Em algumas ocasiões o escritor e historiador Luiz Bernardo Pericás, 42, esteve na cidade de Marília. Duas visitas foram para ministrar palestras no campus da Unesp (Universidade Estadual Paulista). “A última vez que estive aí foi em agosto do ano passado. Na ocasião, fiz uma palestra sobre os cangaceiros e outra sobre Maio de 1968 na mesma Universidade”, contou. Assim como pelo menos dois professores da Unesp de Marília, Giovanni Alves e Antônio Carlos Mazzeo, Pericás é autor da Boitempo
Editorial, com sede em São Paulo. Foi pela Boitempo que o escritor lançou,
no começo do mês, o livro Cansaço, a longa estação. A editora é a casa de
algumas das mais aclamadas mentes brasileiras da escrita, como Maria
Rita Kehl, Luiz Rufato, o mariliense José Arbex Júnior e o cronista Flávio
Aguiar, de Crônicas do mundo ao revés. Aliás, Aguiar assinou o posfácio
do livro e sintetiza Cansaço como uma viagem no espaço e no tempo, “e também nos vários registros linguísticos de nosso país, em particular do seu mundo rústico”.
A rusticidade, presente em obras anteriores, como em Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, ambas fortes influências para Pericás, se repete também em textos de outros autores que irrigam a lavra do autor de Cansaço, como a gente do abismo de Jack London ou a miséria material e humana relatada por Máximo
Gorki. Autores brasileiros, russos, norte-americanos e argentinos completam a safra literária colhida pelo escritor, que acaba de conquistar com ‘Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica’ (Boitempo, 2010) o prêmio Casa de Las Américas 2012, de Cuba.
Para ele, receber o Casa de Las Américas consistiu no reconhecimento da qualidade da produção literária. “Este livro foi o resultado de muitos anos de pesquisa. Fiz um levantamento bibliográ co enorme, viajei pelo agreste e sertão de vários Estados nordestinos, entrevistei diversos estudiosos do cangaço e temas correlatos e passei um ano como ‘visiting scholar’ na Universidade do Texas, em Austin, para colher material na Benson Library, uma das maiores bibliotecas de temas latino-americanos dos Estados Unidos. A obra foi inovadora em vários aspectos, discutiu alguns assuntos que até então não tinham sido colocados em pauta e aprofundou diferentes questões relacionadas ao banditismo rural do Nordeste brasileiro, como a questão de classe, relações sociais, aspectos raciais, a relação com os comunistas e os aspectos arcaicos e modernos do cangaceirismo. Creio que consegui fazer uma análise bastante so sticada do tema. A repercussão na época do lançamento foi excelente”.
Sobre a repercussão de ‘Cansaço’, Pericás acredita que ainda é cedo para analisar. O livro está ainda em seu primeiro mês de vendas. ‘Os cangaceiros’, por sua vez, teve a primeira edição esgotada em apenas quatro meses. Marca
que impressa para uma obra literária brasileira, que, em média, tem sua primeira edição esgotada de dois a três anos. Sobre produção literária, ‘Cansaço, a longa estação’ e projetos futuros, Pericás atendeu a reportagem do Correio Mariliense, que, a seguir, publica a entrevista na íntegra.
Correio Mariliense: Como a sua formação em história influencia a sua literatura?
Pericás: No caso de Cansaço, a longa estação, minha formação de historiador
foi importante e útil. Escrevi esta novela na mesma época em que preparava meu livro ‘Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica’ e a pesquisa bibliográ ca, documental e oral que realizei para aquela obra me ajudou bastante a construir o cenário e a linguagem desta narrativa ficcional.
Como a inspiração ou a vontade literária lhe chega? Você costuma escrever à mão ou digita no computador? Mantém hábito de escrever a qual hora do dia ou da noite?
Pericás: Sempre utilizo o computador para escrever. Ainda que a inspiração seja importante, o texto só é analizado após um trabalho árduo, intensivo, durante horas e horas a fio, por vezes, varando noites, relendo a história dezenas de vezes, revisando continuamente. Mesmo um livro curto como ‘Cansaço, a longa estação’, exige muita dedicação para ser escrito. É um processo longo e estafante.
Como 'Cansaço, a longa estação' foi recebido pelos leitores e pela crítica?
Pericás: O livro acaba de ser lançado e ainda é cedo para dizer. Já recebi
correspondência de algumas pessoas que leram e gostaram. De qualquer forma, o fato de o grande ator, apresentador e diretor teatral Antonio Abujamra ter se encantado com o livro e tecido enormes elogios já me deixou bastante contente.
Quais autores mais lhe influenciam?
Pericás: Gosto muito de autores estrangeiros, escritores como Jack London, Ernest Hemingway, William Saroyan, Kurt Vonnegut, Thomas Wolfe, Sherwood Anderson, Erskine Caldwell, William Faulkner, Mark Twain, Jack Kerouac,
Ernesto Sábato, Roberto Arlt, Allen Ginsberg, Dylan Thomas, Nazim Hikmet, Pablo Neruda, Máximo Górki, Leonid Andreiev e tantos outros. Entre os brasileiros, sem dúvida, Guimarães Rosa (nosso maior escritor, um verdadeiro gênio), assim como Graciliano Ramos, João Alphonsus, João Antônio, só para
citar alguns. É difícil, contudo, encontra uma influência direta de qualquer um deles neste meu novo livro, ainda que paralelos tênues possam ser feitos com Guimarães e Graciliano, talvez na temática e construção da linguagem usada na história.
O que significou ganhar menção honrosa no prêmio Casa de Las Américas 2012, de Cuba, com 'Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica'?
Pericás: As críticas na imprensa foram altamente elogiosas e a menção honrosa do Prêmio Casa de Las Américas de Cuba coroou o êxito do livro. Eu me senti honrado com o reconhecimento. O livro já está sendo traduzindo para o espanhol por Rodolfo Alpízar Castillo (o premiado tradutor de José Saramago) e, se
tudo der certo, será publicado na Ilha (Cuba) nos próximos meses.
Como é sua relação com a literatura digital?
Pericás: Sou antiquado neste sentido. Gosto dos livros “físicos”, “palpáveis”, principalmente edições antigas. Sempre que posso vou a sebos. Ainda assim, colaboro mensalmente com crônicas e contos para o blog da Boitempo Editorial.
São histórias que têm como protagonista o sapo Gonzalo, um batráquio argentino mal humorado, provocador e politicamente incorreto, que está sempre a apontar as mazelas sociais e os podres do nosso meio político. Gonzalo é uma caricatura, quase um personagem dos quadrinhos, como a Mafalda ou o Condorito. Só que mais crítico e rabugento do que eles!
E os seus projetos futuros?
Pericás: Estou escrevendo um livro sobre o historiador Caio Prado Júnior e organizando outro, sobre “intérpretes” do Brasil, com o amigo Lincoln Secco, também autor da Boitempo Editorial. Tenho planos para um livro sobre rock e outro de ficção, em breve. Recentemente também organizei, traduzi e prefaciei uma coletânea do jornalista e teórico político marxista peruano José Carlos
Mariátegui sobre a revolução russa, que será publicada pela Editora Expressão Popular ainda no primeiro semestre.