O livro é uma coletânea de artigos de diversos autores, brasileiros e estrangeiros, em geral atuantes no cenário político-intelectual, que procura refletir sobre o fenômeno que surgiu inicialmente no norte da África em 2011, em países como a Tunísia e na Líbia, que ficou conhecido como a “Primavera Árabe”. De modo impressionante, tais manifestações populares se alastraram para a Europa, com protestos, ocupações e greves na Espanha e na Grécia, revoltas em Londres e mobilizações também nos Estados Unidos. Os manifestantes, ao tomarem Wall Street, onde se localiza a Bolsa de Valores de Nova York, um ícone do sistema capitalista, batizaram o movimento como “Occupy Wall Street”.
No volume, vários textos se detêm na análise das causas do fenômeno: a crise econômica, o desemprego, a flagrante desigualdade social – que faz com que 1% da população tenha tantos recursos quanto a imensa maioria, os “99%”. Há ainda o exame do impacto social e da forma completamente inovadora que auxiliou o sucesso das mobilizações, com a utilização expressiva da internet e das redes sociais, o diagnóstico e os desafios da esquerda mundial, com destaque para o texto de Immanuel Wallerstein (nesse contexto, a figura de Barack Obama é mais de uma vez criticada ao longo do livro). Por fim, há também a análise das consequências de tais manifestações, estas ainda de difícil previsão. Embora de um modo geral o tom seja de entusiasmo com relação ao movimento, como no texto de Mike Davis, percebe-se também alguma preocupação dos autores com relação ao seu futuro.
No início de cada capítulo há fotos, imagens e ilustrações que marcaram ou fizeram parte de algum modo do “Occupy Wall Street”. Tais imagens por vezes remetem o leitor à dramaticidade do evento e por vezes exibem o leve humor que tem sido presença constante nessas manifestações populares. Especialmente na Europa e nos Estados Unidos, o movimento se propõe a ser acima de tudo pacífico, o que faz com que os manifestantes utilizem outras “armas”, como o bom humor e a utilização e exposição dos acontecimentos por meio da internet e das mídias sociais.
Não se pode negar que há pontos de vista polêmicos no livro. O texto de Slavoj Žižek é um bom exemplo. Ao abordar a falta de reivindicações claras e precisas por parte do movimento, entende que o caráter “nebuloso” da causa pode ser algo positivo. Ao denunciar, de acordo com Badiou a “ilusão democrática”, Žižek afirma a importância do gesto da rejeição a todo conteúdo positivo, gesto esse que abriria espaço para um conteúdo novo, com uma transformação radical das relações econômicas, pois estaria fora dos mecanismos pretensamente democráticos, que, segundo o autor, efetivamente impediriam toda mudança.
Os textos de Emir Sader e de João Alexandre Peschanski são dedicados a uma das principais causas das mobilizações, a crise econômica. Segundo Peschansky, a crescente desigualdade econômica é uma das principais bandeiras do movimento, e o combate a este problema é algo essencial, já que, de acordo com o autor, a desigualdade severa termina por minar o próprio funcionamento da democracia. Giovanni Alves também se detém sobre o impacto da economia no surgimento dos protestos. Os manifestantes são parte dos “99%”, o que exprime, segundo o autor, a universalização da posição econômica precária da grande maioria. Alves afirma que o “Occupy Wall Street” não é um movimento social anticapitalista propriamente falando, mas deixa evidente o sentimento de indignação moral, ainda que não identifique precisamente as suas causas históricas, sociais e econômicas. A crítica deste autor é que os movimentos sociais, apesar de conterem em si uma grande carga de insubmissão, não chegam realmente a sair da vida cotidiana. Neste contexto, Alves se diferencia de Žižek, ao declarar que apesar de bem expor as fraquezas da “ordem burguesa senil”, é preciso pensar no futuro e há muitas dúvidas a respeito da capacidade efetiva dessas manifestações de produzir mudanças políticas e sociais.
