Eventos como o holocausto e o Gulag mostram, como dizia Kant, que o progresso talvez não tenha ocorrido. A globalização desenha partidos políticos ainda com resquícios de totalitarismo que circundam o mundo e nos faz perguntar: onde estamos hoje?
Não confio na ideia de comunismo como um retorno (num nível mais alto) a formas pré-modernas de vida comunal, ou a ideia de que nós podemos nos apoiar nessas formas como uma defesa contra as forças corrosivas da modernização. Parece-me muito mais apropriado do que esta instância nostálgica a instância flexível de praticar o que, no darwinismo contemporâneo, se tem chamado de exaptação1. Existem dois tipos de exaptação: (1) adaptações que inicialmente emergiram da seleção natural e foram subsequentemente cooptadas para outra função (adaptações cooptadas); (2) características que não surgiram como adaptações por meio da seleção natural, mas como efeito colateral de processos adaptativos e que foram cooptadas por uma função biológica. Algo que emergiu com dado propósito (ou por nenhum propósito) é reapropriado para um propósito totalmente diferente. Esse é um dos paradoxos do progresso histórico: um elemento que era apenas um remanescente do passado, um obstáculo para o desenvolvimento, pode se tornar, numa nova situação, o próprio recurso do novo. Isso é o que, penso eu, Linera pretende atacar com sua noção de potências: a arte da política emancipatória hoje implica descobrir os potenciais inesperados do novo que permanecem dormentes nas velhas formas. Mesmo no mundo desenvolvido, muitos analistas notaram como as últimas tecnologias digitais parecem gerar novas formas de "tribalismo". A armadilha a ser evitada aqui é a da "modernidade alternativa". Em seu livro sobre a modernidade, Fredric Jameson se refere à "universalidade concreta" hegeliana em sua concisa crítica às teorias das "modernidades alternativas":
"Como então os ideólogos da 'modernidade' (em seu sentido atual) conseguem distinguir seu produto - a revolução da informação e a modernidade globalizada do livre mercado - do detestável tipo mais antigo, sem se verem envolvidos nas respostas a graves questões políticas e econômicas, questões sistemáticas, que o conceito de pós-modernidade torna inevitáveis? A resposta é simples: falamos de modernidades 'alternadas' ou 'alternativas'. Agora, todo mundo conhece a fórmula: isso quer dizer que pode existir uma modernidade para todos, diferentemente do modo padrão anglo-saxão, hegemônico. O que quer que nos desagrade a respeito deste último, inclusive a posição subalterna a que nos condena, pode apagar-se pela ideia tranquilizadora e 'cultural' de que podemos confeccionar a nossa própria modernidade de maneira diversa, dando margem, pois, a existir o tipo latino- americano, o indiano, o africano, e assim por diante [..]. Mas isso seria passar por cima de outro significado fundamental da modernidade, que é a de um capitalismo mundial."2
É por isso que a esperança por uma modernidade alternativa, geralmente, evita a questão central: ela liberta a noção universal de modernidade de seu antagonismo, da forma como está sustentada no sistema capitalista, relegando esse aspecto a somente uma de suas subespécies históricas. Não se deve esquecer que a primeira metade do século XX foi marcada por dois grandes projetos que se encaixam perfeitamente nesta noção de "modernidade alternativa": fascismo e comunismo. Não seria a ideia básica de fascismo aquela de uma modernidade que provém de uma alternativa ao modelo anglo-saxão liberal-capitalista, de salvar o núcleo da modernidade capitalista jogando fora sua distorção judaico-individualista- lucrativa "contingente"?
Então onde estamos hoje? Alain Badiou memoravelmente caracterizou nosso predicado pós-socialista como "esta problemática situação na qual vemos o Mal a dançar sobre as ruínas do Mal"3. Não pode haver nenhum traço de nostalgia; os regimes comunistas foram "maus" - o problema é que o que os substituiu é também "mau", embora de uma maneira diferente.
