parlamento que representa os interesses dos ricos – e marchar com um milhão ou mais para entregar o protesto em pessoa no próximo outono?”.
Além de Ali, outros dez articulistas participam do livro Occupy.
Uma pena que dentre os brasileiros convidados, nenhum se aprofundou na análise para o contexto local. Aqui em SP, o Vale do Anhangabaú chegou a virar uma espécie de ponto turístico político quando o acampamento estava montado. Nem mesmo a transcrição de um discurso do professor de filosofia da USP Vladimir Safatle aos acampados paulistanos se detém na análise das idiossincrasias locais.
Os artigos foram escritos no calor do momentos, quando as ocupações estavam ainda chamando muito a atenção. Nenhum pareceu detectar o arrefecimento das ocupações, o o que faz Occupy ser um livro recém lançado, mas com cara de história distante. Isso pode atrapalhar o leitor no entendimento de que muitas reflexões expostas ainda são muito válidas. As ocupações podem ter esfriado, mas os problemas persistem.
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Cabe destacar o trabalho de corte de custo da Boitempo e da Carta Maior, que fez esse lançamento custar só R$ 10 na versão impressa e R$ 5 no ebook. Isso que a obra tem um apelo relativamente pop. Se está a esse preço no lançamento, imagina quando chegar nos sebos.