O texto de Vladimir Safatle também merece destaque, pois não só trata dos movimentos de protestos, como é, ele mesmo, produto de uma palestra proferida no Vale do Anhangabaú para manifestantes do “Ocupa Sampa”. Trata-se então de uma reflexão sobre o “Occupy”, de modo geral, gerada no seio do próprio movimento. Nele, o filósofo apresenta o paradoxo entre a democracia “real” e democracia “por vir”, e a importância do papel do pensamento, como algo ativo e imprescindível para a mudança política e econômica substancial. Safatle caracteriza as atuais mobilizações como parte de um grande processo, que tende a ser lento e portanto não tem necessidade de expor de pronto as suas reivindicações precisas.
No que tange ao papel da mídia, o texto de David Harvey faz uma apresentação do “Partido de Wall Street”, e como este faz um controle do aparato estatal, sempre voltado para a acumulação de capital. Ele mostra os tentáculos de Wall Street na manipulação de dados sobre o meio ambiente e mesmo sobre as opiniões de especialistas, que são empregados nos institutos de pesquisa e nas universidades que este mesmo “partido” financia. No entanto, apesar disso, para o autor, há um poder efetivo de oposição por parte da coletividade, que se exprime na ocupação do espaço público. Criticando os “revolucionários” que exprimem sua indignação e descontentamento confortavelmente sentados em suas poltronas por intermédio da internet, ele afirma “são os corpos nas ruas e praças, não o balbucio de sentimentos no Twiter ou Facebook que realmente importam”.
Neste sentido, Tarik Ali destaca a abrangência e a força dos protestos – segundo ele, pessoas saíram às ruas em mais de 90 cidades – a diferença das manifestações atuais em relação ao passado, a sua organização, bem como as suas causas, como o desemprego e a falta de perspectivas no futuro, especialmente por parte dos jovens. Ali reconhece que há reformas estruturais necessárias, mas que estão submetidas a um processo lento. Segundo ele, é preciso muito tempo e organização para alcançar “poucas vitórias”.
Um contraponto interessante e conexo ao tema do livro é o texto de Edson Teles. Nele, o autor analisa as relações, por vezes nada evidentes, entre democracia e segurança pública. Ao analisar a atuação do Estado junto a grupos menos favorecidos socialmente, como os habitantes de Pinheirinho e os moradores da “Cracolândia”, ele destaca a relação espúria entre os interesses do mercado e aqueles que, desprovidos de recursos, passam a ser desprovidos de direitos. Nesse sentido, é triste constatar que, nas ocasiões examinadas pelo autor, ao contrário dos protestos tratados pelo livro, esses que não têm direitos, também não têm voz. Diferentemente da voz dos 99% ouvida em Wall Street, o que se ouviu nesses casos foi a voz do Estado, que em nome de um discurso eminentemente jurídico-legalista, violou diversos direitos. Nesse sentido, Teles questiona em que medida uma política de inclusão social é compatível com a lógica do mercado determinada pelas elites do sistema financeiro. Essa é uma das questões centrais levantadas pelos protestos ao redor do mundo, e que, em terras brasileiras, torna-se ainda mais crucial.
O livro é escrito por especialistas, professores, jornalistas e cientistas sociais, de forma clara e objetiva. Por isso, é um texto acessível ao grande público, mas que certamente pode agradar também o público especializado em filosofia e política. O conjunto dos artigos oferece uma boa apresentação dos núcleos problemáticos que permeiam um fenômeno tão complexo como os novíssimos movimentos sociais. Seria útil esclarecer melhor ao leitor a diferença entre os diversos tipos de mobilização que ocorreram (e ocorrem) pelo mundo: o que as motivou nos Estados Unidos não é exatamente o mesmo que moveu a Tunísia e o Egito, bem como o Chile. A análise das questões é multifacetada mas não deixa de haver uma articulação profunda entre os diferentes capítulos, o que faz desta obra um instrumento interessante para uma abordagem mais reflexiva sobre este fenômeno atual das sociedades contemporâneas.