Tanto na Europa ocidental como na oriental, há sinais de uma reorganização de longa duração do espaço político. Até recentemente, esse espaço era em geral dominado por dois grandes partidos: um de centro- direita (democrata-cristão, liberal-conservador, Partido do Povo, etc.) e um de centro-esquerda (socialista, social-democrata, etc.), suplementados por partidos menores dirigidos a um eleitorado mais restrito (ecologistas, liberais, etc.). O que progressivamente emerge agora é um espaço ocupado, ao contrário, por um partido que representa o capitalismo global como tal (geralmente mais tolerantes em questões como o aborto ou o direito dos homossexuais e das minorias religiosas e étnicas) e, por outro lado, um partido populista anti- imigrantes cada vez mais forte (acompanhado em suas bases por grupos explicitamente fascistas e neofascistas). O caso exemplar é a Polônia: com o desaparecimento dos ex-comunistas, os principais partidos são agora o "anti-ideológico" partido centrista liberal do primeiro-ministro Donald Tusk e o conservador partido cristão dos irmãos Kaczynski. Na Itália, Silvio Berlusconi é a prova de que mesmo esta derradeira oposição não é inabalável: sua Forza Italia é tanto o partido do capitalismo global quanto a tendência populista anti-imigrantes. Na esfera despolitizada da administração pós-ideológica, a única maneira de mobilizar o eleitorado é espalhar o medo (dos imigrantes, do vizinho).
CAMINHO IDEOLÓGICO?
Não seria o movimento Tea Party nos Estados Unidos a própria versão desse populismo de direita que gradualmente emerge como única oposição ao consenso liberal? O movimento Tea Party tem, é claro, algumas características específicas dos Estados Unidos, o que nos permite prever com segurança que seu crescimento será estritamente correlato ao do futuro declínio daquele país como potência mundial. Ainda mais interessantes são os conflitos entre o Partido Republicano e o Tea Party que já eclodem aqui e ali: os "cabeças" dos bancos já se encontraram com os líderes do Partido Republicano, que lhes prometeram repelir a lei Volker, que limita as especulações que levaram a crise de 2008 - o Tea Party tem como sua principal tarefa os cortes tributários de Bush aos mais ricos, aumentando em centenas de bilhões de dólares o déficit que pretende abolir. Por quanto tempo continuará essa maestral manipulação ideológica? Por quanto tempo a base do Tea Party estará presa à irracionalidade fundamental de sua agenda de proteger o interesse do povo trabalhador comum por meio de privilégios aos "ricos exploradores", contrariando, assim, seus próprios interesses? É aqui que a batalha ideológica começa: a flagrante irracionalidade dos protestos do Tea Party testemunha o poder da ideologia da "liberdade do indivíduo contra a interferência estatal", capaz de distorcer até mesmo os fatos mais elementares.
BARREIRAS IMATERIAIS
A verdade do capitalismo global são os muros que se erguem ao redor do mundo - embora não sejam da mesma natureza do Muro de Berlim, o ícone de Guerra Fria. Os muros de hoje parecem não pertencer à mesma noção, uma vez que um mesmo muro não raro serve a múltiplas funções: defesa contra o terrorismo, contra os imigrantes ilegais, contra o contrabando, contra ocupações de terra, etc. Entretanto, em vez dessa aparente multiplicidade, Wendy Brown está certa em insistir que estamos lidando com um só fenômeno, embora seus exemplos frequentemente não sejam percebidos como casos de uma mesma noção. Os muros de hoje são uma reação à ameaça contra a soberania dos Estados nação, imposta pelo processo corrente de globalização:
"[...] em vez de expressões ressurgentes da soberania dos Estados nação, os novos muros são ícones de sua erosão. Embora possam parecer símbolos hiperbólicos de tal soberania, como toda hipérbole, revelam um tremor, uma vulnerabilidade, uma dúvida ou instabilidade no cerne do que pretendem expressar - qualidades que são, elas próprias, antagônicas à soberania e, portanto, elementos de sua desintegração."
