No Brasil para o lançamento de três títulos da editora Boitempo (o livro-homenagem István Mészáros e os desafios do tempo histórico – orgs. Ivana Jinkings e Rodrigo Nobile –; o segundo volume de Estrutura Social e formas de consciência – a dialética da estrutura e da história, de Mészáros; e o número 16 da revista Margem Esquerda, publicação semestral de ensaios marxistas), o escritor húngaro István Mészáros proferiu palestra, dia 20, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Sem ter mais espaço nas escadas, muitas pessoas ficaram do lado de fora do auditório, onde puderam acompanhar a palestra por meio de um telão. A conferência foi proferida em inglês, com leitura do artigo traduzido para o português pelo sociólogo e professor da Uerj Emir Sader. Mészáros falou sobre a crise do capital que, de acordo com ele, não se iniciou em 2007 com a ruptura da bolsa especulativa imobiliária nos Estados Unidos, mas data de pelo menos 45 anos. Ele próprio afirmou que iniciou seu livro “Estrutura Social e formas de consciência” nos idos de 1967, quando já afirmava que o mundo estava diante de uma crise estrutural do capital.
Mudança estrutural
Mészáros afirmou que a crise do capital, com suas repercussões em países como a Grécia e Espanha deixam à mostra apenas “a ponta do iceberg”. A crise, para o escritor, é estrutural e afeta o conjunto do sistema, embora muitos afirmem que se trata de uma crise cíclica: “O que o sistema não encara é o caráter estrutural da crise, muito mais profundo que as crises cíclicas que estão acontecendo”, disse. Justamente por isso, escolheu para esta palestra o tema: “Crise estrutural necessita de mudança estrutural”.
De acordo com Mészáros, quando ele propõe uma mudança estrutural radical, não significa que está se baseando apenas em utopias não realizáveis, mas em ações que podem ser concretizadas: “A característica definidora primária das teorias utópicas modernas é precisamente a projeção de que a melhoria pretendida nas condições de vida dos trabalhadores pode ser alcançada no âmbito da base estrutural existente da sociedade”, disse o escritor. Daí a importância em se estabelecer a real complexidade da crise do capital. Segundo Mészáros, enquanto o sistema não for capaz de avaliar criticamente a crise estrutural, também não haverá condições de efetivar as mudanças propostas pelos pensadores de esquerda.
Aprofundamento da crise
Mészáros salientou que a crise é profunda e cada vez mais grave: “Ela necessita da adoção de remédios estruturais abrangentes a fim de alcançar uma solução sustentável”. Para o conferencista, o erro fundamental está em não avaliar a crise como algo que abale as próprias estruturas do capital, mas como uma crise conjuntural periódica que se resolve dentro da própria estrutura do sistema: “Ela não só se resolve, como abala as próprias bases do capital”, afirmou.
Aspectos da crise
István Mészáros falou de quatro principais aspectos da crise estrutural do capital, que são, em linhas gerais, os pontos que a diferenciam de uma crise cíclica ou periódica. São eles: 1 – O seu caráter universal. A crise não está restrita a uma esfera particular, por exemplo financeira ou comercial, ou afetando um ramo particular de produção; 2 - Seu escopo global, “no sentido mais literal e ameaçador do termo”, em lugar de limitado a um conjunto particular de países como foram todas as principais crises do passado, segundo o escritor; 3 – Sua escala de tempo extensa, contínua e de perfil permanente, em lugar de limitada e cíclica, como foram todas as outras crises do capital, com períodos de duração de 7 a 10 anos, de acordo com Mészáros; 4 – Em contraste com as interrupções com colapsos do passado, seu modo de desdobramento poderia ser chamado de gradual: “Isto é, quando a complexa maquinaria agora ativamente engajada na administração da crise e no deslocamento mais ou menos temporário das recentes contradições perder sua força”.
Capitalismo organizado avançado
Essa categoria de capitalismo teria como sentido ou objetivo integrar a classe operária, especialmente europeia. Esse capitalismo seria avançado no sentido de desenvolvimento econômico maior, mas possui uma fase de expansão e uma fase de decadência que passa a destruir as forças produtivas. No entanto, Mészáros afirma que essa ideia de capitalismo organizado avançado é um grande equívoco, pois o sistema não é capaz de suprir necessidades básicas da classe operária e nem de integrá-la ao capital: “Não por acaso foram registradas 35 sublevações por questões básicas de caráter elementar e necessidades básicas de alimentação no conjunto do sistema. O que demonstra que o sistema não tem podido satisfazer as necessidades básicas da maioria da população”.
Erradicação do capital
Para o escritor, o maior desafio da humanidade hoje não é só a derrota do capitalismo, mas também ter uma solução que seja estável, pois “tudo que pode ser destruído também pode ser restaurado. O que está em questão é a necessidade de ruptura estrutural”, afirmou. Ele sublinhou que a erradicação do capital é a alternativa para a resolução dos graves problemas enfrentados na atualidade: “Essa é a questão central de todo o trabalho da vida de Marx”, afirmou Mészáros.
O avanço do capital com acentuada destruição da natureza hoje põe em risco a existência humana e abre espaço para o que Mészáros chamou de produção destrutiva, “em lugar da outrora louvada destruição criativa ou produtiva. Esses são os graves problemas sistêmicos da nossa crise estrutural, que só podem ser solucionados por uma completa mudança estrutural”, afirmou.
Para encerrar sua palestra, István Mészáros citou as últimas linhas de seu livro Estrutura social e formas de consciência: “Naturalmente, a dialética histórica do Estado não podia oferecer nenhuma garantia de resultado positivo. Esperar isso significaria renunciar ao nosso papel no desenvolvimento da consciência social que integra a dialética histórica. Radicalizar a consciência social, o espírito emancipatório é o que precisamos para o futuro. E precisamos disso mais do que nunca”, finalizou em português.
Apoio ao evento
A Adufrj-SSind e o Lema-UFRJ participaram da organização do ciclo de palestras, em conjunto com o PPFH-Uerj e a editora Boitempo. O texto integral da conferência de István Mészáros na Uerj será publicado na edição nº 17 da revista Margem Esquerda.