O que nos salta aos olhos é a natureza teatral - e, em certa medida, ineficiente - desses muros: basicamente, eles consistem de materiais démodé (concreto e metal), uma contramedida estranhamente medieval às forças imateriais que ameaçam efetivamente a soberania estatal de hoje (mobilidade digital e comercial, armas modernas). Brown também está certa em acrescentar religiões organizadas à economia global como à principal agência trans-estatal que impõe uma ameaça à soberania do Estado - pode-se argumentar que a China, por exemplo, a despeito de suas concessões recentes à Religião como instrumento de estabilidade social, opõe-se tão ferozmente a certas religiões (budismo tibetano, movimento Falun Gong, etc.) precisamente por perceber nelas uma ameaça à soberania e à unidade estatal - budismo sim, mas sob controle estatal; catolicismo sim, mas os bispos nomeados pelo papa devem ser rastreados por autoridades chinesas.
Contra essa ofensiva do capitalismo global e seu duplo espectral fundamentalista, testemunhamos uma série de eventos que só podem ser designados como sublimes. Em seu Con' ito das faculdades, escrito por volta de 1790, Immanuel Kant faz uma pergunta simples, mas difícil: existe um progresso de verdade na história? (No sentido de progresso ético, liberdade, e não simples desenvolvimento material.) Kant admitiu que a história real é confusa e não permite provas claras. Basta pensar como o século XX trouxe democracia e bem-estar sem precedentes, mas também o holocausto e o gulag... Kant conclui, porém, que embora o progresso não possa ser provado, podemos discernir sinais que o indicam possível. Kant interpretou a Revolução Francesa como um desses sinais que apontavam em direção à possibilidade de liberdade: o até então impensável aconteceu, um povo inteiro destemidamente afirmou sua liberdade e igualdade. Para Kant, muito mais importante do que a (sangrenta) realidade do que aconteceu nas ruas de Paris foi o entusiasmo decorrente dos eventos na França sob os olhos dos observadores simpatizantes de toda a Europa (e também do Haiti!):
"A recente Revolução de um povo que é rico em espírito pode muito bem fracassar ou vencer, acumular miséria e atrocidade. No entanto, faz emergir no coração dos espectadores (que não estão, eles próprios, envolvidos) a escolha por um dos lados de acordo com os desejos que se ligam ao entusiasmo e que, uma vez que sua própria expressão não é desprovida de perigo, só pode ser causada por uma disposição moral no gênero humano."
Essas palavras não se encaixam perfeitamente nos atuais levantes egípcios? A Revolução Francesa foi, para Kant, um sinal da história no triplo sentido de um signum rememorativum, demonstrativum, prognosticum. Os levantes egípcios também são um sinal de que a memória do longo passado de opressão autoritária e a luta por sua abolição reverberam; um evento que agora demonstra a possibilidade de mudança; uma esperança para conquistas futuras. Quaisquer que sejam as dúvidas, medos e compromissos, por aquele instante de entusiasmo, cada um de nós foi livre e participou da liberdade universal da humanidade. Todo o ceticismo encenado atrás das portas, mesmo por muitos progressistas preocupados, se provou errado.
1GOULD, Stephen Jay e LEWONTIN, Richard, "¼ e Spandrels of San Marco and the Panglossian Paradigm: A Critique of the Adaptationist programme" (1979), em GOULD, Stephen Jay, SACKS, Oliver e ROSE, Steven, e Richness of Life: e Essential Stephen Jay Gould (Nova York, W. W. Norton, 2007).
2 JAMESON, Fredric, Modernidade singular: ensaio sobre a ontologia do presente (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005), p. 22.
3BADIOU, Alain, Of an Obscure Disaster (Maastricht, Jan van Eyck Academie, 2009), p. 37.
4BROWN, Wendy. Walled States, Waning Sovereignty (Nova York,
Zone Book, 2010), p. 24. |